A SEGUNDA PROFISSÃO MAIS ANTIGA DO MUNDO: ESPIÕES, TRAIÇÕES E OPERAÇÕES SECRETAS QUE MUDARAM A HISTÓRIA
INTRODUÇÃO – POR QUE A ESPIONAGEM É A SEGUNDA PROFISSÃO MAIS ANTIGA
Há mais de 2.600 anos, um general chinês chamado Sun Tzu escreveu um tratado militar que se tornaria leitura obrigatória para oficiais e cadetes por milênios. Em A Arte da Guerra, ele dedicou um capítulo inteiro ao uso de espiões. “Gastar alguns milhões financiando um espião ou subornando um agente duplo é muito mais eficiente que uma marcha dispendiosa de cem mil soldados”, escreveu. Para Sun Tzu, permanecer ignorante sobre o estado do inimigo por relutância em pagar por inteligência era “o cúmulo da desumanidade”.
A espionagem é tão antiga quanto a guerra. Do Êxodo dos judeus no século XIII a.C. às operações de drones no Paquistão contemporâneo, o ofício de coletar segredos alheios sempre foi tão vital quanto o de empunhar a espada. Este artigo percorre os episódios mais fascinantes dessa história oculta – onde a astúcia, a traição e a coragem mudaram o destino de nações.
CAPÍTULO 1 – OS DOZE ESPIAS DE ISRAEL: INFILTRADOS DE DEUS (1280 a.C.)
Em 1978, um analista da CIA chamado John Cardwell escreveu um artigo para a revista interna Studies in Intelligence sugerindo que a agência aprendesse lições de moral e eficácia com um relato bíblico: a história dos doze espias de Moisés e dos dois espias de Josué.
Moisés, após libertar os hebreus do Egito, enviou doze líderes tribais para reconhecer a Terra Prometida de Canaã. Eles passaram 40 dias lá e voltaram com amostras de frutos enormes – mas também com relatos aterrorizantes de gigantes e cidades fortificadas. Dez dos espias espalharam o pânico entre o povo, que se rebelou contra Moisés. Apenas Josué e Calebe mantiveram a fé. Como punição, Deus condenou aquela geração a vagar 40 anos no deserto.
Quarenta anos depois, Josué – agora líder – enviou dois espias anônimos a Jericó. Eles não relataram a toda assembleia, apenas a Josué. Recrutaram uma prostituta chamada Raabe como informante e obtiveram inteligência crucial: os habitantes de Jericó estavam aterrorizados com os israelitas. Com essas informações, Josué conquistou a cidade.
A lição para a CIA, segundo Cardwell: espiões não devem ter poder político nem relatar publicamente; devem ser anônimos, profissionais e subordinar-se a um único comando. Moisés fracassou ao enviar líderes políticos que interpretaram os dados com viés. Josué triunfou ao usar agentes anônimos que apenas coletaram informações. A moralidade da fonte – no caso, uma prostituta – é irrelevante; o que importa é a precisão da inteligência.
CAPÍTULO 2 – ENÉAS, O TÁTICO: O PAI DA ESTRATÉGIA MILITAR (Século IV a.C.)
Enéas, o Tático, foi um general arcadiano que escreveu o primeiro manual ocidental de estratégia militar, Poliorketika (Sobre a Defesa contra Cercos). Para ele, a sobrevivência de uma cidade-estada dependia menos da bravura e mais de comunicações seguras, criptografia e reconhecimento.
Enéas inventou técnicas de esteganografia – ocultar mensagens dentro de outras mensagens. Entre seus métodos:
-
Escrever mensagem em uma tábua de madeira, cobrir com cera e depois escrever algo inócuo.
-
Esconder tiras de papiro dentro da bexiga de um animal, inflada e depois seca.
-
Tatuar mensagens na cabeça raspada de um escravo, deixar o cabelo crescer e depois raspar novamente.
-
Usar cães como mensageiros – soltos à noite, eles voltavam para casa sem serem notados.
Enéas também desenvolveu um primitivo telégrafo óptico: dois vasos idênticos com água, sincronizados por clepsidras. Níveis de água correspondiam a mensagens predefinidas. Embora lento (oito letras por minuto), foi revolucionário na época.
Sua maior contribuição foi a criptografia sistemática: substituição de letras, remoção de vogais e uso de discos com fios. O historiador Políbio expandiu essas ideias no famoso “Quadrado de Políbio”, base para códigos posteriores.
