Introdução — As Capitanias Hereditárias Nunca Morreram
No interior de Minas Gerais, na pequena e emblemática cidade de Varginha, onde o mistério dos discos voadores se mistura ao coração da economia cafeeira, existe uma estrutura de poder que vai muito além dos relatos sobre fenômenos extraterrestres. O que realmente permanece invisível, mas palpável, é a sólida e quase intocável rede oligárquica que domina a cidade há gerações. A estrutura de controle que se mantém em funcionamento há décadas está relacionada a uma dinastia que, com maestria, soube transformar o aparato judicial e as instituições locais em ferramentas perenes de dominação política, social e econômica. Em Varginha, o poder não se alterna; ele é herdado e perpetuado, como em um feudo medieval, onde as leis e as instituições são subjugadas ao controle de uma única família.
A família Vani Bemfica, detentora de uma influência descomunal sobre a cidade, ilustra como os mecanismos de poder se perpetuam ao longo dos tempos, adaptando-se às circunstâncias, mas jamais deixando de controlar as estruturas mais sensíveis da cidade. Da magistratura ao ensino jurídico, do controle acadêmico às fundações “sem fins lucrativos”, tudo parece estar orquestrado de forma que o público e o privado se confundem, como se tudo pertencesse a um único território, a um único grupo de poder.
Este relatório, que se baseia na análise de documentos secretos da Ditadura Militar, processos judiciais, registros administrativos e outras fontes confidenciais, visa não apenas traçar uma biografia do clã, mas investigar a profundidade de uma estrutura que, mesmo após a transição para a democracia, se manteve intocada e imune às mudanças que afetaram o Brasil. A história aqui revelada é a de um poder que se adapta, se renova e se perpetua, tornando-se cada vez mais difícil de ser combatido. Varginha, com sua aparência tranquila, oculta um sistema de dominação tão bem construído que seus tentáculos continuam a influenciar as mais diversas áreas da vida local.
A principal tese deste estudo é a de uma simbiose institucional: a família Vani Bemfica não apenas ocupou cargos de poder, mas fundiu sua estrutura familiar à própria estrutura do Estado local, especialmente no campo jurídico. Com isso, garantiu uma relação imbricada entre as instituições de justiça, os interesses privados e a política, criando um feudo moderno que transcende as mudanças de regime político e se adapta às exigências de cada época. Do patriarca Francisco Vani Bemfica, juiz com estreitas relações com o autoritarismo da ditadura, aos seus herdeiros que agora controlam as principais instituições de ensino jurídico da cidade, um padrão contínuo de apropriação de espaços e blindagem institucional se mantém inalterado. Esta é a verdadeira anatomia de um poder que persiste, resiste e se reinventa.
Parte I — A Gênese Histórica e a Sombra da Ditadura (1960–1980)
O que vemos hoje como um império de influência jurídica não nasceu do mérito acadêmico nem de um gesto filantrópico voltado para o bem-estar social. Ele surgiu como fruto de uma acumulação primitiva de poder político, iniciado por meio de manobras em um contexto autoritário, onde a magistratura local funcionava como uma extensão direta do regime militar.
1.1 O Patriarca e o Coronelismo Togado: Francisco Vani Bemfica
O grande responsável por consolidar a influência da família foi Francisco Vani Bemfica, um juiz que soube tirar proveito do regime militar e da estrutura repressiva para fortalecer seu poder na cidade. Segundo documentos confidenciais do Arquivo Nacional, especialmente os relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI), Francisco não era apenas um magistrado; ele era um ator político de peso, com profundo envolvimento na política local e nas relações com o poder econômico.
Chegando a Varginha em 1962, em um movimento articulado com figuras políticas da UDN e da ARENA, Francisco rapidamente se alinhou com os interesses do regime. A relação com o deputado Morvan Aloísio Acayaba de Rezende, chefe regional da ARENA, permitiu-lhe consolidar uma base de poder sólida, envolvendo tanto o aparato judicial quanto as esferas políticas e econômicas da cidade. Nos arquivos do SNI, essa aliança é descrita como uma “estreita amizade, consolidada pelo compadrio e afinidade política”.
Francisco não era apenas um juiz; era um verdadeiro coronel da toga, usando sua posição para proteger aliados, perseguir adversários políticos e interferir diretamente na vida econômica e política de Varginha. Seu gabinete não era apenas um centro de decisões judiciais, mas um ponto de articulação política e econômica. Sua atuação não passava despercebida, e, em muitos casos, ele utilizava os instrumentos do Estado para silenciar seus opositores.
