1.0 Introdução: O Juiz no Centro da Controvérsia
Na década de 1970, a cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais, tornou-se o epicentro de uma controvérsia que abalou as estruturas do poder local e reverberou nas mais altas esferas do judiciário e do governo federal. No centro desta tempestade estava o Juiz de Direito Francisco Vani Bemfica, uma figura que polarizou a opinião pública, acumulando tanto manifestações de apoio da elite local quanto graves acusações de corrupção e abuso de poder. Embora o escândalo tenha ficado conhecido como a “Fraude dos Laudos”, as investigações revelam que a corrupção era sistêmica, transcendendo a mera adulteração de pareceres técnicos para englobar a manipulação processual, o abuso de poder e o conluio político. A análise aprofundada das denúncias é fundamental para compreender não apenas o caso em si, mas também o funcionamento e a integridade das instituições brasileiras durante um período complexo da história nacional.
As acusações ganharam notoriedade por meio de publicações em jornais como “O Jornal de Minas” e “PONTE DA CADEIA”. Em representação movida pelo próprio juiz contra os periódicos, são detalhadas as alegações publicadas na coluna “PENTE FINO”, que pintavam um retrato sombrio de sua conduta. As denúncias eram diretas e contundentes, imputando ao magistrado crimes graves e um enriquecimento incompatível com seus rendimentos.
<strong>"Ao prevaricador Juiz de Direito de Varginha e seus asseclas...."</strong>
A coluna questionava abertamente a origem de seu patrimônio e seu comportamento, utilizando um tom provocador para levantar suspeitas sobre a lisura de suas ações:
<strong>"Porque será que um agiota lhe emprestou dinheiro para compra de uma fazenda, avaliada aproximadamente em mais de 200 mil cruzeiros e cuja escritura foi passada por 50 mil cruzeiros..."</strong>
<strong>"Onde foi iniciada sua fortuna? Terá sido pelo vencimento do cargo de juiz, tão mal remunerado outrora ?"</strong>
Apesar da gravidade das denúncias que emergiam na imprensa, a resposta da comunidade local não foi unânime, revelando um profundo racha na sociedade de Varginha e dando início a uma verdadeira batalha de narrativas.
2.0 A Guerra de Narrativas: Apoio da Elite versus Acusações na Imprensa
O caso do Juiz Bemfica rapidamente transcendeu os autos processuais e se transformou em uma disputa pública de narrativas. De um lado, um jornal de Belo Horizonte, “O Jornal de Minas”, liderava uma campanha agressiva de denúncias. Do outro, a imprensa local, notadamente o “Correio do Sul”, orquestrava uma defesa robusta, amparada por figuras proeminentes da elite política e social de Varginha. Essa polarização não era meramente opinativa; refletia uma luta pela manutenção de uma estrutura de poder na qual o juiz, como protetor de interesses políticos e econômicos locais, era uma peça-chave, tornando sua defesa uma questão de autopreservação para a elite.
A Defesa Institucional
Em resposta aos ataques, o “Correio do Sul” publicou cartas e manifestos de apoio ao juiz, assinados por um grupo expressivo de autoridades e líderes locais. A mobilização em defesa do magistrado incluía:
- O Prefeito Municipal, Aloysio Ribeiro de Almeida, que encabeçou a carta de repúdio.
- Vereadores e líderes da ARENA, o partido do governo, que endossaram a defesa.
- O Presidente da Associação Comercial, Mariano Tarciso Campos.
- O Promotor de Justiça, Eugênio Paiva Ferreira, que descreveu o juiz como uma “autoridade austera, educada, respeitada por todos” e vítima de uma “campanha difamatória”.
Esses defensores argumentavam que as acusações eram infundadas, produto do anonimato e da má-fé de “irresponsáveis varginhenses”, e visavam desmoralizar um magistrado íntegro e um deputado atuante, Morvan Acayaba de Rezende, também alvo das publicações.
