O Sequestro de uma Cidade: Como a “Dinastia do Crime”

Este não é apenas um relato de desvio de verbas; é a autópsia de um cadáver moral. Documentos exumados do Serviço Nacional de Informações (SNI) e do Ministério da Justiça revelam como o Juiz Francisco Vani Bemfica e o Deputado Morvan Acayaba criaram um “Estado de Exceção” dentro de Minas Gerais, onde a toga servia de capuz para o crime organizado e a educação servia de lavanderia para o roubo.


I. A GÊNESE DO MAL: O “REDUTO INEXPUGNÁVEL”

A corrupção em Varginha não foi um acidente de percurso; foi um projeto arquitetônico. A Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA/FADIVA), criada sob o pretexto nobre do ensino, foi desenhada desde o início para ser o “patrimônio de família” e o “reduto inexpugnável” da oligarquia.

O que deveria ser uma casa de saber tornou-se o cofre privado da “Dupla do Terror”. A blindagem era garantida pelo nepotismo: irmãos e parentes do Juiz controlavam a tesouraria, garantindo que os roubos ficassem “em casa”.

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II. O ESQUEMA FINANCEIRO: A TRIANGULAÇÃO CRIMINOSA

A prova matemática do saque está registrada nos livros de contabilidade que eles tentaram queimar. O modus operandi era o Estelionato Imobiliário.

  • O Roubo da Própria Casa: A FUNEVA comprou um terreno “inalienável” para construir a faculdade.
  • O Golpe: Francisco Vani Bemfica (Presidente da Fundação) vendeu esse mesmo terreno para “laranjas” conhecidos (João Urbano e José Resende) pelo preço de custo (Cr$ 15.000,00), sem alvará e na calada da noite.
  • O Lucro Sujo: Meses depois, Bemfica (agora como Pessoa Física) “recomprou” o terreno dos laranjas por Cr$ 10.000,00 (valor menor do que a fundação pagou) e o revendeu a terceiros com lucro imenso.
  • O Veredito do SNI: Os relatórios de inteligência não usaram eufemismos. A operação foi classificada oficialmente como CRIME DE ESTELIONATO. O Juiz roubou a escola que jurou proteger.

III. A PODRIDÃO MORAL: O ABISMO ÉTICO DA “AUTORIDADE RESPEITADA”

Se a corrupção financeira era grave, a corrupção moral era repugnante. Os arquivos revelam um magistrado que usava o poder do Estado para acobertar a perversão sexual e destruir a dignidade humana. A “autoridade austera” era uma fachada para um predador institucional.

  • Proteção à Pedofilia (Caso “Neném Palmieri”): Em 1973, a polícia desmantelou uma rede de corrupção de menores, prostituição, tráfico de maconha e pederastia (“bacanais”) envolvendo a elite local. O que fez o Juiz? Bemfica mandou arquivar o inquérito sem fundamentação legal, declarando cinicamente que “não houve ato libidinoso”. Ele inutilizou todo o trabalho policial para garantir a impunidade dos predadores sexuais que eram seus “amigos” .
  • A Sentença de Morte (O Aborto): Em um ato de monstruosidade, o Juiz sugeriu à mãe de uma menina de 13 anos, vítima de estupro, que procurasse um médico para fazer um aborto clandestino em vez de processar o estuprador. Ele agiu como conselheiro do crime para evitar escândalos, protegendo o estuprador e condenando a vítima.
  • O Caso da Manicure (Homicídio Ocultado): A morte suspeita de uma manicure em um saveiro de luxo frequentado pelos “filhos do poder” foi tratada com “completa omissão” e “indiferença”. O Juiz foi acusado de receber suborno para abafar o caso, tratando a vida de uma mulher pobre como mercadoria descartável.

IV. O “GLITCH” DO SISTEMA: O FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO (1973)

A queda da máscara começou com a arrogância. Sentindo-se intocável, o Juiz tentou usar a Ditadura Militar como sua jagunça particular.

