A Dinastia do Poder: Como um Juiz, um Deputado e a Ditadura Construíram um Feudo de Corrupção em Varginha
Data de Publicação: 10 de fevereiro de 2026
Uma investigação baseada em arquivos secretos do regime militar (1964-1985) revela a anatomia de um dos mais longevos esquemas de corrupção e poder em Minas Gerais. Os documentos, originários do Serviço Nacional de Informações (SNI), da Polícia Federal (DPF) e do Ministério da Justiça, expõem como a comarca de Varginha foi transformada em um feudo privado por meio de uma “sociedade de fato” entre o juiz Francisco Vani Bemfica e o político Morvan Aloysio Acayaba de Rezende. Seu legado, uma estrutura de enriquecimento ilícito, nepotismo e captura do Estado, permanece ativo e é administrado por seus herdeiros até os dias atuais.
A Importação Estratégica: A Semente do Feudo
A história não começou com um concurso público, mas com um acordo político. Em 1962, o então chefe político da UDN em Varginha, o advogado e futuro deputado Morvan Acayaba, “trouxe” Francisco Vani Bemfica para assumir a comarca. Bemfica chegou à cidade, segundo relatórios de inteligência, em situação financeira modesta. Sua rápida ascensão de um juiz que suplementava a renda dando aulas para um proprietário de fazendas e terrenos nobres despertou a atenção dos órgãos de informação do regime.
Essa parceria estratégica foi o alicerce de tudo. Bemfica, na toga, controlava o fórum e a aplicação da lei. Acayaba, na política e na advocacia, controlava o acesso ao poder e os negócios. Juntos, formaram o que os documentos do SNI classificariam mais tarde como a “Dupla do Terror”, cujo poder era “incomensurável” na região.
A Máquina Criminosa: Do Tribunal ao Caixa da Faculdade
Com o poder judiciário e político consolidados, a dupla precisava de um veículo para institucionalizar o enriquecimento e lavar sua influência. Eles o encontraram na educação. A Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA) e sua faculdade de direito (FADIVA) não foram criadas apenas como instituições de ensino, mas como o “bunker financeiro” da operação.
Os arquivos da Ditadura detalham as engrenagens dessa máquina:
- Estelionato Imobiliário: Em operação considerada “crime de estelionato” pelo SNI, o presidente da FUNEVA, juiz Bemfica, vendeu um terreno da fundação a “laranjas” e, meses depois, o recomprou para seu CPF por um valor 33% menor, lucrando na revenda posterior. A fundação “sem fins lucrativos” bancou a especulação imobiliária de seu principal dirigente.
- Cabide de Emprego e Nepotismo: A FUNEVA foi descrita em relatórios da Polícia Federal como o “maior cabide de empregos do Estado”. Irmãos do juiz, como Carlos Magno Bemfica, foram colocados em cargos-chave como a tesouraria, garantindo um “blackout” contábil. O próprio deputado Morvan Acayaba recebia um salário mensal ilegal como diretor da FADIVA, transformando o dinheiro das mensalidades em sustento político.
- Balcão de Sentenças: No fórum, a justiça era uma mercadoria. Tornou-se “público e notório” que o advogado Morvan Acayaba “não perdia causas” na comarca presidida por seu sócio. O juiz Bemfica atuava como um “aliciador de causas”, direcionando litigantes para o escritório do deputado. Para pressionar o mercado, ele simplesmente paralisou o judiciário local, decretando que só analisaria processos em dois dias da semana, criando um gargalo artificial que só a advocacia de Acayaba conseguia transpor.
A corrupção, no entanto, não era apenas financeira. Os arquivos revelam um padrão chocante de prevaricação e abuso sexual. Denúncias apuradas pelo Ministério da Justiça na época acusam o magistrado de:
- Perseguir profissionalmente uma advogada (Vilma Amâncio) que recusou suas investidas sexuais.
- Sugerir a uma mãe que levasse a filha de 13 anos, vítima de estupro, a um “aborteiro” em outra cidade, em vez de processar o agressor.
- Arquivar sumariamente inquéritos que envolviam a elite local em crimes como corrupção de menores.
A Cegueira Deliberada: Quando o Estado Falha em Punir seu Próprio
A pergunta que os arquivos respondem com clareza é: como um esquema tão vasto operou à luz do dia? A resposta é uma combinação de omissão, conivência e falha sistêmica.
