Compreender a história da personalidade não é meramente um exercício de “voyeurismo” acadêmico ou curiosidade intelectual; é uma necessidade clínica imperativa. Como bem alertou o filósofo George Santayana, “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. No universo da saúde mental, ignorar as raízes dos conceitos que utilizamos hoje nos condena a aplicar rótulos sem profundidade, tratando descrições diagnósticas como etiquetas estáticas em vez de processos dinâmicos. Ao revisitarmos a evolução do pensamento sobre a mente — desde os humores hipocráticos até a precisão estatística do CID-11 — percebemos que a “personalidade” é o solo sobre o qual toda a psicopatologia floresce.
- A Era da Descoberta: O Equilíbrio dos Humores (460 a.C. – 1700 d.C.)
A jornada científica da personalidade tem seu marco inicial em Hipócrates (460 a.C.), que propôs que o corpo humano era regido por quatro substâncias fundamentais ou “humores”. Séculos depois, Galeno de Pérgamo, médico de imperadores romanos, expandiu essa visão biológica para o campo psicológico, criando a primeira classificação sistemática de temperamentos que persistiria por quase dois milênios.
- Eucrasia: O estado de saúde perfeita, definido pelo equilíbrio ideal entre os quatro humores.
- Discrasia: A perda desse balanço (desequilíbrio), que para os antigos explicava tanto a doença física quanto os desvios de personalidade.
Tabela: Os Quatro Humores e Temperamentos de Galeno
Humor (Substância) Elemento/Estação Tipo de Personalidade Manifestação Comportamental Bile Amarela Fogo / Verão Colérico Comportamento agressivo e explosões de raiva. Sangue Ar / Primavera Sanguíneo Personalidade positiva, forte e com grande ímpeto (drive). Fleuma Água / Inverno Fleumático Indivíduos passivos, negativos e emocionalmente distanciados. Bile Negra Terra / Outono Melancólico Descrito posteriormente (Burton, 1621) como calmo, quieto e paciente.*
*Nota Histórica: Embora Galeno tenha definido a base, a descrição específica do melancólico como “paciente e calmo” é uma interpretação refinada por Robert Burton em sua obra de 1621, “A Anatomia da Melancolia”.
Para o aluno de hoje, é vital entender que a saúde era vista como “harmonia” biológica. Esta visão foi o primeiro passo para conectar a observação do comportamento à constituição interna do indivíduo, uma transição que levaria dos fluidos corporais para a descrição detalhada do caráter.
- Os Esboços de Teofrasto: Arquétipos que Atravessam Milênios
Se Galeno focou nos fluidos, Teofrasto, na Grécia Antiga, focou na observação social. Ele formulou uma pergunta que ainda ressoa em nossas salas de aula: “Por que é que, embora toda a Grécia esteja sob o mesmo céu e todos os gregos sejam educados da mesma forma, temos caracteres tão variadamente constituídos?”
Ao observar os tipos que circulavam pelo mercado de Atenas, Teofrasto identificou arquétipos que o clínico moderno reconheceria instantaneamente como antepassados dos transtornos de personalidade:
- O Homem Desconfiado: Aquele que envia um segundo escravo para vigiar o que o primeiro comprou no mercado e conta seu dinheiro a cada duzentos metros. Este é o precursor direto do Transtorno de Personalidade Paranoide.
- O Homem Supersticioso: Alguém que vê presságios divinos em buracos de ratos e busca sacrifícios para cada evento trivial. Suas características remetem ao Transtorno Esquizotípico contemporâneo.
Insight do Professor: Percebam que as fofocas do mercado ateniense de 2.500 anos atrás tratavam das mesmas dinâmicas que hoje discutimos em escritórios ou redes sociais. A natureza humana possui constantes universais. Contudo, se Teofrasto nos deu os arquétipos sociais, a tradição judaico-cristã adicionou a esses tipos um profundo peso moral.
- O “Scoundrel” e o Louco Moral: Antecedentes do Transtorno Antissocial
No Livro de Provérbios (800–500 a.C.), a personalidade é descrita através da dicotomia entre a sabedoria e a “tolice”. O pesquisador George Stein esclarece que a “folice” bíblica não se refere à deficiência intelectual, mas a desvios morais e de caráter.
O exemplo mais contundente é o personagem Belial (ou “Scoundrel”/Patife). Ao analisarmos esse tipo antigo sob a lente da moderna Lista de Verificação de Psicopatia de Hare (PCL-R), a semelhança é assombrosa:
- Mente Pervertida: O Belial planeja o mal sistematicamente, refletindo a disfunção cognitiva do psicopata.
