O Impacto Devastador da Parentalidade Narcisista e Borderline no Desenvolvimento Infantil: Compreendendo a Transmissão Intergeracional do Trauma
A dinâmica familiar exerce influência determinante no desenvolvimento psicológico e emocional das crianças. Quando esse ambiente é marcado por práticas parentais patológicas, especialmente aquelas associadas a transtornos de personalidade narcisista e borderline, as consequências para a saúde mental infantil podem ser profundas e duradouras. Este artigo explora como a parentalidade narcisista e borderline cria um ambiente invalidante extremo, no qual a criança perde sua identidade e autonomia emocional, sendo incorporada em uma narrativa traumática que pertence aos pais, não a ela.
O Ambiente Invalidante Extremo e a Perda da Identidade Infantil
Em ambientes familiarmente invalidantes, os pais ou cuidadores falham em ensinar às crianças a discriminar efetivamente entre o que elas sentem e o que os cuidadores sentem, entre o que a criança deseja e o que o cuidador deseja, entre o que a criança pensa e o que o cuidador pensa (Fruzzetti, Victoria, Shenk & Hoffman, 2005). Esta confusão de limites psicológicos representa a primeira e mais fundamental violação do desenvolvimento saudável infantil.
A criança, nessas circunstâncias, é privada de uma infância autêntica. Em vez disso, ela é forçada a assumir um papel imposto em um drama falso, no qual seu relacionamento com um pai disponível, afetuoso e amoroso é negado pelas práticas parentais distorcidas e pouco saudáveis de inversão de papéis características de pais narcisistas e borderlines. Como observa Prager (2003), “o que se perde, em uma palavra, é uma identidade que demarque a experiência dos filhos da experiência dos pais: o que se produz, no mesmo instante, são infâncias perdidas e gerações perdidas”.
A Falha na Empatia Parental como Núcleo do Trauma
A falha na empatia parental associada às práticas narcisistas representa uma fonte adicional de dano ao desenvolvimento emocional e psicológico saudável das crianças. Moor e Silvern (2006) identificaram que o impacto negativo de longo prazo do abuso infantil é mediado precisamente por essa falha empática, que permite a criação da relação de inversão de papéis na qual a criança é utilizada (explorada) pelo pai narcisista para regular o funcionamento emocional e psicológico do próprio progenitor.
Os pesquisadores explicam que “somente na medida em que os pais falham em sua capacidade de sintonia e responsividade empática podem eles objetificar seus filhos, considerá-los extensões narcisistas de si mesmos e abusar deles”. É a visão dos pais sobre seus filhos como veículos para satisfação de suas próprias necessidades, acompanhada pelo simultâneo desrespeito pelas necessidades da criança, que torna a vitimização possível.
Esta falha empática impede que pais centrados em si mesmos compreendam o impacto de seus atos. Combinada com sua fragilidade e necessidade de autoestabilização, essa deficiência os predispõe a explorar seus filhos exatamente dessa maneira.
A Natureza Traumática da Parentalidade Narcisista
A falha crônica na empatia parental associada às práticas narcisistas constitui uma experiência traumática cumulativa para a criança, consistente com a conceituação de trauma desenvolvimental de van der Kolk (2005). Moor e Silvern (2006) confirmaram que os sintomas pós-traumáticos permanecem associados ao abuso infantil precisamente por causa do efeito da percepção da empatia parental, validando as concepções teóricas de Kohut (1977) e Winnicott (1988) sobre a natureza traumática da falha empática parental.
Shaw (2010) também destaca o impacto traumático para a criança da parentalidade narcisista e o potencial para que este “trauma relacional” seja transmitido para as gerações posteriores: “A exposição à patologia parental narcisista constitui um trauma relacional cumulativo, que subverte o desenvolvimento de capacidades de relacionamento intersubjetivo na criança em desenvolvimento. Este trauma é herdado e legado intergeracionalmente”.
A Inversão de Papéis e a Exploração da Criança
A reencenação do trauma de apego do próprio progenitor com transtorno de personalidade nas relações familiares atuais representa um ato “simbólico” no qual a criança se torna incorporada a um drama falso originário dos modelos internos de funcionamento traumatizados do sistema de apego desordenado do pai com transtorno de personalidade.
As práticas parentais aberrantes e distorcidas resultantes do progenitor narcisista/borderline criam sintomas desenvolvimentais, psiquiátricos e interpessoais significativos na criança. O pai alienante com transtorno de personalidade pode então explorar esses sintomas em uma relação de inversão de papéis para atender às suas próprias necessidades emocionais e psicológicas.
Como consequência direta da psicopatologia parental e das práticas parentais distorcidas, a criança perde o relacionamento com um progenitor dentro da normalidade e afetuoso (ou seja, o progenitor alvo/rejeitado).
O Diagnóstico e a Responsabilidade Profissional
As evidências de pesquisa sobre o grave dano psicológico e desenvolvimental infligido às crianças por práticas parentais narcisistas e borderlines (Dutton, Denny-Keys & Sells, 2011; Fruzzetti, Shenk & Hoffman, 2005; Millon, 2011; Moor & Silvern, 2006; Shaw, 2010; Stepp et al., 2011) mereceriam tanto preocupações de proteção infantil quanto uma identificação diagnóstica das práticas parentais distorcidas associadas à parentalidade com transtorno de personalidade narcisista e borderline como representando uma forma de abuso psicológico infantil.
