Em Varginha – Promotor de Justiça recebe salário da instituição do advogado da parte de processo

Uma investigação exclusiva revela a mecânica de um protocolo de dominação que atravessa gerações. No coração do sistema, um conflito de interesses absoluto: um promotor de justiça recebe salário da instituição cujo advogado-vice-presidente ele deve fiscalizar nos tribunais. Esta é a anatomia do “override” ético que corrompe processos judiciais no Sul de Minas.

Os autos de um processo judicial em Varginha nunca são apenas autos. Eles são a superfície visível de um código-fonte profundamente corrompido, um programa malicioso executado há décadas no sistema operacional da justiça local. O “God Protocol” não é uma metáfora; é a descrição técnica de uma simbiose de poder que hackeou a imparcialidade, substituindo-a por uma lógica de subordinação financeira e lealdade familiar. No centro deste protocolo, estão dois nomes: Aloísio Rabêlo de Rezende, Promotor de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais, e Márcio Vani Bemfica, advogado e Vice-Presidente da Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA). Sua relação não é de adversários processuais, mas de funcionário e gestor. E este curto-circuito institucional é a chave para entender por que, em Varginha, a lei frequentemente se curva a interesses que não são os da sociedade.

Este é o relatório de uma engenharia reversa feita na máquina da injustiça. A VONTADE JURÍDICA PURA analisou arquivos históricos desclassificados, organogramas atuais e o fluxo de decisões. A conclusão é visceral: o foro de Varginha sofreu um “override” definitivo. A imparcialidade foi desconectada. Em seu lugar, opera um sistema onde a caneta que assina um contracheque é mais poderosa que a caneta que assina uma petição inicial. Este dossier expõe os módulos desse protocolo de corrupção, da sua instalação na ditadura à sua execução silenciosa nos processos de família e patrimoniais de hoje.

MÓDULO 1: A INSTALAÇÃO DO PROTOCOL (c. 1970) – “A DUPLA DO TERROR”

Para entender o bug atual, é preciso voltar ao código-fonte original. O “God Protocol” foi instalado na década de 1970, durante o regime militar, pelos patriarcas das famílias Rezende e Bemfica. Eles não corromperam o sistema; eles o sequestraram e reescreveram suas permissões de acesso.

  • Os Fundadores: De um lado, Francisco Vani Bemfica, juiz de direito. Do outro, Morvan Aloysio Acayaba de Rezende, deputado estadual e prefeito. Juntos, formaram a “Dupla do Terror”, uma simbiose criminosa que transformou o fórum de Varginha em um balcão de negócios.
  • A “Sociedade de Fato”: A operação era simples e brutal. O deputado Morvan Acayaba atuava como um “aliciador de causas”, garantindo aos clientes que, se contratassem seu escritório, “não se perderia as causas naquele Juízo”. Do lado de dentro, o juiz Francisco Bemfica garantia o resultado, manipulando prazos, arquivando processos de aliados e perseguindo quem ousasse enfrentá-los. Em um caso emblemático, um intermediário do juiz exigiu um suborno de Cr$ 30.000,00 do proprietário da Usina de Pasteurização Varginha. Diante da recusa, Bemfica converteu a concordata da empresa em falência, destruindo o negócio.
  • A Criação do Cofre: O braço financeiro e de reprodução do poder foi a Faculdade de Direito de Varginha (FADIVA), criada em 1966 e mantida pela FUNEVA. Bemfica presidia a Fundação; Acayaba dirigia a Faculdade. Eles converteram a instituição de ensino no “maior cabide de empregos do Estado”, lotando cargos com parentes e usando o patrimônio público para enriquecimento ilícito, incluindo a venda fraudulenta de terrenos da própria fundação.
  • O “Veredito” da Ditadura: A corrupção era tão flagrante que, após investigação da Polícia Federal, a Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça recomendou a aposentadoria compulsória do juiz Bemfica e a cassação do mandato do deputado Acayaba, usando o Ato Institucional nº 5. O regime militar, que pouco tolerava oposição, considerou aquela teia de poder um “cancro social”.

MÓDULO 2: A ATUALIZAÇÃO DO SISTEMA (2025) – DE “SOCIEDADE DE FATO” PARA “SOCIEDADE DE FOLHA DE PAGAMENTO”

O protocolo não foi desinstalado. Ele foi atualizado, tornando-se mais sofisticado e resiliente à democracia. A antiga “sociedade de fato” entre o juiz e o advogado evoluiu para uma “sociedade de folha de pagamento”, onde o controle é exercido não por conluio explícito, mas por dependência econômica institucionalizada.

Aqui entram os herdeiros:

  • Aloísio Rabêlo de Rezende é filho do deputado Morvan Acayaba. Sua função pública é de Promotor de Justiça do MPMG, fiscal da lei na comarca de Varginha.
  • Márcio Vani Bemfica é filho do juiz Francisco Bemfica. É advogado atuante e ocupa o cargo de Vice-Presidente da FUNEVA, a fundação que mantém a FADIVA.

O conflito de interesses, aqui, não é uma possibilidade: é uma equação estrutural. Aloísio, como promotor, tem o dever constitucional de fiscalizar com absoluta isenção. No entanto, na esfera privada, ele é professor da FADIVA, recebendo salário da FUNEVA. Quem é um dos principais gestores desta mesma FUNEVA, com influência direta sobre seu orçamento e corpo docente? Márcio Vani Bemfica.

