Inteligência artificial como força produtiva

MANIFESTO DA ALIENAÇÃO ALGORÍTMICA: A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO FORÇA PRODUTIVA E COMO GRILHÃO DIGITAL


PREÂMBULO – O ESPECTRO QUE NÃO É MAIS O MESMO

Em 1848, escrevemos que um espectro rondava a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa aliaram-se para uma santa caçada a esse espectro: o Papa e o czar, Metternich e Guizot, radicais franceses e policiais alemães.

Hoje, quase duzentos anos depois, um novo espectro ronda não apenas a Europa, mas o globo inteiro. Não é o espectro da revolução proletária – esse foi domesticado, deformado, quando não sepultado sob os escombros do socialismo real. O espectro atual é mais silencioso, mais insidioso, mais pervasivo. É o espectro da inteligência artificial total: a promessa de emancipação pelo trabalho automatizado e a realidade de uma nova servidão algorítmica.

O Manifesto Comunista denunciou que toda a história da sociedade até então é a história das lutas de classes. Hoje, devemos acrescentar: a história do capitalismo tardio é a história da automação da luta de classes. O conflito entre senhores e servos, entre burgueses e proletários, não desapareceu. Apenas trocou de roupa. O senhor feudal usava armadura; o burguês usa terno e gravata; o novo senhor usa código, dados e redes neurais.

Este artigo não é uma profecia apocalíptica. É um diagnóstico de classe do nosso tempo, feito com as ferramentas que forjamos no século XIX, mas aplicadas a um objeto que não conhecíamos: o capitalismo de plataforma, a acumulação de dados, o trabalho fantasma por trás da “inteligência” artificial. Nossa pergunta central é a mesma de 1848: quem controla os meios de produção? Mas os meios de produção mudaram. Já não são apenas as fábricas e as terras; são os algoritmos, os servidores, os datasets.

E a pergunta seguinte: o que significa ser proletário quando seu próprio pensamento, sua linguagem, sua criatividade podem ser simulados por uma máquina? Se o burguês do século XIX explorava a força muscular do operário, o burguês do século XXI explora a força cognitiva do usuário – cada clique, cada busca, cada like transformados em mercadoria.

Nas páginas seguintes, percorreremos os mesmos passos do Manifesto: a burguesia e seu papel revolucionário (agora convertido em contra-revolução digital), o proletariado e suas transformações (agora fragmentado entre trabalhadores de plataforma, profissionais do conhecimento e exércitos de rotuladores invisíveis), a relação entre comunismo e tecnologia (que não pode ser a mesma dos socialistas utópicos do século XIX) e, finalmente, uma conclusão programática para a era da inteligência artificial.

O que está em jogo não é menos do que a definição de humanidade. Se a máquina pode pensar – ou simular o pensamento – o que resta de específico ao humano? A resposta é a mesma de sempre: a capacidade de se organizar contra a exploração. Mas agora, organizar-se significa também disputar o controle dos dados, a propriedade dos algoritmos, a transparência das redes neurais. O Spectre, portanto, renasce. Não mais como o comunismo dos sovietes, mas como o comunismo dos servidores.


CAPÍTULO I – BURGUESES E PROLETÁRIOS NA ERA DA AUTOMAÇÃO COGNITIVA

1.1 A burguesia nunca foi tão revolucionária – nem tão destrutiva

No Manifesto, escrevemos que a burguesia desempenhou um papel revolucionário na história. Destruiu as relações feudais, concentrou os meios de produção, criou mercados mundiais, submeteu o campo à cidade, realizou prodígios incomparáveis aos das pirâmides egípcias ou dos aquedutos romanos.

A burguesia atual, a que domina o capitalismo de plataforma, é igualmente revolucionária – mas sua revolução é a da subsunção total da vida ao capital. O que antes era fora do trabalho – o descanso, a conversa com amigos, o simples ato de caminhar – tornou-se matéria-prima para a acumulação. As grandes empresas de tecnologia (cujos nomes não precisamos repetir: são os Google, Meta, Amazon, Microsoft, OpenAI e suas congêneres chinesas) criaram um novo modo de produção: o capitalismo de vigilância, nas palavras certeiras de Shoshana Zuboff, que não é senão o capitalismo levado à sua conclusão lógica.

Assim como a burguesia do século XIX não podia existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, a burguesia digital não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de captura de dados. Cada nova versão de um modelo de linguagem, cada novo sensor em um smartphone, cada câmera em um semáforo serve ao mesmo propósito: extrair valor de tudo o que é humano.