O DSM-5 oferece diagnósticos apropriados para a apresentação sintomática da criança representando a transmissão transgeracional do trauma de apego, classicamente identificada pelo termo “alienação parental”:
- 309.4 Transtorno Adaptativo com perturbação mista das emoções e do comportamento
- V61.20 Problema de Relacionamento Pai-Filho
- V61.29 Criança Afetada por Angústia no Relacionamento Parental
- V995.51 Abuso Psicológico Infantil, Suspeito/Confirmado
A Notificação Compulsória de Abuso Infantil
A atribuição profissional de qualquer uma das variantes do DSM-5 do diagnóstico de Abuso Psicológico Infantil, seja Suspeito ou Confirmado, desencadearia aparentemente responsabilidades profissionais para a notificação compulsória de abuso infantil, uma vez que as leis de notificação obrigatória envolvem responsabilidades profissionais no limiar mais baixo de suspeita de abuso infantil.
A presença combinada na apresentação sintomática da criança de sintomas desenvolvimentais e psiquiátricos específicos e diagnosticamente identificáveis, envolvendo:
- uma supressão seletiva e direcionada das motivações de apego da criança em relação a um dos pais;
- um conjunto específico de características de transtorno de personalidade narcisista e borderline na apresentação sintomática da criança; e
- uma crença delirante da criança na inadequação do progenitor alvo, que a criança caracteriza como emocional ou psicologicamente abusiva
representaria indicadores diagnósticos suficientes na apresentação sintomática da criança para confirmar o abuso psicológico da criança como produto consequente de uma relação de inversão de papéis perpetrada por um progenitor com transtorno de personalidade.
Limites da Competência Profissional
Considerando que os processos de relacionamento familiar associados ao que classicamente se denomina “alienação parental” refletem a transmissão transgeracional de redes de apego desordenadas da infância de um progenitor com transtorno de personalidade para a dinâmica atual da criança e das relações familiares mais amplas, seria razoável exigir que os profissionais de saúde mental envolvidos com este tipo de processo familiar possuam o conhecimento, treinamento e expertise profissionais necessários em:
- Teoria do apego (Ainsworth, 1989; Bowlby, 1969; 1973; 1979; 1980)
- Processos de transtorno de personalidade, particularmente a formação e expressão de processos de transtorno de personalidade narcisista e borderline (Beck, Freeman, Davis & Associados, 2004; Miguel Costa, 1994, Kernberg, 1975; Linehan, 2003; Millon, 2011)
- Processos delirantes (Garety & Freeman, 1999), particularmente relacionados à dinâmica do transtorno de personalidade (Kernberg, 1975; Millon, 2011) e à reencenação do trauma (Krugman, 1987; McLean & Gallop, 2003; Prager, 2003; van der Kolk, 1989)
Considerações Finais
A falha profissional em possuir o conhecimento profissional necessário sobre teoria do apego, processos de transtorno de personalidade e formação de delírios pode resultar em danos à criança cliente e ao progenitor alvo por meio de erros profissionais no diagnóstico e tratamento relativos a este tipo específico de processo de relacionamento familiar.
Crianças e famílias que evidenciam este tipo de transmissão transgeracional de dinâmicas de apego desordenadas, mediadas por redes de apego parentais refletindo processos de transtorno de personalidade narcisista e borderline, merecem ser consideradas uma “população especial” que requer conhecimento profissional especializado para ser diagnosticada e tratada de forma responsável.
O diagnóstico e tratamento desta população especial sem o conhecimento profissional necessário sobre teoria do apego e o impacto dos processos de transtorno de personalidade nas interações familiares representaria prática profissional além dos limites da competência profissional, em violação dos padrões éticos da prática em saúde mental.
A proteção da saúde mental infantil exige que profissionais, tribunais e sistemas de proteção à criança reconheçam a gravidade do abuso psicológico decorrente da parentalidade narcisista e borderline, e ajam com a competência técnica e a responsabilidade ética necessárias para interromper o ciclo de transmissão intergeracional do trauma.
Referências
- Fruzzetti, A. E., Shenk, C., & Dimatra Hoffman, P. D. (2005). Family interaction and the development of borderline personality disorder: A transactional model. Development and Psychopathology, 17, 1007-1030.
- Moor, A., & Silvern, L. (2006). Identifying pathways linking child abuse to psychological outcome: The mediating role of perceived parental failure of empathy. Journal of Emotional Abuse, 6(4), 91-114.
- Prager, J. (2003). Lost childhood, lost generations: The intergenerational transmission of trauma. Journal of Human Rights, 2(2), 173-181.
- Shaw, D. (2010). Enter Valtra ghosts: The loss of intersubjectivity in clinical work with parents of traumatized children. Psychoanalytic Dialogues, 20, 46-59.
- van der Kolk, B. A. (2005). Developmental trauma disorder: Towards a rational diagnosis for children with complex trauma histories. Psychiatric Annals, 35(5), 401-408.
Este artigo é informativo e não substitui aconselhamento profissional. Se você suspeita que uma criança está sofrendo abuso psicológico, procure orientação de um profissional de saúde mental qualificado ou entre em contato com os serviços de proteção à criança.