A história da Fundação Educacional de Varginha (FEV) e da Faculdade de Direito de Varginha (FADIVA) não pode ser compreendida como uma simples narrativa do passado, algo superado por uma era democrática e moderna. O que se revela, ao contrário, é um ecossistema de poder que transcende o contexto histórico da década de 1970, persistindo e se adaptando até os dias atuais. Sob a liderança de Francisco Vani Bemfica e Morvan Aloysio Acayaba de Rezende, a estrutura de poder gerada naqueles anos se expandiu, metamorfoseou e se consolidou como um sistema complexo, resiliente e interconectado, mantendo sua influência na política e na justiça de Minas Gerais e além.
Este ecossistema de poder não se restringe a uma rede familiar fechada, mas constitui uma engrenagem estratégica que se retroalimenta e se adapta, sempre ampliando sua capacidade de controle. Em sua base, a FEV e a FADIVA continuam sendo pilares fundamentais da estrutura, mas ao longo dos anos a rede de influência se expandiu para o setor político, o judiciário, o mercado econômico e, mais recentemente, o corporativo e o digital. O objetivo de perpetuar o poder familiar, agora fortalecido e diversificado, é mais do que uma estratégia de sobrevivência: é uma construção sistemática de hegemonia institucionalizada.
A Perpetuação do Controle Familiar
O núcleo central do poder estabelecido por Bemfica e Acayaba, e que agora se perpetua nas gerações seguintes, continua a ser a FADIVA e sua mantenedora, a FEV. Essas instituições não são mais apenas centros de ensino, mas verdadeiras incubadoras de poder, treinando novas gerações que assumem postos de liderança em áreas-chave do sistema político e judicial.
Álvaro Vani Bemfica, atual Diretor da FADIVA, e Márcio Vani Bemfica, Vice-Presidente da Fundação, são os responsáveis por manter o controle familiar sobre as instituições, replicando o modelo de “patrimônio de família” que marcou os anos 1970. Sua presença nas instituições garante que a estratégia original de concentração de poder dentro do círculo familiar se perpetue, sem maiores modificações estruturais, ainda que com adaptações contemporâneas. Essas mudanças são necessárias para que o ecossistema continue a operar sob os novos paradigmas democráticos e tecnológicos.
A Renovação Geracional: A Família Acayaba no Sistema de Justiça
O promotor de justiça Aloísio Rabelo de Rezende, filho de Morvan Acayaba de Rezende, simboliza a renovação da continuidade do poder da família Acayaba no sistema judiciário. Aloísio, que também é professor na FADIVA, segue os passos de seu pai, ocupando agora um espaço crucial no Ministério Público. Essa perpetuação não se dá apenas pela via familiar, mas pela infiltração estratégica do sistema de justiça, onde as relações pessoais e políticas são mantidas de forma intrínseca.
A presença de Aloísio no Ministério Público é mais do que simbólica. Ele representa a fusão de dois elementos: a continuidade do poder familiar e a interligação da FADIVA com as esferas de controle político e judicial. O fato de ser membro do MP, enquanto também ligado à instituição educacional que formou boa parte dos principais atores desse ecossistema, reforça a ideia de que a FADIVA não apenas educa futuros juristas, mas também cria uma rede de lealdades e favores que se perpetuam ao longo do tempo.
A Inclusão de Novos Atores: O Juiz Antônio Carlos Parreira
Outro exemplo notável de como o ecossistema se expande e incorpora novos membros é Antônio Carlos Parreira, um juiz e ex-aluno da FADIVA. A história de Parreira ilustra o fenômeno de captação de talentos externos para o ecossistema, algo que, apesar de não envolver laços sanguíneos diretos, representa a assimilação de novos aliados ao poder que ainda se concentra nas famílias Bemfica e Acayaba.
Sua lealdade à FADIVA, seu envolvimento contínuo com membros das famílias fundadoras e sua ascensão dentro do judiciário demonstram como o poder da dupla se infiltra e se ramifica para além das fronteiras familiares. Parreira se tornou parte da rede de influência, o que permite à FADIVA continuar sendo uma força de coesão e articulação dentro do sistema judiciário mineiro.
A Simbiose entre as Famílias Bemfica e Acayaba
Apesar das mudanças ao longo das décadas, a simbiose entre as famílias Bemfica e Acayaba permanece um dos pilares centrais do ecossistema de poder. Durante os anos 1970, a parceria entre Francisco Bemfica, juiz da comarca, e Morvan Acayaba, deputado estadual, formou uma espécie de “dupla do terror” que moldou a realidade política e judicial da região. Este padrão de atuação continua a ser replicado nas gerações subsequentes, agora com o reforço de alianças mais sutis, porém igualmente eficazes.