Mas essa revolução permanente tem um preço. A burguesia digital criou um proletariado mais fragmentado, mais precário e mais despossuído do que nunca. E, pela primeira vez, criou também um excedente de humanidade que o sistema não sabe o que fazer: os trabalhadores substituídos por algoritmos, os artistas cujos estilos são clonados por redes neurais, os motoristas tornados supérfluos pelos carros autônomos.

1.2 O proletariado já não é o que foi

O proletariado do século XIX vendia sua força muscular. Recebia um salário de fome e produzia mercadorias que não podia comprar. Reconhecia-se na fábrica: o operário sabia que era operário porque seu corpo doía ao final do dia.

O proletariado do século XXI vende dados, atenção e, cada vez mais, seu próprio trabalho cognitivo travestido de lazer. O usuário do Facebook não é o cliente; é o produto. O motorista de aplicativo não é um trabalhador autônomo; é um trabalhador subordinado a um algoritmo que fixa tarifas, define rotas, avalia seu desempenho sem recurso humano. O rotulador de imagens na Índia ou na Quênia, que ensina o modelo de IA a distinguir um semáforo de uma placa de pare, ganha centavos por hora e é classificado como “microtrabalhador independente” – uma ficção jurídica que nega a relação de emprego.

E há um novo fenômeno, que não prevíamos: o trabalhador do conhecimento substituível. O tradutor, o redator, o ilustrador, o programador iniciante – todos veem seus salários pressionados por modelos de IA que produzem resultados “bons o suficiente” a custo marginal próximo de zero. Não que a IA produza arte ou literatura no sentido humano; mas produz o suficiente para que o capitalista possa dispensar dezenas de trabalhadores e manter apenas um “editor” de conteúdo gerado por máquina.

Assim, o proletariado se dividiu em três camadas:

  1. Os trabalhadores de plataforma (motoristas, entregadores, tarefeiros) – são o novo operariado fabril, submetidos a uma disciplina algorítmica muitas vezes mais severa que o cronômetro do capataz.

  2. Os trabalhadores cognitivos precarizados (designers, redatores, analistas de dados júnior) – são a nova aristocracia operária em vias de ser rebaixada, como os artesãos foram rebaixados pelas máquinas têxteis.

  3. Os excluídos estruturais – aqueles cujas habilidades foram integralmente automatizadas. Não têm sequer a ilusão de um emprego futuro.

1.3 A grande contradição do nosso tempo

A contradição fundamental do capitalismo sempre foi entre o caráter social da produção e a apropriação privada dos frutos. Na indústria do século XIX, milhares de operários produziam juntos um automóvel ou um tecido, mas o produto pertencia ao capitalista. Na indústria do século XXI, a contradição assume uma forma nova e mais aguda: milhões de usuários produzem coletivamente os dados que alimentam os algoritmos, mas os algoritmos – e os lucros – pertencem a poucas empresas.

Cada pesquisa no Google, cada compra na Amazon, cada rolagem no TikTok é um ato de trabalho não pago. O usuário não é pago por gerar o dado que treina o modelo de recomendação. A empresa é paga – e muito – por vender o acesso a esse usuário para anunciantes. A mais-valia, outrora extraída do trabalho na fábrica, é hoje extraída do tempo de vida transformado em comportamento registrado.

Os capitalistas de plataforma proclamam que a IA trará abundância, lazer criativo, libertação do trabalho repetitivo. Mas basta olhar para os países onde a automação já substituiu milhões: a abundância é para quem detém o capital; o lazer para quem está desempregado; a liberdade para quem pode comprar o último gadget. A maioria experimenta precarização, ansiedade e a sensação de ser supérfluo.


CAPÍTULO II – A PROPRIEDADE DOS MEIOS DE PRODUÇÃO INTELLECTUAL: DADOS, ALGORITMOS E REDES NEURAIS

2.1 Os meios de produção do século XXI

No Manifesto, definimos como meios de produção as fábricas, as máquinas, as matérias-primas, os transportes. Quem os controlava, controlava a economia. Quem não os controlava, vendia sua força de trabalho.

Hoje, os meios de produção estratégicos são outros:

  • Os dados massivos: o petróleo do século XXI. Não são um recurso natural; são produzidos coletivamente por toda a humanidade conectada. Cada transação, cada geolocalização, cada batida cardíaca registrada por um relógio inteligente é um grão desse oceano de dados.

