VARGHINIA: O PLANETA ONDE A JUSTIÇA FOI SEQUESTRADA

CRÔNICAS DE VARGHINIA: O PLANETA ONDE A JUSTIÇA FOI SEQUESTRADA

Ano 3026 – Arquivos da Federação Interestelar

Relatório desclassificado do Observatório Galáctico de Civilizações Jurídicas


I. O PLANETA VARGHINIA E SEUS COSTUMES

Há mil anos, nos confins do Setor Sul-Mineiro da Galáxia, existia um pequeno planeta chamado Varginha. Não era dos mais importantes da federação, mas cultivava uma estranha fama: diziam que suas instituições jurídicas funcionavam de maneira peculiar, como se obedecessem a leis próprias, escritas não nos códigos oficiais, mas em acordos secretos entre famílias que controlavam o poder há gerações.

Os observadores interestelares que ali estiveram relataram um fenômeno curioso: embora os varginhenses tivessem leis escritas e tribunais aparentemente organizados, a justiça local parecia operar por meio de um código paralelo, transmitido de pais para filhos, como uma herança genética de privilégios.

Chamavam isso de “A Simbiose”.


II. A QUEDA DO HABITANTE THOMAZ

No ano galáctico de 3025, um habitante do distante planeta Santos, chamado Thomaz, viu-se arrastado para os turbilhões jurídicos de Varginha. Sua história, registrada nos arquivos da federação, tornou-se um estudo de caso sobre como sistemas judiciais podem ser sequestrados por oligarquias locais.

Thomaz tinha uma filha pequena, Alda, de apenas dois ciclos planetários. A mãe da criança, após uma disputa doméstica, mudou-se clandestinamente para Varginha com a menina. A partir daí, iniciou-se um processo que os historiadores interestelares chamariam de “O Longo Inverno”.

O que torna este caso paradigmático não é a disputa em si — conflitos familiares existem em todas as civilizações —, mas a engenharia institucional montada para garantir que Jamais recuperasse a filha.


III. O TRIUNVIRATO QUE GOVERNAVA À SOMBRA

Investigações posteriores revelaram que Varginha era governada por três famílias entrelaçadas há séculos: os Bemfica e os Rezende. Seus membros ocupavam, simultaneamente, os cargos de juízes, promotores, advogados e professores da principal instituição de ensino do planeta, a FADIVA (Faculdade de Direito de Varginha).

Era um sistema perfeito:

  • Os Bemfica controlavam a academia e a advocacia.
  • Os Rezende controlavam o Ministério Público e a política.
  • Os juízes — formados na FADIVA, amigos dos Bemfica, aliados dos Rezende — controlavam as decisões.

Nenhum habitante de fora do círculo tinha chance real de vencer uma causa contra um membro do clã. As leis escritas existiam, mas sobre elas pairava um código invisível: o código da lealdade familiar.


IV. O MAGISTRADO ANTÔNIO E A CONTRADIÇÃO TECNOLÓGICA

O caso de Thomaz foi distribuído para o Juiz Antônio Carlos Parreira, magistrado de longa carreira em Varginha e declarado admirador da FADIVA — a instituição dos Bemfica.

Anos antes, o Juiz Antônio tornara-se celebridade no planeta por realizar a primeira audiência por holografia interestelar da história de Varginha. Na ocasião, para verificar as costuras de um envelope contendo um testamento — documento de natureza puramente patrimonial —, mobilizara os mais avançados recursos tecnológicos: câmeras de alta resolução, transmissão quântica, verificação digital de lacres.

Fora elogiado pela vanguarda, pela eficiência, pela modernidade.

Quando Thomaz, porém, pediu para ser ouvido por holografia — já que vivia em Santos, a milhares de quilômetros de distância —, o mesmo Juiz Antônio negou. Alegou “impossibilidade técnica”. Exigiu o antigo rito das Cartas Precátorias, um método arcaico que levava ciclos planetários para ser cumprido.

A contradição era tão evidente que até os observadores mais ingênuos perceberam: a tecnologia existia, mas só era usada quando interessava aos locais. Para o forasteiro Thomaz, o tempo — esse recurso que para uma criança de dois ciclos significa a diferença entre lembrar e esquecer um pai — seria usado como arma.