As famílias se mantêm unidas por uma rede de relações pessoais, políticas e econômicas, estabelecendo alianças estratégicas dentro de diferentes esferas de poder. Por exemplo, os filhos de Acayaba, como Aloísio Rabelo, continuam a interagir com membros da família Bemfica, ampliando a troca de favores entre os dois grupos, agora distribuídos por diferentes âmbitos do poder público e privado.
A simbiose também se reflete na capacidade das famílias de garantir sua autoproteção. As alianças formadas ao longo dos anos criam uma rede de segurança que dificulta investigações e o questionamento público. A cooperação entre as duas famílias se estende também para o legislativo, onde membros aliados ocupam cadeiras e garantem continuidade nos processos de decisão política.
A Expansão do Ecossistema Além de Varginha
O que começou em Varginha expandiu-se significativamente. Membros das famílias Bemfica e Acayaba estão presentes em diversas comarcas de Minas Gerais, ocupando funções de destaque no judiciário estadual e também em tribunais superiores. Além disso, eles mantêm uma presença marcante no cenário político e acadêmico, garantindo que o ecossistema se estenda por todo o estado, com ramificações também em nível nacional.
O movimento para além das fronteiras locais é uma característica essencial para a adaptação e perpetuação desse ecossistema. A rede de alianças políticas, formada por contatos com corporations empresariais e instituições acadêmicas em Minas Gerais, fortalece o poder e a influência das famílias, criando um ciclo de reciprocidade que mantém sua posição dominante.
Adaptação Democrática e Influência Contemporânea
O ecossistema de poder não permaneceu o mesmo ao longo das décadas, adaptando-se de forma inteligente às mudanças no cenário político do Brasil. Originalmente operando com abusos de poder explícitos sob o regime militar, o ecossistema agora se adapta ao novo contexto democrático e mais plural, mas mantendo sua estratégia de influência, seus mecanismos de controle e a legitimação de poder.
A FADIVA, embora ainda uma faculdade de direito, passou a ser um centro de produção de conhecimento jurídico que, ao longo das décadas, tem servido para reforçar a narrativa de poder das famílias fundadoras. A definição de currículos, a orientação de pesquisas e a publicação de livros acadêmicos representam formas sofisticadas de legitimar a posição dessas famílias no sistema jurídico. O conteúdo produzido pela instituição, longe de questionar as práticas de poder, acaba por consolidá-las.
Além disso, o controle da narrativa histórica é outro mecanismo-chave de sobrevivência do ecossistema. A história de corrupção e abuso dos anos 1970, embora ainda documentada, é suavizada e minimizada dentro da comunidade local e acadêmica, enquanto a FADIVA se apresenta como um pilar de ensino e desenvolvimento jurídico respeitável.
Poder Econômico e Corporativo
A diversificação econômica das famílias Bemfica e Acayaba também é um elemento central da perpetuação do ecossistema. Além do patrimônio imobiliário de Varginha, as famílias expandiram seus investimentos para áreas como o agronegócio, mercado financeiro e tecnologia. Este novo direcionamento proporciona uma base econômica sólida, que garante a continuidade do poder e a capacidade de influenciar a política e as decisões públicas.
A interação com o setor corporativo é especialmente significativa, com membros das famílias ocupando posições em conselhos administrativos de empresas que frequentemente negociam com o setor público. Isso cria uma rede de interesses comuns, onde o poder político se mistura com o poder econômico, gerando uma simbiose estratégica que fortalece ambas as esferas.
Conclusão: A Perpetuação do Poder e a Luta Contra a Impunidade
O ecossistema criado por Francisco Vani Bemfica e Morvan Aloysio Acayaba de Rezende continua a ser uma estrutura de poder eficaz e resiliente, capaz de se adaptar às mudanças sociais, políticas e tecnológicas. Ele representa um modelo de captura institucional que transcende gerações e ressurge
com forças renovadas a cada ciclo democrático.
Com a capacidade de adaptar-se e manter suas redes de influência, o ecossistema de poder das famílias Bemfica e Acayaba é um exemplo claro de como estruturas de corrupção histórica podem se perpetuar, adaptando-se aos novos tempos e utilizando novas ferramentas de controle. A luta contra a impunidade, portanto, deve ser uma batalha permanente e sistêmica, não limitada a momentos episódicos de investigação e punição, mas parte de um movimento contínuo em direção à transparência e à justiça.