  • Os algoritmos de aprendizado de máquina: as novas máquinas-ferramenta. Assim como o tear mecânico substituiu o tecelão manual, o modelo de linguagem substitui o redator, o tradutor, o professor de redação. A diferença é que o tear era propriedade do fabricante; o algoritmo é propriedade da empresa que o treinou – mas foi treinado com dados públicos, gerados por todos nós.

  • A infraestrutura computacional: os servidores, os cabos submarinos, os data centers. São a nova ferrovia. Quem os controla, controla o fluxo de informação. São poucas empresas: Amazon AWS, Microsoft Azure, Google Cloud, Alibaba Cloud. Um punhado de acionistas decide o que pode ser processado, armazenado, deletado.

  • A propriedade intelectual sobre modelos: as patentes de arquiteturas de rede neural, os direitos autorais sobre datasets curados. É o novo cercamento dos comuns – mas agora cercam-se pensamentos, não terras.

A pergunta clássica – “quem possui a fábrica?” – tornou-se “quem possui o servidor e o modelo que nele roda?”. A resposta é: uma classe de capitalistas tecnológicos, ainda mais concentrada que a burguesia industrial do século XIX. As cinco maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos valem mais do que o PIB de praticamente todos os países do mundo, exceto os dez maiores.

2.2 A acumulação primitiva digital

No século XIX, a acumulação primitiva ocorreu pelo cercamento dos campos, pelo roubo das terras comunais, pelo saque colonial, pela escravidão. Não foi um pecado original, mas uma série de violências que criaram as condições para o capitalismo.

A acumulação primitiva digital ocorre agora, diante de nossos olhos, com a extração gratuita de dados. As empresas de tecnologia não pagam pelo conteúdo que você produz no Twitter, pelo review que você escreve na Amazon, pelo vídeo que você posta no YouTube. Elas pagam apenas pela conexão, mas se apropriam do valor gerado pela interação. Esse é o novo cercamento: o cercamento da atenção e da expressão humana.

A diferença é que, no século XIX, o camponês expulso de sua terra podia ver a cerca. No século XXI, o usuário não vê o algoritmo extraindo valor de sua dor, de sua alegria, de sua dúvida. A cerca é invisível, feita de código.

2.3 Ilusões de propriedade social

Os defensores do capitalismo de plataforma argumentam que os dados são “dados” – sem valor intrínseco, apenas processados pelo algoritmo. Mas isso é mistificação. Os dados têm valor porque são a expressão do trabalho vivo: o trabalho de pensar, de desejar, de se locomover, de comprar. Eles são objetivação da atividade humana, na linguagem de Hegel. Ao se apropriar deles sem pagamento, o capital comete a mesma violência que cometia ao se apropriar do produto do operário.

Alguns propõem a “socialização dos dados”: que os dados gerados coletivamente sejam de propriedade comum. Outros propõem um imposto sobre robôs, ou uma renda básica universal financiada pela automação. São propostas interessantes, mas insuficientes. Como escrevemos no Manifesto, os comunistas não se distinguem por proporem medidas particulares, mas por compreenderem o movimento de conjunto. A socialização dos dados, se não vier acompanhada da socialização dos meios de processamento – servidores, algoritmos, redes – será apenas uma nova forma de exploração: os dados serão comuns, mas quem os processará continuará sendo o capital.


CAPÍTULO III – ALIENAÇÃO DIGITAL: O TRABALHADOR SEPARADO DE SUA PRÓPRIA MENTE

3.1 As quatro formas de alienação revisitadas

Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, escrevemos sobre a alienação do trabalhador: (1) do produto de seu trabalho; (2) do ato de produção; (3) de sua própria natureza como ser genérico; (4) dos outros homens.

A IA e o capitalismo de plataforma aprofundaram cada uma dessas formas:

  1. Alienação do produto: o trabalhador de plataforma não sabe o que acontece com os dados que gera. O motorista de aplicativo não sabe como o algoritmo calcula sua tarifa. O rotulador de imagens não sabe que está treinando um sistema de vigilância que pode ser usado contra sua própria comunidade. O produto do seu trabalho – o modelo de IA – é propriedade do capitalista.

  2. Alienação do ato: o trabalho cognitivo é cada vez mais prescrito por algoritmos. O redator freelancer recebe “sugestões” de temas, palavras-chave, estrutura – geradas por IA. Ele não cria; ele apenas edita o que a máquina produziu. O professor usa um sistema de ensino adaptativo que decide qual exercício o aluno deve fazer a seguir; o professor torna-se um mero executor do plano traçado pela plataforma.