Enéas entendeu que a comunicação segura não é um luxo, mas uma questão de vida ou morte. Sem ela, a cidade cai.
CAPÍTULO 3 – A FRUMENTARII: A MÃO ESQUERDA DO PODER ROMANO (Séculos II-III d.C.)
O imperador Adriano (117-138 d.C.) governava um império de 60 milhões de pessoas e três milhões de quilômetros quadrados. Viajava constantemente para inspecionar as províncias, mas vivia paranoico com conspirações. Até que teve uma ideia ao conversar com um coletor de trigo – funcionários que viajavam por todo o império comprando grãos para as legiões.
Assim nasceu a frumentarii, a primeira polícia secreta organizada da história. Esses agentes, originalmente coletores de trigo, tinham acesso a todos os estratos sociais. Adriano os transformou em espiões, assassinos e torturadores. Eles usavam uniforme para intimidar, mas atuavam à paisana quando necessário. Sua base era a Castra Peregrina em Roma, e respondiam diretamente ao imperador.
A frumentarii perseguia cristãos, senadores dissidentes e qualquer um que ameaçasse o trono. Forneciam falsas evidências para Nero incriminar os cristãos pelo incêndio de Roma. Assassinavam a mando de imperadores como Cômodo e Dídio Juliano. Cobravam impostos de forma extorsiva e semeavam discórdia para lucrar com o caos.
Sua reputação tornou-se tão odiosa que o imperador Diocleciano (284-305 d.C.) dissolveu a organização para salvar as aparências – mas a substituiu pelos agentes in rebus, igualmente temidos. A frumentarii deixou um legado duradouro: a autocensura. O historiador bizantino Procópio, no século VI, só publicou suas críticas a Justiniano postumamente, com medo dos espiões imperiais.
CAPÍTULO 4 – GILBERT GIFFORD: O AGENTE DUPLO DA CONSPIRAÇÃO DE BABINGTON (1560-1590)
Gilbert Gifford era um estudante irascível, filho de uma família católica na Inglaterra elisabetana. Enviado a um seminário na França, tornou-se padre, mas também se envolveu com o serviço secreto inglês de Sir Francis Walsingham.
Em 1585, Gifford se infiltrou na rede de católicos que planejava assassinar a rainha Elizabeth I e colocar Maria, Rainha dos Escoceses, no trono. Ele se tornou amigo íntimo dos conspiradores – Anthony Babington e John Ballard – e convenceu Maria de que podia contrabandear suas cartas para o exterior escondidas em barris de cerveja.
Na verdade, todas as cartas eram primeiro entregues ao criptógrafo de Walsingham, Thomas Phelippes, que as decifrava, copiava e depois as enviava. Por meses, Gifford alimentou a conspiração, encorajando os conspiradores a detalhar seus planos. Em julho de 1586, Babington escreveu a Maria descrevendo “o despacho da usurpadora concorrente”. Maria respondeu endossando o assassinato.
Com a prova em mãos, Walsingham prendeu os conspiradores. Babington e os outros foram enforcados, arrastados e esquartejados. Maria foi decapitada em 1587. Gifford, temendo ser descoberto, fugiu para a França, onde foi preso em um bordel – na cama com uma mulher e um servo. Morreu na prisão em 1590.
Gifford era, nas palavras do embaixador inglês, “o mais notável vilão duplo triplo que já viveu”. Mas sua traição salvou a vida de Elizabeth e garantiu a supremacia protestante na Inglaterra.
CAPÍTULO 5 – SIR FRANCIS WALSINGHAM: O “M” ELISABETANO (1532-1590)
Francis Walsingham foi o primeiro espião-mestre moderno. Como Secretário de Estado da rainha Elizabeth I, ele construiu uma rede de 53 agentes em tribunais estrangeiros, mais dezenas de informantes anônimos. Seu lema era: “Conhecimento nunca é muito caro”.
Walsingham usava criptoanalistas como Thomas Phelippes (decifrador de códigos) e Arthur Gregory (especialista em abrir e refechar selos de cartas sem deixar vestígios). Ele também empregava torturadores, embora preferisse a extração de informações por meios mais sutis. Sabia que a vaidade, a ganância e o medo eram ferramentas mais eficazes que a dor.