O Contra-Ataque do “Jornal de Minas”
Em forte contraste, “O Jornal de Minas” não recuou. Em sua defesa, o periódico afirmou possuir “centenas de documentos” para comprovar as irregularidades e declarou estar encampando “o protesto da boa gente de Varginha gente que estava cansada dos desmandos da dupla do terror”. Para dar uma amostra de suas provas, o jornal publicou um documento que, segundo sua análise, era devastador: a acusação de que o Juiz Bemfica adjudicou para si mesmo um imóvel, a “Fazenda da Barra”, oriundo de um inventário que correu em sua própria Vara. Tal ato, que constituiria uma grave ofensa ao artigo 1.133 do Código Civil, não só violava a letra da lei, mas sinalizava para a comunidade um sentimento de intocabilidade.
Para além da disputa na imprensa, investigações oficiais foram conduzidas para apurar a veracidade dos fatos, analisando casos concretos de suposta fraude e abuso de poder que formavam o cerne das acusações.
3.0 Deconstruindo as Fraudes: Análise de Casos Emblemáticos
As investigações oficiais, conduzidas por órgãos como o Ministério da Justiça, buscaram ir além da guerra de narrativas, aprofundando-se em alegações específicas de má conduta e corrupção. A análise dos relatórios e documentos revela um padrão de comportamento que sustentava as denúncias de fraude e abuso de poder, envolvendo a instrumentalização de instituições e a manipulação de processos judiciais.
3.1. Controle e Abuso na Fundação Educacional de Varginha
Uma das acusações mais proeminentes era a de que o Juiz Bemfica havia se tornado o “verdadeiro dono” da Fundação Educacional de Varginha. Um parecer da Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça o descreveu como “senhor absoluto” da instituição, acusando-o de não admitir interferências e de usar a fundação como um “instrumento de politiquice” para favorecer seu aliado, o Deputado Morvan Acayaba de Rezende, consolidando assim seu poder na região.
3.2. Manipulação de Processos Judiciais
Diversos casos concretos foram citados para ilustrar como o juiz supostamente manipulava a justiça para beneficiar a si mesmo ou a seus protegidos.
- O Caso Servicentro Tigrão Ltda.: O juiz foi acusado de absolver uma “gang” responsável por um grande desfalque na empresa. Segundo as apurações, o esquema contava com a ajuda de uma funcionária do escritório que tinha “cobertura” para adulterar a escrituração diária da firma e encobrir os roubos.
- O Caso do Pedreiro: Em um episódio que demonstrava claro desrespeito aos trâmites legais, o juiz teria mandado arquivar um inquérito contra seu pedreiro por meio de um simples ofício. O despacho continha uma irregularidade adicional: foi datado de 4 de agosto, quando o calendário ainda marcava o mês de julho, contornando os procedimentos formais em um ato de explícito favorecimento pessoal.
- Substituição de Peças Processuais: Uma das imputações mais graves, levantada pela Corregedoria de Justiça do Estado e listada como item 5 em um quadro demonstrativo de irregularidades, foi a de “substituição criminosa de peças em autos judiciais”, um ato que atenta diretamente contra a fé pública e a integridade do sistema judicial.
3.3. Acusações de Enriquecimento Ilícito e Conluio
A relação entre o Juiz Bemfica e o Deputado Morvan Acayaba era descrita como uma “sociedade”. As investigações apontavam que o juiz era o “maior agenciador de causas do deputado-advogado”, exercendo pressão sobre as partes em processos para que outorgassem procurações a Acayaba. As declarações de rendimentos do juiz, anexadas ao processo, tornaram-se peças centrais na narrativa de corrupção. Embora formalmente declarando fontes como salários de magistrado e professor, os documentos revelavam um patrimônio e dívidas — como um empréstimo hipotecário e o financiamento de um apartamento, detalhados na declaração de 1971 — que alimentavam as suspeitas da imprensa sobre um enriquecimento incompatível com as fontes oficiais.