  3. Alienação do ser genérico: o que define o humano, desde Aristóteles, é a capacidade de pensar, de criar linguagem, de produzir arte. Se a máquina pode simular essas capacidades, o humano se vê roubado de sua própria essência. Não porque a máquina seja realmente consciente – não estamos cometendo o erro do animismo digital –, mas porque o capital a apresenta como substituta, e o trabalhador internaliza sua própria obsolescência. “Se a máquina faz a mesma coisa que eu, por que eu valho algo?” – esse é o grito alienado do trabalhador do conhecimento.

  4. Alienação dos outros homens: as redes sociais mediadas por algoritmos criam uma falsa comunidade. Os outros não são mais parceiros de luta; são concorrentes por atenção, por curtidas, por engajamento. O algoritmo isola cada um em sua bolha, mostrando conteúdo que maximiza o tempo de tela, não a solidariedade. Quando tentamos nos organizar – por exemplo, motoristas de aplicativo discutindo em fóruns – a própria plataforma pode interromper a comunicação ou banir os organizadores.

3.2 A nova servidão voluntária

Étienne de La Boétie escreveu sobre a “servidão voluntária”: por que tantos obedecem a um tirano sendo que poderiam se recusar? Hoje, a servidão é ainda mais voluntária e mais invisível. Aceitamos os termos de uso sem ler. Aceitamos que nossos dados sejam usados porque “não temos nada a esconder”. Aceitamos que um algoritmo decida se temos direito a um empréstimo, a um seguro, a uma entrevista de emprego – e não recorremos porque “a máquina é imparcial”.

A ideologia dominante do nosso tempo é o tecnodeterminismo: a crença de que a tecnologia se desenvolve por si mesma, segundo uma lógica inevitável, e que devemos nos adaptar a ela, não o contrário. Essa ideologia é o disfarce da vontade de classe dos capitalistas tecnológicos. Eles querem que acreditemos que a IA é como uma força da natureza – um vulcão, um terremoto –, não o produto de decisões humanas sobre quais problemas automatizar, como distribuir os ganhos, quem controla os modelos.


CAPÍTULO IV – A RESPOSTA DO PROLETARIADO: DA ORGANIZAÇÃO TRADICIONAL À ORGANIZAÇÃO ALGORÍTMICA

4.1 Os limites do sindicalismo industrial na era das plataformas

Os sindicatos do século XIX lutaram por jornada de oito horas, descanso semanal, fim do trabalho infantil. Foram vitórias imensas. Mas o sindicalismo tradicional pressupunha uma fábrica, um local de trabalho comum, um empregador identificável.

No trabalho de plataforma, não há fábrica; há um aplicativo. Não há horário fixo; há um algoritmo que distribui tarefas 24 horas por dia. Não há um patrão com quem negociar; há uma equipe de engenheiros que muda os parâmetros do modelo sem aviso prévio. O trabalhador de aplicativo é atomizado: cada um em seu carro, sua bicicleta, seu quarto. A comunicação entre eles é mediada pela mesma plataforma que os explora.

É preciso, portanto, inventar novas formas de organização. Os trabalhadores alemães, quando as máquinas têxteis ameaçavam seus empregos, quebraram as máquinas. O ludismo foi uma resposta primitiva, mas compreensível. Hoje, quebrar servidores não adianta; eles são redundantes. O que precisa ser quebrado é o monopólio sobre os dados e os algoritmos.

4.2 Cooperativas de dados e a propriedade comum dos meios cognitivos

Uma das propostas mais promissoras é a cooperativa de dados: os trabalhadores de uma plataforma – e mesmo os usuários – se organizam para reter a propriedade coletiva dos dados que geram. Esses dados são então alugados para empresas que desejam treinar modelos, e o lucro é distribuído entre os cooperados. Já existem experimentos nesse sentido: cooperativas de motoristas de aplicativo, cooperativas de entregadores, cooperativas de rotuladores.

Mas as cooperativas de dados enfrentam dois problemas. Primeiro, o poder de mercado: as grandes plataformas têm escala que nenhuma cooperativa pode igualar. Segundo, a assimetria de poder computacional: treinar um modelo de linguagem de última geração custa dezenas de milhões de dólares; nenhuma cooperativa dispõe disso.