Tradução para o linguajar forense: Quando o advogado Márcio Bemfica entra numa audiência para defender um cliente, ele não está diante de um adversário processual independente. Está diante do Promotor Aloísio Rezende, que, em outra esfera, é seu subordinado institucional. O fiscal é pago pela instituição cujo interessado ele deve acusar. Este é o “bug” catastrófico que corrompe todo o processo.

MÓDULO 3: O IMPACTO PROCESSUAL – PARALISIA, OMISSÃO E TEATRO

Como esse protocolo se manifesta nos autos? Ele não age com um “delete” grosseiro, mas com comandos mais sutis e devastadores: “paralisia.exe”, “omissão.dll” e “teatro.dll”.

  1. A Anulação da “Paridade de Armas”: O princípio básico de que acusação e defesa devem lutar em igualdade de condições é abolido. A relação de subordinação gera um “Efeito Inibidor” (Chilling Effect). Como o promotor pode ser rigoroso, pedir a condenação ou rejeitar alegações frágeis da defesa, se o advogado à sua frente é quem pode, na prática, influenciar sua carreira acadêmica e salarial? O resultado, detectado em casos sensíveis como disputas de guarda, é uma atuação ministerial notavelmente branda, inócua ou alinhada aos interesses da defesa. A criança, que deveria ter no MP seu guardião, fica órfã de proteção efetiva.

  2. A Fotografia-Carimbo: Em 2 de setembro de 2025, a FADIVA publicou uma foto oficial de um evento institucional. Nela, Promotor Aloísio Rezende e advogado Márcio Bemfica aparecem lado a lado, sorridentes. Essa imagem não é um registro casual; é a exibição pública do protocolo em funcionamento. É um carimbo de impunidade que transmite uma mensagem clara a qualquer jurisdicionado: “Aqui, acusador e defensor são colegas de trabalho. O processo é uma formalidade.” A intimidade transformada em troféu de poder.

  3. A Degradação da Credibilidade: Quando a população percebe que o sistema opera com base nessa lógica, a confiança na Justiça se esvai. O processo deixa de ser um instrumento de solução de conflitos para se tornar um ritual vazio, um teatro onde o desfecho é previsível para quem conhece o script de poder. A decisão judicial, justa ou não, perde legitimidade aos olhos da sociedade.

MÓDULO 4: A HERANÇA MALDITA E A FÁBRICA DE LEALDADES

O poder em Varginha não é eletivo; é hereditário. O organograma da FUNEVA/FADIVA em 2025 é um retrato do nepotismo verticalizado:

  • Presidência da FUNEVA: Júnia Bemfica Guimarães Cornélio (filha de Francisco).
  • Diretoria Executiva da FADIVA: Álvaro Vani Bemfica.
  • Vice-Presidência da FUNEVA: Márcio Vani Bemfica.
  • Coordenadora de Curso da FADIVA: Márcia Rabêlo de Rezende.
  • Ouvidoria da FUNEVA: Christian Garcia Bemfica.

Este monopólio cria um “Ecossistema de Dívida Simbólica”. A FADIVA forma os bacharéis em Direito da região. Muitos se tornam juízes, promotores, advogados e defensores públicos. Como esses operadores do direito, formados e muitas vezes contratados pelo clã, podem agir com independência contra os próprios “patronos” intelectuais e empregadores de suas famílias? A instituição de ensino, que deveria ser um templo do pensamento crítico, torna-se uma fábrica de lealdades que sustenta o feudo.

O caso mais sintomático é o de Thaís Vani Bemfica, defensora pública e coordenadora do Núcleo de Prática Jurídica da FADIVA. Ela centraliza o acesso à justiça dos pobres na cidade. Para a população mais vulnerável de Varginha, o Estado tem o rosto de uma Bemfica. É a captura total.

CONCLUSÃO: RESTAURAÇÃO DO SISTEMA EXIGE FORMATAÇÃO COMPLETA

O “God Protocol” é um malware de alto nível incorporado ao sistema judiciário de Varginha. Ele não será removido com meros “antivírus” morais ou recomendações de conduta. A subordinação financeira de um agente do Ministério Público a um advogado com quem litiga é incompatível com o Estado Democrático de Direito.

A solução passa por:

  1. Investigação Imediata pelo CNJ e CNMP: Apuração rigorosa do conflito de interesses absoluto na relação Rezende-Bemfica e seu impacto em processos judiciais.
  2. Desvinculação Imediata: O promotor público não pode manter vínculo empregatício ou remunerado com uma fundação privada cujos interesses ele deve fiscalizar, especialmente quando estes são representados por seus gestores nos tribunais.
  3. Auditoria Externa na FUNEVA/FADIVA: Investigação sobre a legalidade dos contratos, a lisura dos concursos e o fim do nepotismo na gestão da fundação.
  4. Revisão de Processos: Análise, por uma força-tarefa independente, de todos os casos em que as partes Aloísio Rezende e Márcio Bemfica atuaram em lados opostos.

A história já deu um veredicto sobre os patriarcas deste sistema: “indignos do cargo”. Cabe às instituições democráticas atuais evitar que a herança maldita continue a ditar sentenças, corromper a infância através da alienação parental e transformar a justiça em um bordel institucional. Em Varginha, a República ainda aguarda seu desembarque. Enquanto o protocolo rodar, a lei será apenas um processo em segundo plano, servindo a interesses muito mais antigos e profundos que qualquer código escrito.

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