- Semeador de Discórdia: Assim como o psicopata moderno, ele extrai prazer ou vantagem ao destruir a harmonia em famílias e comunidades.
- Mentira Patológica: O texto bíblico enfatiza seu uso da falsidade como arma primordial.
Destaque de Insight: George Stein identificou que 21 dos 22 traços da escala de Hare estão presentes no Livro de Provérbios. O Belial é o exemplo acabado do psicopata agressivo. O único traço ausente é o “estilo de vida parasitário”, simplesmente porque, na antiga Israel, a sobrevivência era tão precária que não havia espaço social para o parasitismo. No século XIX, esses tipos “morais” seriam finalmente integrados à linguagem médica.
- A Personalidade como Substrato (1750–1950)
Nesta era, a personalidade passou a ser vista como o “solo” (substrato) sobre o qual as doenças mentais brotam. Três figuras foram fundamentais para o rigor científico que temos hoje:
- Adolf Meyer: Considerado o pai da psiquiatria americana, ele via a personalidade como a característica mental primária. Meyer foi um inovador pedagógico: ele obrigava seus alunos a entrevistar e avaliar a personalidade de seus próprios colegas para desenvolver o que chamava de “pensamento da pessoa como um todo”.
- David Henderson: Propôs três tipos de psicopatas que dominaram o pensamento clínico: o agressivo, o inadequado (o trapaceiro não violento) e o excêntrico.
- Gordon Allport: Rejeitou as interpretações profundas da psicanálise e o reducionismo do behaviorismo. Ele trouxe o rigor estatístico ao focar na Teoria dos Traços, características mensuráveis e estáveis.
- Reaction Type (Tipo de Reação): Termo de Adolf Meyer para descrever que transtornos mentais não são doenças isoladas, mas reações específicas da estrutura de personalidade de um indivíduo a estresses ambientais.
Analogia Literária: Para ilustrar o desafio de classificar a personalidade, usamos a crítica de George Orwell: os personagens de Charles Dickens são como “móveis” (estáticos e imutáveis), enquanto os de Tolstói são seres que lutam e crescem. A psiquiatria moderna busca uma classificação “tolstoiana”, que reconheça que o ser humano tem plasticidade e capacidade de mudança.
- A Era Moderna: Do “Gremlin” Borderline ao Espectro do CID-11
A partir de 1950, o campo foi dominado pelo Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). Peter Tyrer descreve o TPB como um “gremlin” ou um “inquilino raivoso” no sistema diagnóstico. Ele foi mantido no CID-11 por pressão política e volume de pesquisas, mesmo não se encaixando logicamente no novo modelo dimensional. É um diagnóstico que masquerada outros transtornos e apresenta uma “constância na inconsistência”.
A grande revolução do CID-11 (OMS) é a transição de categorias rígidas para um modelo de Gravidade e Domínios de Traços.
- G-Factor da Personalidade: Refere-se à gravidade global do transtorno. Antes de olhar para o “tipo”, o CID-11 avalia o nível de disfunção (Leve, Moderado ou Grave) no funcionamento do self e nas relações interpessoais.
Os 5 Domínios de Traços do CID-11:
- Afetividade Negativa: Propensão a estados emocionais desagradáveis.
- Distanciamento: Retraimento social e emocional.
- Dissociabilidade: Desprezo pelos outros e egocentrismo.
- Desinibição: Impulsividade e falta de planejamento.
- Anancastia: O oposto da desinibição; foco rígido em padrões de perfeição, controle e regras.
Insight Final: O CID-11 nos ensina que a personalidade é um espectro. Não somos “saudáveis” ou “doentes” de forma absoluta; todos ocupamos um ponto nessas dimensões.
Conclusão: Tecendo os Fios da História
Saímos dos fluidos biológicos da Grécia, passamos pelos julgamentos morais da Bíblia e chegamos às dimensões clínicas de hoje. Essa evolução prova que o transtorno de personalidade não é uma “sentença de prisão perpétua”, mas uma posição em um espectro mutável.
Para combater o estigma, convidamos todos a celebrar o Dia Internacional do Espectro da Personalidade (25 de maio), uma iniciativa liderada pelo grupo de revisão do CID-11. Lembrem-se: estudos de acompanhamento de 30 anos mostram que a personalidade possui uma plasticidade notável. O diagnóstico é apenas uma ferramenta para entender o mapa vasto e dinâmico que é o ser humano.
Este conteúdo foi revisado para manter aderência jurídica e consistência técnica. Para aprofundamento atualizado por tema, consulte os guias pilares abaixo.
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