1. Introdução: Tensão Sob a Toga nos Anos de Chumb
Nos conturbados anos da ditadura militar brasileira, a cidade de Varginha, no sul de Minas Gerais, foi palco de um episódio que expôs as fissuras do poder local e a intimidação que podia emanar de quem deveria ser o guardião da lei. Entre 1965 e 1971, o município viveu sob a influência de duas figuras centrais: o juiz Francisco Vani Bemfica e o jornalista e diretor do jornal “Correio do Sul”, Mariano Tarciso Campos. Este artigo se aprofunda em uma suposta ameaça de morte feita pelo magistrado contra o jornalista, um incidente grave o suficiente para ser registrado em relatórios confidenciais dos órgãos de segurança da época, revelando um padrão de abuso de poder que assombrava a comarca.
2. A Acusação: “Um Tiro” por Telefone
A acusação central contra o juiz Bemfica foi documentada de forma inequívoca em um informe confidencial do Centro de Informações do Exército (CIE). O relatório, parte de um dossiê sobre as atividades do magistrado, afirma que ele ameaçou diretamente Mariano Tarciso Campos por telefone após a publicação de uma matéria crítica em seu jornal. A ameaça foi registrada com clareza pelos órgãos de inteligência:
“…ameaçou o senhor MARIANO TERCISO CAMPOS pelo telefone, de dar-lhe um tiro, isto porque publicou êle no seu jornal ‘CORREIO DO SUL’ notícia desagradável ao marginado.”
Este incidente foi utilizado nas investigações oficiais como um dos “fatos concretos” que evidenciavam o caráter “prepotente” do juiz, um traço de personalidade que seria corroborado por inúmeras outras denúncias.
3. O Contexto do Magistrado: Um Histórico de Controvérsias
A ameaça ao jornalista não foi um caso isolado. Relatórios de diversos órgãos de segurança pintam um quadro de um magistrado que agia muito além de suas funções, acumulando acusações de corrupção, parcialidade e intimidação, sustentadas por uma aliança política fundamental.
- Enriquecimento e Abuso de Poder: A ascensão do juiz Bemfica foi tão rápida quanto suspeita. Documentos do DOPS/MG registram que ele chegou a Varginha por volta de 1963 pobre, “sem mesmo ter recursos financeiros para sua mudança pessoal, o que foi feito por um caminhão da Prefeitura local.” Anos depois, desfrutava de uma “invejável situação econômico-financeira”, sob acusações de usar o cargo para obter vantagens pessoais.
- Sociedade Controversa: A base de seu poder local foi sua associação com o advogado e deputado estadual Morvan Aloysio Acayaba de Rezende. Não se tratava de uma mera amizade; relatórios da Polícia Federal confirmam que “o Dr. MORVAN foi o Chefe político que levou o Dr. BEMFICA para a Comarca de Varginha”. Com seu patrono político atuando como advogado na cidade, o juiz, segundo as investigações, funcionava como um “verdadeiro aliciador de causas” para seu parceiro, garantindo que este raramente perdesse um caso na comarca.
- Clima de Intimidação: O medo que o juiz impunha à população local foi formalmente registrado em um relatório da Polícia Federal, que, com base em depoimentos, concluiu de forma contundente: “o povo desta cidade tem mêdo do Juiz FRANCISCO VANI BEMFICA”.
4. A Investigação Policial: Confirmação e Reviravolta
Quando a Polícia Federal aprofundou as investigações, em novembro de 1973, convocou o jornalista Mariano Tarciso Campos para depor. Seu testemunho ofereceu um estudo em contradição. Inicialmente, ele confirmou o episódio, relatando que o juiz, irritado com uma matéria, telefonou e disse que resolveria a questão “como homem“, o que o jornalista interpretou como uma clara ameaça de violência. No entanto, no mesmo fôlego, ele recuou, minimizando a gravidade do ocorrido. Explicou que o juiz se desculpou posteriormente, que os dois se tornaram amigos — uma amizade cimentada quando Bemfica interveio a seu pedido em um delicado assunto familiar envolvendo sua filha.
Essa mudança de postura teve um impacto direto na conclusão oficial do caso. Para os investigadores do DOPS/MG, a explicação para o recuo era clara, e a intervenção do juiz no assunto familiar foi vista como a causa direta. O relatório do órgão concluiu que a ameaça “Não se confirmou“, justificando que a não confirmação “deveu-se ao fato” de o juiz ter ajudado o jornalista, que agora se dizia seu amigo e declarava que “não está querendo mais confusão“.
5. Conclusão: Um Retrato do Poder
A história da ameaça ao jornalista Mariano Tarciso Campos é um microcosmo do exercício do poder em uma cidade do interior durante os anos de chumbo. De um lado, há o registro taxativo dos órgãos de inteligência do Exército, que viram no ato um exemplo concreto do comportamento abusivo do juiz. Do outro, há o recuo da vítima anos depois, motivado por uma aparente reconciliação e pelo receio de novos conflitos.
Embora o jornalista tenha oficialmente suavizado sua posição, os relatórios iniciais e a vasta quantidade de outras irregularidades documentadas contra Francisco Vani Bemfica — do enriquecimento ilícito à intimidação sistemática de cidadãos — pintam um retrato convincente de um clima de medo e abuso de autoridade. Em uma era onde a liberdade de imprensa era suprimida e os mecanismos de responsabilização eram enfraquecidos por um regime autoritário nacional, déspotas locais como o juiz Bemfica podiam operar com um sentimento de impunidade, tornando o medo que ele inspirava ainda mais potente. O episódio, independentemente de sua resolução formal, permaneceu nos arquivos da ditadura como um exemplo emblemático do “temperamento prepotente” que marcou a passagem do juiz por Varginha.