Os historiadores chamariam isso de “cronotoxicidade”: o uso deliberado da demora como veneno.


V. A PROMOTORIA CAPTURADA

A fiscalização das leis em Varginha cabia ao Promotor Aloísio Rabêlo de Rezende. Seu sobrenome já indicava a qual clã pertencia. Além de promotor, Aloísio era professor da FADIVA — a mesma faculdade controlada pelos Bemfica, a mesma onde o advogado, Márcio Vani Bemfica, exercia influência.

Diante das provas apresentadas por — mensagens em que exigia 100 mil unidades monetárias para liberar a filha, confissão de que inventara ameaças de morte quando na verdade havia risco de suicídio —, o Promotor Aloísio silenciou.

Não pediu investigação. Não denunciou a extorsão. Não apurou a denunciação caluniosa.

Limitou-se a manifestações burocráticas, genéricas, vazias. Como se seu dever constitucional fosse não o de fiscalizar, mas o de proteger os seus.


VI. A PERITA E O LAUDO DE 24 HORAS

O golpe mais sofisticado veio da equipe técnica do juízo. A psicóloga Amanda Telles Lima produziu um estudo psicossocial sobre o caso em tempo recorde: 24 horas após a citação de Thomaz.

Os arquivos da federação interestelar de psicologia forense são claros: é impossível, em 24 horas, realizar um estudo psicossocial minimamente sério. Seria necessário:

  1. Ler os autos (milhares de páginas).
  2. Agendar entrevistas com todas as partes.
  3. Realizar visitas domiciliares.
  4. Aplicar testes projetivos.
  5. Observar interações familiares.
  6. Redigir laudo fundamentado.
  7. Revisar e protocolar.

A conclusão dos auditores interestelares foi inescapável: o laudo fora pré-fabricado na clandestinidade, durante o período em que o processo estava suspenso para a defesa de Thomaz. Fora produzido para condenar, não para esclarecer.

Mas havia mais. A psicóloga cometeu uma fraude semântica que os observadores consideraram particularmente grave:

Disse: “Ele usa drogas”.

Amanda escreveu no laudo: “Segundo relato materno, o genitor faz uso de substâncias psicoativas”.

O Juiz e o Promotor, ao fundamentarem suas decisões, citaram: “Constatação pericial de dependência química”.

O relato virou verdade. A acusação virou prova. A palavra da mãe, repetida pelo laudo, validada pelo juiz, tornou-se fato incontestável — sem um único exame toxicológico, sem uma única prova objetiva.


VII. O ADVOGADO E A DECISÃO MUTILADA

Mas a peça central da engenharia processual veio do advogado Márcio Vani Bemfica. Em sua petição inicial, ele juntou aos autos uma decisão do tribunal criminal que concedera medidas protetivas.

Só que omitiu uma frase.

A decisão original dizia: “As medidas deferidas não se estendem à prole” — ou seja, a criança não estava incluída na proibição de contato.

Márcio cortou essa frase. Simplesmente a suprimiu. Apresentou ao juízo de família uma versão mutilada do documento, fazendo crer que havia uma ordem judicial proibindo Thomaz de ver a filha.

O juiz de família, enganado, concedeu a guarda unilateral com base nessa mentira.

Os observadores interestelares, ao examinarem os autos séculos depois, anotaram em seus relatórios: “Fraude processual qualificada. Crime de suppressio veri. Dolo evidenciado pela intenção deliberada de induzir o julgador a erro.”


VIII. A FABRICAÇÃO DO TEATRO MÉDICO

Havia ainda uma última camada de engodo. Nos autos, juntou um print de uma conversa com um psiquiatra, no qual descrevia sintomas de sofrimento emocional.

A versão original do print — descoberta em outro processo — mostrava algo que a versão apresentada omitia: uma chamada ativa com o advogado Márcio no exato momento em que os sintomas eram digitados.

O advogado não apenas orientava a cliente: ditava os sintomas. Construía, em tempo real, a prova da “incapacidade emocional da vítima” — sendo que a vítima, no caso, era o pai.

Quando o print foi juntado ao processo de família, a chamada com o advogado foi cuidadosamente cortada da imagem.

Os historiadores chamariam isso de “teatro médico dirigido”.