A acumulação de denúncias tão graves e detalhadas elevou o caso do nível local para uma rigorosa investigação federal conduzida pelo Ministério da Justiça.
4.0 A Intervenção Federal e o Julgamento Institucional
A gravidade e a persistência das acusações contra o Juiz Francisco Vani Bemfica levaram o caso a uma sindicância sigilosa e, posteriormente, a uma análise formal pela Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça. O acúmulo de evidências culminou em um Processo de Remoção Compulsória, levando o julgamento de sua conduta ao plenário do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a mais alta corte do estado.
As Conclusões do Ministério da Justiça
O Parecer Nº 130/77, emitido pela Consultoria Jurídica do Ministério, foi demolidor. O documento sintetizou a conduta do magistrado com base nas investigações, descrevendo seu comportamento como “especioso, contraditório, anti-ético, conivente, corrupto e desmoralizado”. Diante da incompatibilidade de Bemfica com as funções da magistratura, o parecerista fez uma recomendação drástica: a proposição de sua aposentadoria compulsória com base no Ato Institucional nº 5 (AI-5). A invocação do mais duro instrumento jurídico do regime militar evidencia a gravidade com que o governo federal enxergava o caso, elevando-o de um escândalo de corrupção local a uma questão de segurança e integridade do Estado.
O Julgamento no Tribunal de Justiça de Minas Gerais
O destino do juiz foi decidido no Processo de Remoção Compulsória nº 17, julgado pelo Tribunal Pleno. O resultado, contudo, foi paradoxal e revelou as profundas divisões dentro do próprio judiciário.
| Votação no Tribunal Pleno | Resultado e Justificativa |
| Pela Remoção: 13 Desembargadores | A remoção compulsória NÃO FOI DECRETADA. |
| Contra a Remoção: 12 Desembargadores | A medida exigia um quórum qualificado de 2/3 dos membros julgadores, o qual não foi atingido. |
A análise do resultado expõe um impasse institucional. Embora a maioria absoluta dos desembargadores presentes tenha votado por sua remoção, a exigência de um quórum qualificado impediu a aplicação da medida disciplinar. O Juiz Bemfica, portanto, permaneceu no cargo. O parecerista do Ministério da Justiça já havia notado essa capacidade de polarização, afirmando que o juiz teve o “inusitado condão de dividir, quase à metade, o categorizado corpo de votantes”.
O desfecho no Tribunal de Justiça, embora legalmente incontestável, deixou uma sensação de incompletude, refletindo as complexidades e as fissuras dentro do próprio sistema encarregado de zelar pela justiça.
5.0 Conclusão: Um Legado de Impunidade e Dúvida
Afinal, como foi a “fraude dos laudos”? A análise dos documentos revela que o escândalo, apesar de seu nome popular, não se resumiu a um ato específico de adulteração de pareceres, mas representou um modus operandi sistêmico de corrupção. A “fraude” foi um padrão de conduta que, segundo as investigações, incluía a manipulação de processos para ganho pessoal, o abuso de poder por meio do controle de instituições locais e a instrumentalização da justiça para favorecer aliados políticos.
O desfecho do caso é tão revelador quanto as próprias acusações. Apesar do peso das evidências, da contundência do parecer do Ministério da Justiça — que recomendou a aplicação do AI-5 —, e do voto majoritário de seus pares pela sua remoção, o sistema judiciário, amparado por suas próprias regras processuais, não conseguiu aplicar uma punição definitiva. O caso não terminou com uma absolvição que atestasse sua inocência, mas com a permanência de um magistrado cuja conduta foi considerada inadequada pela maioria de seus julgadores.
Este resultado deixou um legado de desconfiança e questionamentos sobre a capacidade do poder judiciário de policiar a si mesmo. A história do Juiz Bemfica em Varginha permanece como um estudo de caso sobre a complexa interação entre poder local, influência política e a integridade da justiça, ecoando dúvidas que transcendem seu tempo e geografia.