Entre suas maiores façanhas: descobrir a Conspiração de Babington (acima), a Conspiração de Throckmorton e os planos da Invasão da Armada Espanhola. Ele foi o primeiro a perceber que a espionagem não era um ofício sujo, mas uma função essencial do Estado. Criou o modelo de serviço secreto que inspiraria o MI5 e o MI6.
Walsingham morreu em 1590, falido e doente – financiara pessoalmente muitas de suas operações. O rei Filipe II da Espanha, ao saber da morte, escreveu na margem de um relatório: “Lá, sim. Mas é uma boa notícia aqui.”
CAPÍTULO 6 – NATHAN HALE: O ESPIÃO MÁRTIR (1755-1776)
Nathan Hale era um professor de 21 anos quando a Guerra da Independência Americana estourou. Recrutado por George Washington para se infiltrar atrás das linhas britânicas em Nova York, Hale cruzou o território inimigo disfarçado de professor legalista.
Ele passou vários dias nos acampamentos britânicos, anotando fortificações e números de tropas em palmilhas de sapato. Mas na volta, foi capturado pelo tenente-coronel Robert Rogers. Sem julgamento, foi condenado à forca. Suas últimas palavras imortalizaram-no: “Só lamento ter apenas uma vida para perder pelo meu país.”
Hale não teve sucesso em sua missão – mas seu martírio uniu a jovem nação. Tornou-se o primeiro herói da inteligência americana. Em 1899, Charles Brown publicou Nathan Hale: O Espião Mártir, e o local de sua execução tornou-se local de peregrinação. Até hoje, sua estátua fica diante da sede da CIA.
CAPÍTULO 7 – MATA HARI: A MAIS DOCE ARMADILHA DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL (1876-1917)
Margaretha Zelle – conhecida como Mata Hari – foi uma dançarina exótica holandesa que se tornou a arquetípica “armadilha de mel”. Entre 1905 e 1912, deslumbrou a Europa com suas danças “sagradas” orientais, que na prática eram stripteases sofisticados. Amante de oficiais franceses, alemães e espanhóis, vivia um luxo financiado por seus casos.
Com a eclosão da guerra, ela ficou presa na Alemanha. A inteligência alemã a recrutou (ou ela aceitou dinheiro sem entregar nada?). Depois, a inteligência francesa a recrutou para seduzir o general alemão von Bissing. Viajou para a Espanha, enviou relatórios inúteis, e os alemães intencionalmente a queimaram transmitindo mensagens falsas que a implicavam como agente dupla.
Presa em fevereiro de 1917, foi julgada em segredo e condenada à morte por fuzilamento. Em 15 de outubro de 1917, recusou a venda e enviou um beijo aos doze soldados. Os tiros a silenciaram.
Décadas depois, arquivos revelaram que as provas contra ela eram frágeis. Os alemães queriam vingança por ela ter aceito dinheiro sem espionar; os franceses precisavam de um bode expiatório. Mata Hari não era uma espiã competente – mas seu nome tornou-se sinônimo de sedução e traição.
CAPÍTULO 8 – RICHARD SORGE: O MESTRE ESPIÃO SOVIÉTICO (1895-1944)
Richard Sorge era um jornalista alemão, doutor em ciência política, membro do Partido Nazista e alcoólatra inveterado. Também era um espião soviético. Enviado a Tóquio em 1933, criou uma rede de inteligência que incluía o jornalista Hotsumi Ozaki (assessor do primeiro-ministro japonês) e o operador de rádio Max Klausen.
Sorge tornou-se amigo íntimo do adido militar alemão, coronel Eugen Ott, que o promoveu a conselheiro informal da embaixada. Sorge teve acesso a todos os telegramas secretos entre Berlim e Tóquio. Em 1941, advertiu Moscou que a Alemanha invadiria a União Soviética em 22 de junho. Stalin ignorou. Quando a invasão ocorreu, Sorge caiu em depressão.
Sua maior contribuição veio em setembro de 1941: ele informou que o Japão não atacaria a URSS – optara por avançar para o sudeste asiático. Com essa informação, Stalin transferiu 15 divisões de infantaria, 1.700 tanques e 1.500 aviões da fronteira siberiana para a defesa de Moscou. A Blitzkrieg alemã foi detida. Foi o primeiro grande revés de Hitler.
Sorge foi preso em outubro de 1941, torturado e enforcado em novembro de 1944. Stalin negou sua existência, com vergonha de ter ignorado seus avisos. Só em 1964, Nikita Khrushchev o declarou Herói da União Soviética.