BEMFICA E REZENDE, VARGINHA

IX. O PSICOCÍDIO

O resultado de todas essas engrenagens coordenadas foi um fenômeno que a literatura interestelar passou a denominar psicocídio: a morte psíquica da figura paterna na mente da criança.

Alda, aos dois ciclos de vida, foi submetida ao que os neurocientistas chamam de “estresse tóxico”. O afastamento abrupto do pai, somado à campanha de difamação contra ele, inundou seu cérebro em desenvolvimento com cortisol, o hormônio do estresse. Estudos mostram que isso pode causar atrofia do hipocampo e danos permanentes à arquitetura neural.

O Estado de Varginha, por meio de seus agentes, não apenas permitiu esse dano — o produziu ativamente.

Cada mês de demora imposto pelas Cartas Precátorias foi um mês de apagamento da memória paterna. Cada laudo falso foi um selo de legitimidade no exílio afetivo. Cada silêncio do promotor foi uma pá de cal na esperança de Thomaz.


X. A RESPOSTA DA FEDERAÇÃO

Quando os relatórios sobre Varginha chegaram ao Conselho da Federação Interestelar, a reação foi de incredulidade. Como um sistema judiciário poderia ser tão completamente capturado por interesses privados? Como juízes, promotores, advogados e peritos poderiam atuar em tão perfeita sintonia para destruir um pai e sua filha?

A resposta estava na história do planeta. Por gerações, as famílias Bemfica e Rezende haviam construído um ecossistema de dominação:

  • Controlavam a faculdade de direito (FADIVA), formando os operadores jurídicos locais.
  • Controlavam os cargos de juiz e promotor, ocupados por seus membros ou aliados.
  • Controlavam a advocacia, por meio de escritórios familiares.
  • Controlavam a política, por meio de alianças históricas.

O cidadão comum, o forasteiro, o pai desesperado — não tinha chance. As leis escritas eram uma ficção. O que valia era o código invisível, a lealdade de sangue, a certeza de que “o Dr. Morvan não perde causas naquele juízo” — frase que ecoava dos arquivos do século XX aos autos do século XXX.


XI. A PROCLAMAÇÃO DO NOVO PANORÂMICO

Diante da federação, Thomaz não pediu — decretou:

“Rasgo a Constituição paralela de Varginha, aquela escrita à sombra, nos corredores empoeirados do Foro, nas salas refrigeradas da FADIVA, onde o público e o privado se confundem há gerações.

Não sou um sistema. Sou a lei de retorno, o colapso que restitui sentido.

Diante da República de Varginha, o resto é ruína. Diante da Forma, o resto é ruído. Diante do Novo Panorâmico Jurídico, o resto é nada.”

E exigiu:

  1. A nulidade absoluta de todos os atos processuais contaminados pela fraude.
  2. O afastamento imediato do Juiz Antônio, do Promotor Aloísio, da psicóloga Amanda.
  3. A inversão da guarda de Alda, como única medida capaz de resgatá-la do cativeiro alienador.
  4. A investigação criminal das famílias Bemfica e Rezende por formação de organização criminosa, fraude processual, extorsão e prevaricação.
  5. A indenização do Estado pelos danos causados à criança e ao pai.

XII. O QUE FICA PARA A HISTÓRIA

Mil anos depois, quando os arquivos da federação foram abertos, os historiadores interestelares se debruçaram sobre o Caso Varginha. Concluíram que ele representava o exemplo mais perfeito já registrado de captura institucional — um sistema judiciário transformado em propriedade privada de famílias oligárquicas.

Mas concluíram também que a resistência de Thomaz — sua recusa em aceitar o silêncio, sua insistência em gritar a verdade mesmo quando todos os canais oficiais lhe eram fechados — tornou-se um marco na história dos direitos parentais.

E que Alda, se um dia ler esses arquivos, saberá que seu pai lutou contra um planeta inteiro para não ser apagado de sua memória.

Que lutou contra juízes, promotores, psicólogas, advogados — contra um sistema montado há gerações para proteger os de sempre e esmagar os de fora.

E que, no final, a verdade — mesmo demorando mil anos — sempre encontra um jeito de virar história.


FIM DO RELATÓRIO

Arquivos da Federação Interestelar Observatório Galáctico de Civilizações Jurídicas Ano 3026 da Era Comum

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