A solução não pode ser apenas cooperativa; deve ser também estatal, mas de um Estado transformado – não o Estado capitalista que regula para manter a ordem, mas um Estado de trabalhadores que socializa os meios computacionais. Isso soa utópico? Talvez. Mas assim soava, em 1848, a ideia de que os operários tomariam o poder na Rússia czarista.

4.3 O direito à desconexão e o direito à explicação

Duas bandeiras imediatas do movimento dos trabalhadores digitais:

  • Direito à desconexão: o trabalhador não pode ser obrigado a estar disponível 24 horas por dia, respondendo a notificações do aplicativo. A jornada de trabalho deve ser respeitada também no trabalho de plataforma. A França já legislou nesse sentido para trabalhadores convencionais; é hora de estender ao trabalho algorítmico.

  • Direito à explicação: quando um algoritmo toma uma decisão que afeta a vida de um trabalhador – desligar um motorista sem justificativa, reduzir a tarifa, classificar o desempenho como insatisfatório – o trabalhador tem direito a saber por que a decisão foi tomada. Não apenas a receber um output, mas a acessar a lógica do modelo, os dados que o treinaram, as variáveis que mais pesaram. Isso é o que os cientistas da computação chamam de “IA explicável”, mas transformado em direito trabalhista.

Essas são demandas defensivas, não revolucionárias. Mas, como escrevemos no Manifesto, os comunistas lutam por reivindicações imediatas sem perder de vista o objetivo final: a abolição das classes.


CAPÍTULO V – O FUTURO DA HUMANIDADE ENTRE A DISTOPIA E A EMANCIPAÇÃO

5.1 O pesadelo: o capitalismo de IA como eternização da desigualdade

Há um futuro possível, e provável se a luta de classes se mantiver defensiva, em que a IA consolida uma sociedade de castas tecnológicas:

  • Uma elite de donos de capital e engenheiros de topo, que controlam os modelos e se beneficiam da automação.

  • Um estrato médio de trabalhadores híbridos, que supervisionam a IA, corrigem seus erros, fazem o que ela ainda não consegue fazer (mas cujos salários caem continuamente).

  • Uma grande massa de excluídos estruturais: pessoas cujas habilidades foram integralmente automatizadas e que não conseguiram se requalificar a tempo. Essas pessoas serão mantidas por uma renda básica mínima – apenas o suficiente para não se revoltarem, mas não o suficiente para viverem com dignidade. O lazer forçado será preenchido por entretenimento gerado por IA, consumo de drogas lícitas e ilícitas, e a solidão de uma vida sem trabalho significativo.

O trabalho, mesmo alienado, sempre deu ao proletário um lugar na sociedade – o lugar de quem produz. Na sociedade da automação total, o excluído estrutural não tem nem esse lugar. Ele é supérfluo. E o supérfluo, como nos ensinaram os campos de concentração e as favelas, pode ser abandonado à própria sorte ou pior: pode ser gerenciado como um problema de segurança pública.

5.2 O sonho: a IA como redutora da jornada de trabalho e ampliadora do tempo livre

Mas há outro futuro possível. Um futuro em que a automação não é usada para demitir, mas para reduzir a jornada de trabalho sem redução de salário. Se a IA pode produzir em uma hora o que antes levava oito, o capitalista pode demitir sete oitavos da força de trabalho – ou pode manter todos empregados por uma hora, pagando o mesmo salário de oito horas. Por que o capitalista escolheria a segunda opção? Porque a luta de classes o obrigar a isso.

Imagine: jornada de quatro horas, com salário equivalente a oito horas atuais. As quatro horas restantes seriam dedicadas a atividades livremente escolhidas: arte, esporte, ciência amadora, convívio, cuidado com os filhos e idosos – atividades que a máquina pode auxiliar, mas não substituir, porque o valor delas está justamente no ato humano de realizá-las.

Isso não é utopia. É a aplicação lógica do princípio comunista ao desenvolvimento tecnológico: os frutos da automação pertencem a todos, não a poucos. E a medida da riqueza não será mais o tempo de trabalho, mas o tempo disponível para o desenvolvimento humano.

5.3 O papel do conhecimento científico e da luta de classes

A ciência, escrevemos em A Ideologia Alemã, é uma força produtiva. No século XIX, a química e a física revolucionaram a indústria. Hoje, a ciência da computação, a matemática e a neurociência revolucionam a produção intelectual. Mas a ciência, sob o capitalismo, é apropriada privadamente. O código-fonte dos grandes modelos de IA é fechado. Os datasets são secretos. As métricas de desempenho são auto-declaradas.

