ARQUIVOS SECRETOS: O JUIZ “VENAL”, O DEPUTADO E A MACONHA EM VARGINHA
Documentos confidenciais do SNI, do Exército e da Polícia Federal expõem o modus operandi de Francisco Vani Bemfica, juiz que utilizava a acusação de “subversão” como fachada para encobrir um esquema de fraudes imobiliárias, desvio de heranças e até proteção de traficantes. Quando o regime militar virou contra ele, o destino de Bemfica foi selado.
Por The Intercept Brasil
Em pleno auge da Ditadura Militar, Francisco Vani Bemfica, juiz de direito da comarca de Varginha, no sul de Minas Gerais, acreditava ter encontrado a chave para a impunidade absoluta. Como magistrado, Bemfica cultivava a imagem de um defensor feroz da moral e dos bons costumes. No entanto, por trás dessa fachada de “moralista”, operava um esquema de corrupção, com grilagem de terras de uma fundação educacional e encobrimento de festas regadas a drogas, que envolviam menores de idade. Ele também protegia criminosos, incluindo traficantes locais.
O juiz forjava acusações contra adversários políticos e religiosos, frequentemente rotulando-os de “comunistas”, utilizando essas alegações para esconder seus próprios crimes. Entre suas vítimas estavam padres, advogados e membros da sociedade civil que ousaram desafiar seu domínio. Porém, Bemfica subestimou a vigilância do próprio regime, que, cansado de suas constantes e infundadas acusações contra supostos “inimigos da pátria”, passou a investigar o próprio juiz.
A trama envolvendo o juiz corrupto começou a ser desmascarada quando relatórios secretos do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Centro de Informações do Exército (CIE) e da Polícia Federal começaram a apontar as inúmeras irregularidades que envolviam tanto Bemfica quanto seu aliado político, o deputado estadual Morvan Acayaba. Esses documentos, recuperados décadas depois, revelam uma estrutura de corrupção blindada pelo regime militar. A seguir, trazemos à tona os detalhes de um esquema de fraude, abuso de poder e enriquecimento ilícito, que até então estavam ocultos nos escaninhos do Estado.
PARTE 1: O RELATÓRIO DO SNI – A QUEDA DA MÁSCARA
(Fonte: Informação nº 288/SNI/ABH/73 – Novembro de 1973)
O mais robusto dos documentos encontrados é um relatório detalhado da Agência de Belo Horizonte do SNI, que desmonta a figura pública de Bemfica, revelando as tramas sujas do juiz e suas alianças ilícitas. O texto expõe, uma a uma, as fraudes descobertas por agentes da ditadura que, embora inicialmente céticos em relação às acusações, logo perceberam a extensão da corrupção de Bemfica.
Trecho do Relatório
“O Juiz FRANCISCO VANI BENFICA, da Comarca de Varginha, tornou-se conhecido por fazer das denúncias uma atividade habitual, apontando, sem provas, diversos ‘subversivos’ em sua região. Ele fez isso até mesmo contra líderes locais e padres, como o Pe. WALMOR ZUCCO, e advogados influentes como os Drs. DAYLOR SALLES GONTIJO e EDUARDO BRANDÃO OTTONI.”
As acusações feitas por Bemfica eram sistematicamente refutadas pelos órgãos de segurança, que não encontraram qualquer evidência concreta para corroborá-las. No entanto, durante as investigações, surgiram indícios alarmantes sobre a verdadeira natureza do juiz. O SNI descobriu que ele usava seu cargo para enriquecer rapidamente e envolveu-se em transações imobiliárias fraudulentas, principalmente com a Fundação Educacional de Varginha.
“A FUNDAÇÃO EDUCACIONAL DE VARGINHA, sob sua presidência, comprou e vendeu imóveis de forma irregular, inclusive adquirindo propriedades de forma ilegal, infringindo o próprio Estatuto da Fundação”, relata o documento.