Laços de Família: Quando a Justiça e a Educação Perdem a

Uma História Real sobre Poder, Família e Justiça

Você já pensou no que acontece quando as regras de um jogo importante, como a justiça, são influenciadas por laços de amizade e família? E se a faculdade que forma os juízes e promotores de uma cidade for controlada por uma única rede de famílias, em um verdadeiro caso de captura institucional?

Antes de mergulharmos em uma história real que ilustra esse problema, é crucial entender três conceitos que serão nosso guia.

  • Nepotismo: O ato de usar o poder para favorecer parentes com cargos ou benefícios.
  • Conflito de Interesses: Uma situação em que os interesses pessoais de alguém (como lealdade à família) podem interferir em suas responsabilidades públicas (como ser um juiz justo).
  • Imparcialidade: A qualidade de ser justo e neutro, tomando decisões com base em fatos e leis, sem favoritismo.

Este artigo analisará o caso real da Faculdade de Direito de Varginha (FADIVA) e das famílias fundadoras, Rezende e Bemfica, para ilustrar como esses conceitos funcionam na prática e por que eles são cruciais para uma sociedade justa. Para entender o impacto real desses conceitos, vamos voltar no tempo e conhecer a origem dessa poderosa aliança familiar.

1. A Origem de Tudo: O Pacto Oligárquico que Criou um Feudo Jurídico

A história da FADIVA começa em 1964, não apenas como um projeto educacional, mas como um “pacto oligárquico”— um verdadeiro “concerto de poder” — entre duas figuras poderosas do Sul de Minas Gerais. Sua fundação não foi um ato isolado, mas a criação de um feudo jurídico pensado para garantir o domínio transgeracional.

O Poder Político: Morvan Acayaba de Rezende

Morvan de Rezende era a personificação da força política. Com uma carreira que incluiu mandatos como vereador, prefeito, deputado estadual e Senador da República, ele possuía o capital político necessário para proteger a nova faculdade. Sua influência em Belo Horizonte e Brasília blindava a instituição de pressões externas. Mesmo em idade avançada, manteve o controle do Núcleo de Prática Jurídica (NPJ), que gerenciava a assistência jurídica gratuita para a população carente — uma ferramenta poderosa de clientelismo político local.

O Poder Jurídico: Francisco Vani Bemfica

Enquanto Morvan cuidava da política, Francisco Vani Bemfica trazia o prestígio do mundo jurídico. Como advogado e juiz de grande renome, ele conectou a FADIVA diretamente ao Poder Judiciário. Sua presença na direção da faculdade a transformou em um verdadeiro “celeiro de juízes”, atraindo estudantes que sonhavam com a carreira pública e garantindo que a instituição fosse vista com respeito pelos tribunais.

A genialidade dessa aliança estava em sua simbiose perfeita. Eles não competiam, mas somavam forças em um ecossistema autossustentável: a política protegia o direito, e o direito legitimava a política, com a FADIVA no centro de tudo. Com essa base de poder estabelecida, a gestão da faculdade se tornou um verdadeiro patrimônio familiar, onde os conceitos de nepotismo e conflito de interesses se tornaram visíveis.

2. A Teia de Poder na Prática: Mapeando a Hegemonia Dinástica

O caso da FADIVA é um exemplo claro de hegemonia dinástica, onde os cargos mais importantes da faculdade e de sua mantenedora, a Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA), são ocupados por membros das famílias fundadoras.

A tabela abaixo ilustra a extensão desse controle, mostrando como as posições-chave estão distribuídas entre os descendentes dos patriarcas.

Nome Família Cargo Chave
Júnia Bemfica Guimarães Cornélio Bemfica Presidente da Fundação (FUNEVA)
Álvaro Vani Bemfica Bemfica Diretor da Faculdade (FADIVA)
Márcio Vani Bemfica Bemfica Vice-Presidente da Fundação (FUNEVA) e Juiz Aposentado
Aloísio Rabêlo de Rezende Rezende Professor e Promotor de Justiça
Thaís Vani Bemfica Bemfica Coordenadora Adjunta e Defensora Pública
Christian Garcia Benfica Bemfica Administrador Geral e Ouvidor

Essa estrutura subverte a missão educacional da instituição. O ponto mais alarmante é a nomeação de Christian Garcia Benfica, membro da família controladora, para o cargo de Ouvidor — a pessoa que deveria receber denúncias, inclusive contra a própria diretoria. Quando o fiscal pertence à família fiscalizada, o canal de denúncias se torna um instrumento de controle.

