Documentos confidenciais recentemente desclassificados revelam uma reviravolta histórica em Varginha (MG), na década de 1970. Durante o regime militar, o aparato repressivo do governo concluiu que o verdadeiro “subversivo” não era o Padre Walmor Zucco, acusado de simpatias comunistas, mas o próprio juiz que o denunciava, o Juiz Francisco Vani Bemfica, que usava seu poder para encobrir a própria corrupção. Este caso é emblemático do confronto entre os interesses do poder judicial local e o ativismo político que não se alinhava com a Ditadura.
Durante os anos mais duros da Ditadura Militar, ser rotulado de “comunista” ou “subversivo” por um Juiz de Direito podia significar prisão, tortura ou até desaparecimento. Em Varginha, o Padre Walmor Zucco foi colocado sob a mira do regime, acusado de ser um agitador político, por suas visões e posturas progressistas. Contudo, arquivos desclassificados do Serviço Nacional de Informações (SNI) apontam uma conclusão surpreendente: os espiões do regime militar acabaram sendo a última linha de defesa do padre contra uma perseguição implacável movida por um juiz local que não hesitava em usar sua autoridade para proteger seus próprios interesses e disfarçar suas práticas corruptas.
O Alvo: Um Padre Intelectual
O Padre Walmor Zucco não era um agitador comum. Com um currículo impressionante, que incluía formação em Sociologia e Política pela Universidade de São Paulo (USP) e cursos na Escola Superior de Guerra, ele era considerado uma “inteligência viva” e possuía uma cultura acima da média. Em Varginha, além de atuar como pároco, era também Professor Titular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FADIVA). Sua postura democrática, combinada com sua recusa em se submeter aos interesses do poder local, o colocaram em rota de colisão direta com figuras influentes da cidade.
De acordo com documentos do SNI datados de janeiro de 1975, o padre “tornou-se alvo constante do magistrado, que enviava denúncias contra ele, as mais diversas, a órgãos de segurança”. Essas denúncias, motivadas por uma disputa ideológica, se intensificaram à medida que Zucco se posicionava contra as arbitrariedades que ocorriam dentro da Faculdade e na comunidade local, tornando-se um ícone do pensamento progressista em tempos sombrios.
A Perseguição na Academia
A tensão no ambiente acadêmico foi tão grande que o Padre Walmor foi forçado a pedir demissão de seu cargo de professor titular em dezembro de 1971. Embora o motivo oficial tenha sido a “falta de condições para o exercício do magistério”, nos bastidores circulava a informação de que ele havia se oposto à proibição de alunos realizarem provas por motivos financeiros ou de frequência duvidosa, o que gerou um forte atrito com a direção da faculdade, que estava alinhada aos interesses do juiz.
Os documentos indicam que as acusações contra o padre eram, na verdade, uma cortina de fumaça. Bemfica e seus aliados políticos, incluindo advogados e figuras influentes locais, usaram a figura de Zucco como bode expiatório para mascarar questões mais profundas. A acusação de que os “Cursilhos da Cristandade”, um movimento religioso, serviam como fachada para disseminar o comunismo foi uma das alegações mais absurdas feitas pelo juiz, mas o SNI foi implacável ao desmascarar essa narrativa.
O Veredito dos Espiões
Quando o SNI investigou as denúncias feitas pelo Juiz Francisco Vani Bemfica, concluiu-se que, ao contrário do que o juiz afirmava, não havia absolutamente nenhum elemento que confirmasse as acusações de que os Cursilhos da Cristandade fossem um veículo de propagação comunista. O relatório confidencial nº 282/ABH/SNI/73, ao investigar as alegações, concluiu que:
“Não há elementos que confirmem as acusações feitas pelo Juiz de Direito de Varginha de que os Cursilhos da Cristandade […] estejam servindo de instrumento de disseminação do comunismo”.
O relatório ainda foi mais contundente ao examinar a conduta de Bemfica. O SNI, em sua análise, concluiu que o próprio juiz estava utilizando a máquina estatal para encobrir suas falhas e desvio de conduta pessoal, ligando sua perseguição ao padre com uma tentativa de ocultar a corrupção que marcava sua atuação política e profissional.