O Ministério Público local, que deveria fiscalizar fundações como a FUNEVA, foi descrito nos relatórios como “totalmente omisso”, seja por negligência ou por temer o poder da dupla. A corrupção endêmica era um problema reconhecido até pela cúpula do regime militar. Um ministro da época admitiu: “O problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrupção, muito mais difícil de caracterizar, punir e erradicar”.
Quando a pressão pública e as denúncias de jornais como o Jornal de Minas forçaram uma investigação federal, o sistema mostrou suas falhas. O Ministério da Justiça, em seu Parecer nº 38/74, declarou Francisco Vani Bemfica “indigno do cargo que ocupa” e recomendou sua remoção via Ato Institucional Nº 5 (AI-5).
O AI-5, editado em 1968, foi o marco mais arbitrário da Ditadura, suspendendo garantias constitucionais e dando poderes extraordinários ao presidente, incluindo a possibilidade de confiscar bens de quem enriquecesse ilicitamente no serviço público. Para aplicar este artigo, foi criada a Comissão Geral de Investigações (CGI).
No entanto, a punição foi mitigada pela estrutura que deveria aplicá-la. No Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o processo de cassação do juiz foi barrado por uma tecnicalidade regimental, apesar de 13 desembargadores votarem contra ele. A solução final, em 1977, foi uma “aposentadoria a pedido”. Em vez da cadeia ou do confisco de bens, o juiz corrupto recebeu um “pijama remunerado”: afastamento com vencimentos integrais. Seu sócio, Morvan Acayaba, não só escapou da cassação como seguiu carreira política, tornando-se senador.
O Feudo Hereditário: A Herança Maldita em 2026
A maior prova do sucesso do esquema não está no passado, mas no presente. O feudo não foi desmontado; foi hereditário.
A estrutura de poder e os ativos capturados nas décadas de 1960 e 1970 permanecem sob controle familiar. Uma análise da governança atual da FUNEVA e da FADIVA revela um organograma de sangue:
- Júnia Bemfica Guimarães Cornélio (filha): Presidente da FUNEVA (a mantenedora).
- Dr. Márcio Vani Bemfica (filho): Vice-presidente da FUNEVA e advogado ativo.
- Dr. Álvaro Vani Bemfica (filho): Diretor da FADIVA (a faculdade).
- Aloísio Rabêlo de Rezende (filho de Morvan Acayaba): Promotor de Justiça titular em Varginha e professor da FADIVA.
Este último ponto revela o ápice da captura institucional. O Promotor de Justiça Aloísio Rezende, fiscal da lei, é simultaneamente funcionário (professor) da fundação cuja diretoria é comandada pelo advogado Márcio Bemfica. Em um processo judicial, eles são adversários. Na folha de pagamento da FADIVA, há uma relação de subordinação econômica. Esse conflito de interesses estrutural anula a paridade de armas e a independência do Ministério Público, afetando decisivamente casos atuais que vão de disputas de guarda a litígios empresariais.

A Amnésia como Arma: A Reescrita da História
Para consolidar a hegemonia, a oligarquia investiu na construção de uma memória seletiva. A FADIVA, instituição nascida de um estelionato comprovado em arquivos oficiais, promove seus fundadores como “ícones de moral inatacável” e “visionários da educação”.
O Parecer nº 38/74 do Ministério da Justiça, que os condena, não existe na narrativa oficial. A violência, as fraudes e a prevaricação são apagadas. Em seu lugar, erguem-se bustos, placas e discursos que transformam criminosos em benfeitores. Esta amnésia institucional é o firewall final do sistema: garante que novas gerações de alunos e a sociedade em geral não questionem a origem do poder e da riqueza que ainda comandam a cidade.

Conclusão: A Justiça com Uniforme da FADIVA
A investigação sobre a “Era Bemfica” em Varginha é mais do que um mergulho em um passado sombrio. É um raio-X de um modo de operação do poder no Brasil: a fusão entre interesses privados e aparelhos de Estado, a blindagem corporativa, a impunidade como regra e a transmissão hereditária de privilégios ilícitos.
Os arquivos da Ditadura, ironicamente, tornaram-se a principal ferramenta para desvendar essa teia. Eles provam que, em Varginha, a justiça por muito tempo não usou uma venda nos olhos. Ela usou – e em certos aspectos, ainda usa – o uniforme da FADIVA.
Os documentos estão disponíveis para consulta pública no Arquivo Nacional, no fundo do SNI e do Ministério da Justiça. A história foi arquivada. Cabe à sociedade decidir se a ela também será esquecida.