O controle familiar vai além, estendendo-se ao domínio pedagógico, com as herdeiras Márcia e Mirian Rabêlo de Rezende atuando como professoras e coordenadoras, garantindo que o corpo docente permaneça alinhado aos interesses da dinastia. Essa captura institucional é protegida por um véu de opacidade. Documentos cruciais, como o estatuto da FUNEVA, não são públicos, transformando a fundação em uma “caixa-preta”. Essa falta de transparência não é um descuido, mas uma estratégia para “blindar a gestão contra o escrutínio externo”, fazendo do estatuto a “pedra angular ausente da governança”.

Mas essa rede de poder não se limitou aos muros da faculdade; ela se estendeu até o fórum, criando situações ainda mais perigosas para a justiça.

3. Quando a Teia Chega ao Tribunal: O Risco do Conflito de Interesses

A influência da FADIVA se estende para além de seus portões por meio de um fenômeno que podemos chamar de “dívida simbólica”. Juízes, promotores e advogados que se formaram na instituição foram alunos das famílias Rezende e Bemfica. Essa relação cria um laço de lealdade e gratidão que pode ser muito difícil de quebrar, comprometendo a capacidade desses profissionais de agir com total imparcialidade.

Dois exemplos demonstram como esse cenário cria graves conflitos de interesse:

  1. O Promotor que Deveria Fiscalizar a Própria Família O caso de Aloísio Rabêlo de Rezende, filho do fundador Morvan, personifica a “perigosa intersecção entre o fiscalizador e o fiscalizado”. Como Promotor de Justiça, seu dever é fiscalizar fundações como a FUNEVA. Como professor da FADIVA, ele é funcionário da fundação de sua família. É impossível ser, ao mesmo tempo, um fiscal independente e um empregado da entidade que se deve fiscalizar. Essa dupla função anula a capacidade de supervisão do Ministério Público sobre a instituição.
  2. O Juiz com “Dívida de Gratidão” O Juiz Antônio Carlos Parreira é um ex-aluno que manifesta abertamente sua lealdade, afirmando em uma declaração pública: “a FADIVA foi tudo na minha vida”. Sua conexão vai além; ele participa ativamente de eventos da faculdade ao lado dos diretores da família Bemfica, e seu próprio filho também se formou lá, criando um vínculo multigeracional que aprofunda a dívida simbólica. Aqui, entra em cena um conceito fundamental: a “aparência de imparcialidade”. Mesmo que o juiz se esforce para ser justo, sua conexão pública e profunda com a FADIVA cria uma dúvida razoável sobre sua neutralidade. Para que a justiça seja confiável, não basta que ela seja imparcial; ela precisa parecer imparcial. Quando essa aparência é quebrada, a confiança no sistema é abalada.

Esses exemplos mostram que o problema não é apenas teórico; ele tem consequências reais e nos leva a uma pergunta fundamental: por que tudo isso importa para você e para a sociedade?

4. Conclusão: Por Que a Imparcialidade é um Pilar da Democracia

A história da FADIVA nos ensina uma lição poderosa: quando laços familiares e lealdades pessoais se misturam com funções públicas, a imparcialidade desaparece, a justiça fica ameaçada e um verdadeiro feudo jurídico é consolidado.

Um sistema de justiça que não é imparcial deixa de ser confiável. As decisões podem passar a ser baseadas em quem você conhece, e não no que é certo. Isso afeta a todos, mas atinge de forma mais dura as pessoas mais vulneráveis, que dependem de um sistema justo e neutro para proteger seus direitos básicos.

É por isso que a luta por instituições transparentes, com regras claras contra o nepotismo e os conflitos de interesse, é tão importante. A imparcialidade não é apenas uma palavra bonita em um livro de direito; é a garantia de que todos, sem exceção, serão tratados como iguais perante a lei. E essa garantia é um pilar essencial para qualquer sociedade que se pretenda verdadeiramente justa e democrática.

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