A Imagem do Juiz: Um Homem de Ausência de Escrúpulos
Em contraste com a “conduta irrepreensível” de Walmor Zucco, o Juiz Francisco Vani Bemfica foi descrito como alguém com “ausência de escrúpulos e objetivos espúrios”. Essa avaliação do SNI, uma das mais devastadoras contra uma autoridade judicial, revelou como o juiz, longe de ser um defensor da moralidade e da lei, usava sua posição para perseguir seus inimigos políticos e disfarçar seus próprios pecados.
O caso Zucco vs. Bemfica representa um raro momento na história da repressão militar brasileira onde a inteligência militar, que deveria ser um instrumento de perseguição à esquerda, acabou servindo como um defensor da verdade, ao expor a podridão de um juiz corrupto e inescrupuloso.
O Feudo Financeiro: O Esquema Imobiliário e a Compra da Própria Sentença
Enquanto o Juiz Francisco Vani Bemfica ocupava seu cargo de magistrado em Varginha, ele também mantinha poderosas conexões financeiras que lhe permitiram transformar o judiciário local em um verdadeiro balcão de negócios. Nos anos 70, a corrupção no judiciário de Varginha se manifestava de várias maneiras, e os documentos da época desenham um quadro sombrio de fraudes imobiliárias, advocacia administrativa e prevaricação.
O juiz não apenas manipulava processos, mas também se aproveitava de sua posição para realizar transações ilícitas que enriqueciam a si mesmo e aos seus aliados.
O Saque à Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA)
Como presidente da FUNEVA, Francisco Vani Bemfica abusou de seu poder para transformar a fundação em uma ferramenta de enriquecimento pessoal. Ele se envolveu em uma série de transações fraudulentas, começando pela compra de terrenos para a fundação, seguida pela revenda desses mesmos terrenos para um “laranja”, e, em seguida, comprando-os de volta para si mesmo a preços baixos, garantindo lucro imediato.
O Juiz que Comprou a Herança que Ele Mesmo Julgava
Outro escândalo de corrupção envolvia a compra de direitos hereditários de um espólio que estava sob sua jurisdição. Embora o Código Civil proíba magistrados de adquirirem bens litigiosos em tribunais onde atuam, Bemfica violou essa norma ao comprar os direitos hereditários de uma herança por um preço irrisório. Para disfarçar a operação, ele utilizou um procurador e fez com que o processo fosse transferido para seu substituto para a adjudicação final, mantendo sua participação como executor da fraude.
O Caso “Leite Batuta”: Retaliação e Falência
Um dos casos mais revoltantes envolveu a Usina de Pasteurização Varginha Ltda. Quando a empresa solicitou concordata preventiva, o intermediário de Bemfica exigiu uma quantia em dinheiro do empresário para garantir que o juiz “tratasse” o caso de forma favorável. Quando o empresário se recusou a pagar, Bemfica retaliou convertendo a concordata em falência, destruindo a empresa.
A Moralidade de Fachada: Manipulando a Lei para Proteger Aliados
Em sua carreira, o Juiz Francisco Vani Bemfica cultivou uma imagem de moralista rígido, escrevendo livros sobre Direito Penal e se apresentando como um defensor da ordem e da moralidade pública. No entanto, por trás dessa fachada de defensor da lei, Bemfica era, na realidade, o maior manipulador do sistema judicial, usando sua caneta para rasgar a lei e proteger seus aliados, enquanto perseguia aqueles que se opunham ao seu domínio.
O caso de um inquérito envolvendo uma festa ilegal, onde menores de idade foram flagrados consumindo drogas e álcool, é um exemplo claro de sua hipocrisia. Quando a polícia fez as apreensões, o juiz interveio para arquivar o caso, protegendo as figuras influentes da cidade envolvidas no escândalo.
Esse comportamento, aliado à sua atuação em casos políticos e financeiros, consolidou Francisco Vani Bemfica como um dos maiores exemplos de corrupção e impunidade no judiciário de Varginha, personificando a moralidade de fachada que caracterizava o regime militar.
Conclusão
O legado de Francisco Vani Bemfica não é apenas o de um juiz corrupto, mas o de um homem que usou o aparato judicial e suas conexões políticas para transformar a justiça em um instrumento de manipulação e enriquecimento pessoal. Seu nome, que deveria ser sinônimo de integridade, acabou se tornando um símbolo de um sistema judicial que traiu a sociedade.