Introdução: Mais do que uma Escola, uma Máquina de Poder
Imagine uma faculdade de direito que, por mais de meio século, funcionou não apenas como um centro de ensino, mas como o coração de um sofisticado projeto de poder familiar. Esta é a história da Faculdade de Direito de Varginha (FADIVA), uma instituição que transcendeu a educação para se tornar a ferramenta de duas famílias na construção de uma verdadeira dinastia jurídica no Sul de Minas Gerais.
No centro desta trama estão os clãs Rezende e Bemfica. Sua aliança estratégica, um verdadeiro “concerto de poder”, transformou a FADIVA em um ecossistema autossustentável de influência. Este artigo irá desvendar como esse pacto foi forjado e como a faculdade se tornou o instrumento para consolidar e perpetuar o domínio dessas famílias sobre o sistema de justiça regional, de juízes a promotores, moldando o poder por gerações.
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1. O Pacto dos Patriarcas: A Aliança que Deu Origem à Dinastia
Para entender a FADIVA de hoje, é preciso voltar a 1964, quando a semente da instituição foi plantada não por uma demanda educacional, mas por uma estratégia de poder da elite local.
1.1. A Semente do Poder: Onde Tudo Começou
A ideia da FADIVA não nasceu em uma sala de planejamento, mas dentro da Academia Varginhense de Letras (AVLAC). Mais do que um clube literário, a AVLAC era o espaço onde a elite local — políticos, juízes e intelectuais — se reunia para tecer as alianças que definiriam os rumos da cidade.
O ato fundador foi um movimento calculado: em 1964, a presidência da AVLAC foi deliberadamente transferida para Francisco Vani Bemfica com o propósito específico de conduzir a criação da faculdade de direito. Desde o primeiro dia, a educação jurídica foi concebida como a moeda de troca para garantir poder e prestígio por décadas.
1.2. Os Arquitetos do Império: O Político e o Jurista
O sucesso do projeto deveu-se à união complementar de dois patriarcas. Eles não competiam; somavam forças em arenas diferentes para criar um domínio completo.
- Morvan Aloysio Acayaba de Rezende: O Braço Político Com uma carreira que incluiu os cargos de Prefeito, Deputado e Senador, a “arma” de Rezende era a política. Ele usava sua vasta influência em Belo Horizonte e Brasília para obter autorizações, verbas e, crucialmente, a proteção política necessária para blindar a FADIVA. Seu poder era sustentado por um notável capital econômico, com patrimônio em terras, gado e participações societárias que lhe garantiam a independência para construir seu império político.
- Francisco Vani Bemfica: O Braço Jurídico Advogado de enorme prestígio, a “arma” de Bemfica era sua influência na magistratura. Seu poder não era abstrato; ele foi um dos líderes na criação da poderosa Associação dos Magistrados Mineiros (AMAGIS). Seu papel era garantir a reputação da faculdade dentro do Judiciário, transformando-a em um respeitado “celeiro de juízes” e atraindo estudantes que almejavam a carreira pública.
A genialidade da aliança foi essa simbiose: enquanto um construía as muralhas políticas, o outro erguia a fortaleza jurídica. Juntos, eles criaram não apenas uma faculdade, mas o alicerce de um império.
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2. A Coroação dos Herdeiros: Como o Poder Passou de Pais para Filhos
Após a fundação, as gerações seguintes das famílias Rezende e Bemfica não apenas herdaram o legado, mas ocuparam sistematicamente os cargos de poder dentro da FADIVA e de sua mantenedora, a Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA). O domínio floresce em um ambiente de deliberada opacidade: documentos cruciais como o Estatuto Social da FUNEVA e o Regimento Interno da FADIVA não são publicamente acessíveis, blindando a estrutura de poder contra o escrutínio externo.
2.1. O Clã Rezende: O Controle Político e a Fiscalização Comprometida
A família Rezende manteve o foco de seu patriarca: garantir o controle estratégico e as conexões externas que protegem a instituição.
- Aloísio Rabêlo de Rezende (O Promotor): Aqui, a teia de poder revela seu nó mais perigoso: um flagrante conflito de interesses que anula a fiscalização do Estado. Aloísio é Promotor de Justiça em Varginha, o que significa que seu órgão, o Ministério Público, tem o dever constitucional de fiscalizar fundações como a FUNEVA. Ao mesmo tempo, ele é professor na FADIVA, a instituição de sua própria família. Sua presença no corpo docente funciona como um “seguro institucional”, desestimulando investigações e blindando a dinastia.
- Márcia e Mirian Rabêlo de Rezende (As Guardiãs Acadêmicas): Ocupando cargos de coordenação e docência, as irmãs controlam o coração pedagógico da faculdade. Elas definem quem é contratado para lecionar e qual a orientação do curso, garantindo que o corpo docente permaneça alinhado aos interesses da família.