A Imprensa sob Ataque: O Caso “O Jornal de Minas”
Um dos episódios mais emblemáticos dessa era de abuso de poder ocorreu quando o jornalista Afonso Araújo Paulino, editor do O Jornal de Minas, decidiu romper o pacto de silêncio e expor publicamente os abusos de Francisco. O jornal denunciou fraudes em processos de falência, desvio de bens de massa falida e relaxamento de prisões sem justificativas legais, tudo orquestrado pelo juiz. Ao invés de responder com argumentos legais ou apresentar provas contrárias, Francisco usou o aparato repressivo da ditadura para tentar calar o jornalista, acusando-o de subversão. A resposta do regime militar não foi suficiente para silenciar as denúncias, que, ao contrário, foram confirmadas pela Polícia Federal. A investigação até sugeriu a aplicação do AI-5 contra Francisco, demonstrando como ele ultrapassava os limites até para os padrões do regime militar.
Este episódio é um exemplo claro de como o autoritarismo local, na prática, se sobrepunha até mesmo ao controle do regime central, deixando evidente que a corrupção e o uso do poder em benefício próprio não tinham barreiras em Varginha.
1.2 A Canonização do Sobrenome: Mário Vani Bemfica
Enquanto Francisco se envolvia em escândalos e abusos, seu irmão Mário Vani Bemfica se consolidava como a face respeitável da família, assumindo um papel importante tanto no Judiciário quanto na academia jurídica. Mário se tornou um juiz respeitado e, posteriormente, foi homenageado ao ter seu nome vinculado à Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Varginha. Contudo, essa homenagem não é apenas uma formalidade: ela representa um esforço para reescrever a história, transformando a figura de Mário em um ícone da educação cívica e do bom exemplo, apagando os conflitos e a memória dos abusos cometidos pelo patriarca.
Parte II — A Fortaleza Institucional: FADIVA e FUNEVA
A verdadeira manutenção do poder familiar nos tempos contemporâneos, no entanto, não se dá mais pela força da toga, mas pela força da educação e do controle sobre o ensino jurídico. A Faculdade de Direito de Varginha (FADIVA) e sua mantenedora, a FUNEVA, tornaram-se as principais bases do poder da família, criando uma estrutura institucional que permite a continuidade do controle político, social e econômico da cidade.
2.1 A Dinastia Acadêmica
Dentro da FADIVA e da FUNEVA, as posições de poder são ocupadas quase exclusivamente por membros da mesma família. A presidência, a direção acadêmica e os cargos administrativos estão concentrados nas mãos de um pequeno núcleo familiar. Este controle permite que a família Bemfica determine quem entra na instituição, quem leciona, quem administra os recursos e, em última instância, quem se beneficia da carreira jurídica em Varginha.
A Caixa-Preta Financeira
Além do controle sobre as pessoas, o controle da FUNEVA inclui também a gestão opaca dos recursos financeiros. Denúncias sobre a falta de transparência, a ausência de divulgação de balanços financeiros e o silêncio sobre as remunerações dos membros da diretoria indicam que a fundação é usada como uma verdadeira caixa-preta, onde os interesses privados se sobrepõem ao interesse público.
Parte III — A Captura do Sistema de Justiça
O entrelaçamento entre a FADIVA/FUNEVA e o sistema de justiça local é claro quando se observa a relação de promotores e juízes com a instituição. O promotor Aloísio Rabêlo de Rezende, que atua como fiscal da lei na comarca, também é professor remunerado da FADIVA, o que cria um conflito de interesse inaceitável. A falta de imparcialidade do Ministério Público, em um sistema onde o controle de quem entra na profissão e quem ocupa posições de poder é determinado por um único grupo familiar, é um reflexo claro de como o sistema de justiça foi capturado.
Parte IV — O Modus Operandi Contemporâneo
Hoje, o poder da família Vani Bemfica opera de forma mais discreta, mas não menos eficaz. Em vez do confronto direto, a família adota uma estratégia de cooptação, silenciamento e legitimação simbólica. A FADIVA se tornou um campo fértil para a criação de lealdades, onde juízes, promotores e delegados se veem integrados ao mesmo ecossistema institucional. A crítica à fundação é vista como uma ameaça a uma rede de relações profissionais e financeiras que envolve todos esses atores, tornando a crítica praticamente impossível.
Conclusão — O Feudo Moderno
O estudo de Varginha revela um feudo moderno, onde a perpetuação de um poder local se dá não mais por meio de violência explícita, mas por meio da captura de instituições vitais para a sociedade. A família Vani Bemfica se tornou a representação local de uma dinâmica maior que afeta o Brasil: a continuidade das oligarquias, que se adaptam aos novos tempos sem perder suas características de dominação. O poder em Varginha, mais do que uma relação de força, é uma questão de parentesco e controle institucional. Enquanto essa estrutura de dominação não for confrontada e desmantelada, a justiça local continuará a ser uma ferramenta de perpetuação de uma dinastia que se reinventa para garantir que as engrenagens de poder nunca parem de girar.