Carta para minha pequena Filha, Meu amor

Há sete meses, a vida de papai virou uma ferida aberta — dessas que não cicatrizam porque são reabertas a cada manhã, no exato instante em que eu lembro, de novo, que não posso te pegar no colo. É uma dor grande demais para caber dentro de um único ser humano. Uma dor que ninguém deveria conhecer, porque ela não dói “só” no coração: ela dói no corpo, na pele, no sono, no ar. Ela vira um peso permanente, como se eu carregasse uma ausência viva dentro do peito.

E essa ferida não se limita ao meu peito. É uma dor que anda em dois corpos ao mesmo tempo. Eu não consigo pensar em mim sem pensar na minha pequena filha, porque cada ausência que me atravessa é uma ausência que atravessa você também — mesmo que você ainda não tenha palavras para chamar isso de saudade. A minha dor não é possessão: é espelho. Onde dói em mim, dói em você. Onde eu sangro, você sente o frio do espaço vazio. E isso me destrói por dentro, porque pai não foi feito para amar de longe; pai foi feito para proteger com presença, para acalmar com toque, para dar segurança com colo.

Está difícil comer. Está difícil levantar. Já não caminho como homem inteiro: eu caminho como instinto de pai carregando um corpo cansado, arrastando os próprios dias, lutando contra uma ausência que eu nunca pedi. Tiraram de mim a coisa mais simples do mundo — o direito de estar ao seu lado — e transformaram meu amor numa tentativa, num pedido, num “talvez”, numa espera. Meu abraço foi arrancado. Meu colo virou proibido. E eu fui transformado em tela, em presença de vidro, em voz tentando atravessar um mundo digital para alcançar uma criança pequena que só queria colo.

Quando consigo falar por vídeo, às vezes, eu vejo você olhando para o lado… e então acontece aquilo que me rasga em silêncio: minha pequena filha bate a mãozinha na cadeira ao lado.

Toc.rnToc.rnToc.

Uma batidinha pedindo para alguém sentar ali. Uma batidinha chamando um corpo que não está. Uma batidinha procurando o lugar de papai. E eu fico preso do outro lado, assistindo, impotente, com o coração esmagado, porque essa cena é mais do que tristeza: é uma criança pedindo com o corpo aquilo que o mundo está negando a ela.

E eu digo com toda a força da minha alma: quem realmente teme a Deus não separa pai e filha. Porque a fé que afasta não é fé — é covardia. A fé que usa o poder para cortar um vínculo sagrado não é luz: é sombra.

Parem.rnParem com a covardia. Parem com esse espetáculo que alimenta dor. Parem com essa violência silenciosa que não deixa marca no rosto, mas deixa marca na vida.

Ninguém tem o direito de arrancar uma filha do pai. Ninguém tem o direito de me deixar dias sem qualquer notícia, me afogando na angústia, sem saber se aconteceu algo com a minha pequena filha, sem saber se você está bem, se dormiu, se chorou, se ficou doente, se sentiu medo. Essa ausência de notícia é uma tortura limpa, sem sangue, mas com devastação. E eu não aceito que normalizem isso como se fosse “procedimento”. Não é procedimento. É desumanidade.

E eu alerto: cuidado. Há um tumor maligno travestido de advogado, Bemfica, que está prejudicando não só a minha pequena filha, mas também a própria mamãe. Isso não é proteção — isso é veneno. Isso não constrói paz — isso fabrica ruína.

Eu tenho fatos novos para juntar ao processo. E eu não junto, não porque eu não possa, não porque eu não tenha direito, mas porque eu temo piorar a situação em que a própria mamãe se colocou. E isso me machuca de um jeito que não cabe em frase. Porque eu não sei ser covarde. Minha vida sempre foi ajudar, proteger, segurar o peso quando o outro não aguenta. E agora, mesmo ferido, eu escolho preservar quem me destruiu — e isso é um tipo de dor que não aparece por fora, mas que me apaga por dentro.

Isso mostra a distância inteira entre caráter e covardia.

E quando ela bate a mãozinha…

Toc, toc, toc…

É como se o próprio céu estremecesse. Como se Deus ouvisse a linguagem que criança fala sem palavras: a linguagem do pedido. A linguagem da falta. A linguagem do amor que procura.

Eu afirmo: eu sei que Deus não ignora os pedidos de uma criança. Eu sei que Deus não fecha os olhos para um pai que ama com verdade. E eu sei que, mesmo quando tentam me reduzir a silêncio, eu continuo sendo papai — inteiro no amor, mesmo quebrado por dentro.

Eu amo minha pequena filha.rnEu amo você com uma força que dói.rnE essa saudade… essa saudade é um grito sem fim.

Saudades, minha pequena filha. Saudades.rn

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