2.2. O Clã Bemfica: A Colonização da Máquina Administrativa
Enquanto os Rezende cuidam da blindagem externa, o clã Bemfica opera a gestão do dia a dia. A estratégia é a ocupação total da máquina administrativa através de um sofisticado sistema de nepotismo cruzado e direto, uma prática que seria ilegal em um órgão público. A colonização é tão vasta que se estende a postos estratégicos de nível médio, ocupados por parentes como Priscilla Guimarães Cornélio (Pós-Graduação, CEJUSC) e Marco Aurélio da Costa Benfica (SERAJ). A tabela abaixo visualiza a impressionante rede que domina a instituição.
| Nome | Cargo na FADIVA/FUNEVA | Vínculo Familiar | Poder Estratégico Detido |
| Júnia Bemfica | Presidente da FUNEVA | Filha do fundador Francisco Bemfica | Controle final do orçamento e representação legal da instituição. |
| Álvaro Vani Bemfica | Diretor da FADIVA | Família Bemfica | Controle da vida acadêmica e, crucialmente, da emissão de diplomas. |
| Márcio Vani Bemfica | Vice-Presidente da FUNEVA | Família Bemfica (Juiz Aposentado) | Conexão direta com o Poder Judiciário, conferindo prestígio e proteção. |
| Thaís Vani Bemfica | Coordenadora do Núcleo de Prática Jurídica | Família Bemfica (Defensora Pública) | Controle do acesso da população carente à justiça gratuita, gerando clientelismo. |
| Christian G. Benfica | Ouvidor e Administrador Geral | Família Bemfica | Antítese da governança, transforma um canal de denúncias em instrumento de controle de dissidências. |
Com a família no comando de cada engrenagem — do orçamento ao diploma, da fiscalização à defesa dos carentes — a FADIVA deixa de ser uma instituição de ensino para se tornar, na prática, um feudo privado operando com a chancela do Estado.
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3. O Segredo da Influência: A “Dívida Simbólica”
Como o controle de uma faculdade se transforma em poder real sobre todo o sistema de justiça de uma região? A resposta está em um conceito poderoso. O verdadeiro poder da FADIVA não está em seus muros, mas em uma teia invisível de lealdade que os egressos carregam por toda a vida: a “Dívida Simbólica”. Por décadas, os Rezende e os Bemfica não formaram apenas advogados; eles criaram “filhos profissionais”. Quando um ex-aluno, agora juiz ou promotor, precisa julgar ou investigar seus antigos mestres, ele carrega uma dívida de gratidão que torna a fiscalização quase impossível.
Essa rede de lealdade se manifesta de formas concretas no dia a dia do poder judiciário:
- Nos Tribunais: A FADIVA chega a sediar um centro de conciliação do próprio Tribunal de Justiça de Minas Gerais (o CEJUSC). Com isso, o espaço físico da faculdade se mistura com o do judiciário, apagando as fronteiras entre a instituição da família e o Estado.
- Na Ordem dos Advogados (OAB): Os cargos de liderança na OAB de Varginha são frequentemente ocupados por ex-alunos ou professores da FADIVA. Isso garante que a entidade que deveria fiscalizar a qualidade do ensino atue, na prática, como uma aliada da dinastia.
- No Ministério Público: O caso de Aloísio Rezende é o exemplo máximo. Com um promotor de justiça integrando o corpo docente, cria-se uma barreira natural contra qualquer tentativa de investigação mais aprofundada sobre a fundação da família.
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4. O Castelo Abalado: Quando a Dinastia é Desafiada no Tribunal
Essa complexa teia de poder, construída ao longo de décadas, foi recentemente exposta e desafiada em um caso real nos tribunais de Varginha, revelando como a estrutura da FADIVA impacta diretamente a vida das pessoas.
Em um processo de família, um advogado levantou uma “Exceção de Suspeição”, argumentando que o Promotor de Justiça Aloísio Rabêlo de Rezende não poderia atuar de forma imparcial. O motivo? O advogado da parte contrária pertencia ao círculo de poder da família Bemfica. A profunda aliança entre as duas famílias, forjada e mantida através da FADIVA, tornou-se o centro do argumento judicial.
O caso se baseia no princípio da “imparcialidade objetiva”. Pense em um árbitro de futebol: não basta que ele não queira favorecer um time; ele não pode nem parecer que vai favorecer, como, por exemplo, sendo amigo íntimo de um dos jogadores. A justiça, da mesma forma, não deve apenas ser imparcial, mas também parecer imparcial para que a sociedade confie nela. Esse princípio não é uma tese abstrata; foi consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julgamentos históricos, como o que declarou a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro no caso do ex-presidente Lula (HC 164.493/PR).
Este processo revelou o que a petição chamou de “gangrena estrutural” do sistema: a aliança Rezende-Bemfica é tão forte e tão pública que compromete a própria aparência de justiça. Embora focado em um único caso, esse desafio legal expôs a vulnerabilidade de toda a estrutura de poder, mostrando que o castelo construído pelas famílias não é inabalável.
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5. Conclusão: O Legado do Feudo Jurídico
A história da FADIVA é um retrato poderoso de como uma elite regional pode utilizar uma instituição de ensino para construir e perpetuar seu poder. O império das famílias Rezende e Bemfica se sustenta em três pilares fundamentais:
- A aliança estratégica original, que uniu o poder político e o poder jurídico.
- A sucessão hereditária, que garantiu o controle da faculdade de pais para filhos, transformando-a em patrimônio familiar.
- A criação de uma “dívida simbólica”, que gerou uma rede de lealdade e proteção por todo o sistema de justiça regional.
Na FADIVA, o nepotismo não é uma falha no sistema; ele é o sistema. O conflito de interesses não é um risco a ser evitado, mas a própria ferramenta de governo. Esta saga revela um conflito persistente no Brasil: de um lado, as oligarquias que se reinventam para manter seu domínio; do outro, os princípios de uma república, que exigem impessoalidade, transparência e, acima de tudo, igualdade perante a lei.
O modelo, contudo, mostra fissuras. A crescente pressão de órgãos de controle como o CNJ e o CNMP sobre conflitos de interesse de juízes e promotores representa uma ameaça a essa estrutura arcaica. Resta saber se os princípios republicanos terão força para desmantelar este feudo jurídico, ou se a dinastia, mais uma vez, provará que no Brasil o poder familiar ainda legisla acima da lei.