CAPÍTULO 9 – NANCY WAKE: A “RATA BRANCA” DA RESISTÊNCIA FRANCESA (1912-2011)
Nancy Wake era uma neozelandesa criada na Austrália que se tornou jornalista em Paris. Casada com o industrial Henri Fiocca, levava uma vida glamourosa. Quando a Alemanha invadiu a França, tornou-se mensageira da Resistência, contrabandeando soldados aliados para a Espanha através dos Pirineus.
Sua habilidade em evitar a captura valeu-lhe o apelido de “Rata Branca” – a Gestapo oferecia cinco milhões de francos por sua cabeça. Em 1943, fugiu para a Inglaterra, onde foi treinada pelo Executivo de Operações Especiais (SOE) em paraquedismo, explosivos, rádio e combate corpo a corpo.
Em abril de 1944, saltou de paraquedas na França central e assumiu o comando de 7.000 maquis (guerrilheiros). Liderou ataques a comboios alemães, depósitos de munição e ao quartel-general da Gestapo em Montluçon, matando 38 agentes. Certa vez, matou uma sentinela com um golpe de mão no pescoço para não disparar. Outra vez, pedalou 250 quilômetros em 71 horas sem parar para substituir códigos de rádio queimados.
Após a guerra, descobriu que seu marido, Henri, fora capturado, torturado e morto pelos alemães por se recusar a revelar seu paradeiro. Wake nunca mais se casou. Morreu em 2011, aos 98 anos, sendo a mulher mais condecorada da Segunda Guerra Mundial.
CAPÍTULO 10 – GEORGE KOVAL: O ESPIÃO NUCLEAR DE SIOUX CITY (1913-2006)
George Koval nasceu em Iowa, filho de imigrantes judeus russos e comunistas ferrenhos. Em 1932, a família voltou para a União Soviética, onde Koval se formou em engenharia química. Recrutado pela GRU (inteligência militar soviética), ele voltou aos Estados Unidos em 1940 com identidade americana perfeita.
Alistou-se no exército em 1943 e, graças a suas notas altas, foi designado para o Projeto Manhattan – primeiro em Oak Ridge, Tennessee, depois em Dayton, Ohio. Como sargento responsável pela segurança radiológica, tinha acesso a todo o complexo. Roubou segredos cruciais sobre a produção de polônio, o elemento usado no iniciador da bomba de plutônio.
Koval passou as informações a Moscou por meio de correios e malas diplomáticas. Em agosto de 1949, os soviéticos testaram sua primeira bomba atômica – anos antes do previsto pela CIA. Koval foi o único espião a ter acesso direto ao projeto.
Em 1948, temendo ser descoberto, fugiu para a União Soviética. Lá, viveu no anonimato como professor de química. Só em 2007, um ano após sua morte, Vladimir Putin o condecorou postumamente como Herói da Federação Russa. Seus amigos americanos nunca suspeitaram – para eles, Koval era apenas um sujeito simpático que jogava beisebol.
CONCLUSÃO – ESPIONAGEM NO SÉCULO XXI
De Sun Tzu a Edward Snowden, a espionagem mudou de forma, mas não de essência. Os métodos evoluíram: hoje, hackers chineses roubam projetos de caças F-35, drones assassinos são pilotados a partir de Nevada, e algoritmos vasculham bilhões de e-mails. Mas as estratégias permanecem as mesmas: recrutar agentes internos, explorar a ganância e a vaidade, e – acima de tudo – manter segredo absoluto.
James Bond dirige carros invisíveis; Jason Bourne luta contra agências corruptas. A realidade é mais prosaica: a maioria dos espiões são analistas de sistemas, tradutores e burocratas. Mas, de vez em quando, surge um Richard Sorge, uma Nancy Wake, um George Koval – homens e mulheres cuja coragem silenciosa mudou o mundo.
Como Sun Tzu escreveu: “Se você conhece seus inimigos e conhece a si mesmo, não temerá o resultado de cem batalhas.” Esse conhecimento só é possível graças aos espiões – a segunda profissão mais antiga do mundo, e talvez a mais importante.
FIM
Este artigo foi adaptado do livro “Espiões, Espionagem e Operações Secretas – Da Grécia Antiga à Guerra Fria”, de Michael Rank, com tradução de Shana Marcele Oliveira e Silva.