  • O Ataque: Quando o Jornal de Minas publicou a coluna “Pente Fino” expondo a corrupção, Bemfica enviou radiogramas ao SNI acusando o jornalista Afonso Araújo Paulino de “ânimo subversivo e de alta periculosidade”. Ele queria que o Exército prendesse e torturasse o jornalista sob a falsa acusação de comunismo.
  • O Contra-Ataque: O tiro saiu pela culatra. O SNI investigou a denúncia e descobriu que o jornalista dizia a verdade. O verdadeiro subversivo da ordem pública e moral era o Juiz. Isso desencadeou a “Devassa Federal” que gerou os relatórios citados neste dossiê.

V. O VEREDITO DA HISTÓRIA: A IMPUNIDADE COMO LEGADO

O Ministério da Justiça foi taxativo. O Parecer nº 38/74 declarou Francisco Vani Bemfica “INDIGNO DO CARGO” e recomendou a aplicação da “opção nuclear”: o AI-5 para sua Aposentadoria Compulsória e a Cassação do Mandato de Morvan Acayaba.

Mas a “chocante fragilidade institucional” falou mais alto. O sistema protegeu os seus.

  • O Acordo da Vergonha: O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) falhou em remover o juiz por falta de quórum (o placar foi de 13 a 12 a favor da punição, mas faltou um único voto para os 2/3 necessários) [29][30].
  • O Resultado: Bemfica foi aposentado compulsoriamente em 1977, mas manteve seus vencimentos proporcionais e escapou da prisão. Morvan Acayaba não foi cassado e continuou sua carreira política, chegando ao Senado. O crime compensou.

VI. A METÁSTASE: O CICLO DE 2025 (A CONTINUIDADE)

A ferida nunca fechou porque o tumor não foi removido; foi herdado. A análise conecta os pontos entre 1970 e 2025, provando que Varginha vive sob um regime feudal hereditário.


  • A Dinastia FADIVA: A fundação que foi palco de estelionato nos anos 70 continua sob controle férreo das mesmas famílias. Hoje, Márcio Vani Bemfica (filho do Juiz “indigno”) é o Vice-Presidente e “dono” da estrutura, enquanto Aloísio Rabêlo de Rezende (filho do Deputado Morvan) é Promotor de Justiça e Professor da casa.
  • O Conflito Atual (A Justiça Privatizada): A “sociedade de fato” evoluiu. Agora, ocorre uma aberração jurídica: o Promotor de Justiça (que deveria fiscalizar a lei) recebe salário da fundação controlada pelo Advogado da parte(defesa). E o Juiz atual (Antônio Carlos Parreira), celebrado como “Egresso de Sucesso”, organiza festas com essa oligarquia, validando o sistema em troca de prestígio.
  • O Eco do Passado: O caso recente da criança de 2 anos afastada do pai com base em “ritos secretos” e vazamentos de informações é apenas o eco moderno daquele sistema que arquivava inquéritos de pedofilia. A metodologia mudou (deixou de ser bruta e virou burocrática), mas a finalidade é a mesma: servir aos donos da cidade.

CONCLUSÃO: A “AUTORIDADE AUSTERA” ERA UMA FICÇÃO SANGRENTA

A frase “autoridade austera, educada, respeitada por todos” não era uma descrição da realidade; era o slogan publicitáriode uma organização criminosa que operava sob a toga. Francisco Vani Bemfica dividiu a cidade não por ideologia, mas porque forçou seus cidadãos a escolherem entre a submissão cúmplice e a perseguição implacável.

Os papéis esquecidos provam que Varginha foi vítima de um Sequestro Institucional que dura 60 anos. A justiça não falhou; ela foi capturada. E enquanto a FADIVA celebrar esses homens como heróis em placas de bronze, a ferida continuará aberta, sangrando a democracia local.

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