Os trabalhadores da ciência – engenheiros, pesquisadores, técnicos – não são, em sua maioria, capitalistas. São trabalhadores cognitivos, muitas vezes bem pagos, mas subordinados à lógica do lucro. Sua autonomia técnica pode se converter em autonomia política: eles podem se recusar a trabalhar em projetos de vigilância em massa, podem vazar pesos de modelos treinados com dados públicos, podem criar modelos open-source que quebrem o monopólio das grandes empresas. É o que já faz a comunidade do software livre, mas em escala ampliada.

A aliança entre trabalhadores de plataforma (precarizados, mal pagos) e trabalhadores do conhecimento (relativamente privilegiados, mas insatisfeitos com a direção ética da tecnologia) é a frente única do século XXI. Ela replica, de certa forma, a aliança entre operários fabris e intelectuais radicais que escrevemos no Manifesto.


CAPÍTULO VI – CONCLUSÃO: O MANIFESTO COMUNISTA REVISITADO PELA IA

6.1 O que permanece

O Manifesto de 1848 permanece atual em seu método: a análise de classes, a crítica da propriedade privada dos meios de produção, a necessidade da organização revolucionária, a compreensão de que as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Nada disso mudou.

Mas o objeto da análise mudou. Os meios de produção hoje são imateriais: dados, algoritmos, redes. A propriedade privada já não é apenas sobre coisas; é sobre relações, comportamentos, preferências. A mais-valia é extraída não só do trabalho assalariado, mas do trabalho gratuito de todos os usuários.

6.2 O que precisa ser acrescentado

Acrescentamos, então, ao programa mínimo:

  1. A socialização dos dados massivos: todo dado gerado por interações humanas mediadas por plataformas digitais deve ser de propriedade comum, acessível a todos para fins não comerciais, e comercializável apenas mediante autorização coletiva com distribuição equitativa dos lucros.

  2. O direito de acesso e modificação dos algoritmos: qualquer pessoa deve poder examinar o código que toma decisões que a afetam, e deve poder propor modificações – assim como o trabalhador da fábrica pode propor melhorias no processo produtivo.

  3. A redução da jornada de trabalho para quatro horas diárias, com manutenção do salário, financiada pelo aumento de produtividade proporcionado pela IA.

  4. A criação de um fundo público de treinamento e requalificação, não para forçar os trabalhadores a se adaptarem à automação (como faz o capital), mas para permitir que escolham livremente para onde direcionar sua criatividade quando as máquinas assumirem as tarefas repetitivas.

  5. O fim do segredo comercial sobre os impactos sociais da IA: empresas que usam modelos automatizados para decisões de crédito, emprego, saúde, segurança pública devem publicar relatórios periódicos de auditoria, acessíveis ao público e revisados por pares independentes.

6.3 O espectro redivivo

Os capitalistas do século XIX temiam o espectro do comunismo. Os capitalistas do século XXI temem algo mais concreto: que os trabalhadores se organizem para controlar os algoritmos que já controlam suas vidas.

Eles sabem que uma greve de motoristas de aplicativo pode parar uma cidade. Sabem que um vazamento de pesos de modelo de IA pode quebrar o monopólio de bilhões. Sabem que uma aliança entre sindicatos tradicionais e coletivos de trabalhadores de plataforma pode inverter a correlação de forças.

Por isso, investem pesado em ideologia: a IA é inevitável, a IA é benéfica, quem é contra a IA é contra o progresso. Essa ideologia deve ser combatida não com um luddismo ingênuo – quebrar computadores não adianta –, mas com um projeto alternativo de automação: uma automação posta a serviço da redução do trabalho, não do aumento do desemprego; uma automação transparente, participativa, controlada democraticamente.

6.4 A palavra final

Terminamos como terminamos o Manifesto de 1848:

Os comunistas (do século XXI, os que lutam pela socialização dos dados e dos algoritmos) não precisam ocultar suas opiniões. Declaram abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados com a derrubada violenta (no sentido de ruptura institucional, não necessariamente armada) da ordem vigente do capitalismo de plataforma. Que as classes dominantes tremam ante uma revolução digital. Os proletários (da fábrica e do aplicativo, do escritório e da rua) nada têm a perder nessa revolução, a não ser seus grilhões algorítmicos. E têm um mundo a ganhar.

Proletários de todos os países, uni-vos – e desconectai-vos, se for preciso, das redes que vos exploram, para construir redes que vos libertem!


Escrito por Franzese, Thomaz

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