Carta para Minha filha, minha própria carne, a batida que mantém o meu

Há nove meses que eu não vivo; eu habito num purgatório de dias cinzentos, apenas subsisto num estado de suspensão agonizante, arrastando-me através de uma sentença de asfixia que parece não ter fim. Nove meses. Para o mundo lá fora, é apenas uma medida de tempo, uma fração do calendário; para uma gestação, é o ciclo completo da criação da vida; mas para um pai brutalmente impedido de tocar a filha de dois anos, é uma eternidade biológica, uma era glacial de silêncio que congela o meu peito e queima a minha alma. Cada segundo longe de ti não passa simplesmente pelo relógio; ele rasga-me por dentro. Cada amanhecer sem a luz do teu sorriso é uma lâmina afiada que corta a nossa história, tentando cirurgicamente separar o que Deus e a natureza uniram de forma indissolúvel.

A minha casa, que antes vibrava com o eco sagrado da tua risada e com o caos doce dos teus brinquedos espalhados, transmutou-se num mausoléu de ausências, num santuário de memórias que me assombram. Cada canto me acusa. O silêncio aqui dentro é ensurdecedor, tem um peso físico, gritando o teu nome em cada cómodo vazio, em cada fresta onde a tua voz deveria estar. O ar pesa nos meus pulmões como chumbo derretido, a comida perdeu o sabor e não me nutre, o sono rejeita-me noite após noite porque a minha paz foi trancada do lado de lá, contigo, refém de uma distância fabricada. Eu caminho por dentro de mim mesmo como quem percorre um labirinto escuro e sem portas, onde cada detalhe insignificante da minha rotina, uma música que toca ao longe, uma criança que passa na rua a segurar a mão do pai, aponta para o mesmo abismo insondável: a crueldade inominável e calculada de terem-te arrancado dos meus braços.

O que me destrói, o que me fere com mais violência do que a própria morte física, é a engenharia perversa, fria e burocrática dessa distância. Não foi o destino, nem o acaso, nem a vontade divina que nos separou; foram homens, foram papéis, foram carimbos e foram mentiras. Corromperam a lógica sagrada da natureza e a própria essência da Justiça para fabricar uma orfandade artificial, tentando reduzir-me à humilhação insuportável de ser um “papai de vídeo”, um “pai de vidro”, uma figura bidimensional. Tentam convencer-me, e pior, tentam convencer-te, de que basta ser um rosto frio num retângulo luminoso, uma imagem pixelizada sem cheiro, sem calor, sem toque, sem batimento cardíaco.

Mas eu recuso essa mutilação com todas as forças que restam na minha alma e com a fúria de quem defende a própria cria. Eu rejeito ser uma imagem na tua tela. Tela não dá colo. Tela não enxuga lágrima quente. Tela não espanta os monstros do escuro. Tela não tem o cheiro de proteção que tu conheces. Paternidade não é virtual, minha filha; paternidade é presença sólida, é o cheiro da pele, é o toque que acalma a febre, é a segurança inabalável da rotina de te colocar para dormir e de estar lá quando abres os olhos. Eu olho para as minhas mãos, estas mãos que foram feitas para te proteger do mundo, para te elevar aos céus e te amparar, e vejo-as trêmulas, vazias, desempregadas da sua única e verdadeira função sagrada: cuidar de ti.

Eu sei que tu sentes. Mesmo sem as palavras dos adultos, no fundo da tua inocência sábia, tu sabes que a ordem natural das coisas foi quebrada. Aos dois anos, a tua dor não tem vocabulário, ela não tem discurso jurídico; ela tem corpo. Ela manifesta-se na pele, no nervo. Ela é o sono quebrado aos gritos no meio da noite, é a febre repentina que nenhum remédio explica porque a causa é a alma, é a irritação sem causa, é o choro sentido, rouco e profundo que brota sem motivo aparente. Mas esse choro tem motivo: é a saudade visceral que a tua boca ainda não sabe articular, mas que a tua biologia grita. Eu sinto a tua falta a virar urgência e doença no teu corpo pequeno, sinto o teu pedido mudo por um pai que o sistema, na sua cegueira, tenta transformar num fantasma, num espectro que visita mas não fica, que aparece mas não toca.

Eles tentam apagar a minha existência da tua memória, tentam reescrever a nossa história como se eu fosse dispensável, como se um pai fosse um acessório. Mas grava isto na tua alma, como uma verdade inviolável, eterna e indestrutível, para leres hoje e para releres quando fores uma mulher adulta e livre: O Papai não te esqueceu. O Papai nunca, nem por um segundo, desistiu de ti. O Papai foi barrado.

Existe uma guerra lá fora, uma batalha de trincheiras invisíveis e muros de papel montada especificamente para te afastar de mim, para fazer com que esqueças o som da minha voz e a segurança do meu abraço. Mas o meu amor por ti é a fortaleza que eles jamais conseguirão derrubar. Não importa o tamanho das muralhas, a altura dos muros, a distância geográfica ou a frieza das leis que tentam impor este exílio forçado; o meu amor é a trincheira que eles não passam. O meu sangue corre nas tuas veias, e não há liminar no mundo que possa revogar a nossa ligação.

Não vou permitir que construam a tua personalidade sobre o vazio da minha ausência. Não vou permitir que te convençam de que sou uma sombra digital ou uma memória distante que desvaneceu. Eu vou atravessar o inferno se for preciso. Eu vou mover o céu e a terra, vou enfrentar tribunais, injustiças, calúnias e o tempo. Vou derrubar cada tijolo desse muro de silêncio e romper qualquer bloqueio, custe o que custar, doa a quem doer, leve o tempo que levar, até voltar a ser carne, osso, abraço, constância e verdade absoluta na tua vida.

Eu não serei o teu passado. Eu não sou uma foto estática na estante. Eu sou o teu futuro. Eu sou o teu pai. E este é um vínculo de sangue, espírito e lei natural que nenhuma mentira processual e nenhuma decisão humana tem o poder de revogar, suspender ou apagar.

Eu estou a lutar por ti a cada respiração, a cada batida do meu coração. Eu estou a chegar. Nada me vai parar.

Espera por mim.

Do teu pai, que te ama mais do que a própria vida e que viverá para te reencontrar,

Thomaz Franzese

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