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Carta para minha pequena Filha

Santos, 17 de junho de 2025

Minha pequena filha,

Hoje papai escreve com a alma em frangalhos. Não é um texto: é um pedaço de mim sangrando no papel. A sua ausência não é “saudade” — é uma falta que rasga, uma dor que acorda antes de mim e dorme depois, uma pressão no peito como se o ar tivesse aprendido a me negar passagem desde o dia em que fiquei longe de você.

Eu olho para o mundo e ele parece errado. Tudo segue, tudo anda, tudo ri… e eu fico preso no mesmo ponto: o lugar exato onde sua risada morava. É ali que o silêncio grita. É ali que eu me desmancho. Porque estar longe de você é como carregar, dia após dia, um coração que quer correr até você, mas não pode.

E mesmo assim… mesmo esmagado, mesmo em ruína, papai só tem uma coisa inteira aqui dentro: amor por você. Um amor tão grande que dói. Um amor que não se explica, só se sente — como se cada batida do meu peito chamasse o seu nome, mesmo quando eu tento ficar em silêncio para não chorar mais uma vez.

Eu sei que existiram feridas. Eu sei que houve palavras, atitudes, momentos em que os adultos se perderam. E se em algum ponto do caminho papai falhou, se eu causei mágoas, se deixei marcas onde eu deveria ter colocado cuidado… eu digo com toda a verdade que ainda me resta: eu me arrependo. Arrependo-me com uma dor que não cabe em mim, porque a consequência mais cruel de qualquer erro é essa distância — e essa distância mata um pedacinho de mim todos os dias.

Por isso, esta carta é um pedido que vem do fundo do poço da minha alma: para que o perdão da sua mamãe aconteça. Não como vitória de alguém — mas como ponte. Como a única luz capaz de romper essa noite longa que nos engoliu. Eu não peço por orgulho, eu peço por sobrevivência. Eu peço porque eu não aguento mais ver a vida passar sem poder estar perto de você, sem poder ser o pai presente que eu sonho ser, sem poder te proteger com o abraço que eu guardo para quando esse dia chegar.

Minha pequena filha, eu queria que você soubesse, com todas as letras, com toda a força do universo: papai não desistiu de você. Papai não “segue em frente” como se isso fosse possível. Papai segue em pé, por dentro quebrado, mas de pé, porque amar você me obriga a continuar respirando mesmo quando respirar machuca.

Não há trégua. Não há alívio. Há noites em que eu fecho os olhos e sinto como se cada lembrança sua fosse uma lâmina girando devagar no meu peito: a sua voz, o seu cheirinho, o calor do seu corpinho, a sua mãozinha… e eu fico ali, impotente, perguntando a Deus por que o amor de um pai pode doer tanto.

Se esta carta chegar a quem precisa, que chegue carregada não de acusação, mas de humanidade. Que ela encontre um coração capaz de sentir — nem que seja por um segundo — que aqui existe um pai que reconhece as próprias falhas, que quer paz, que quer respeito, que quer cooperação, que quer cura. Tudo por você. Porque você merece crescer com segurança, com ternura, com harmonia. Você merece um mundo onde os adultos não transformem a dor em guerra, e sim em reconstrução.

Minha pequena filha, você é a única chama que não se apaga dentro de mim. E por você eu faço uma promessa silenciosa: vou continuar lutando, não com ódio, não com gritos, mas com dignidade — com amor firme, com paciência, com fé. Vou continuar sendo digno de você, mesmo quando eu estiver exausto, mesmo quando eu estiver desmoronando.

Que Cristo derrame misericórdia onde hoje existe ferida. Que toque o coração da sua mamãe com compaixão, e que o perdão — esse milagre difícil — possa nascer. Não por mim apenas. Por você. Pela sua infância. Pela sua paz. Pelo direito de uma criança de ter amor ao redor, e não silêncio.

E quando esse dia chegar… quando eu puder te olhar nos olhos e te ter perto de novo… eu quero que você sinta, sem precisar entender nada dos adultos: que papai sempre esteve aqui. Que papai chorou, sim — porque amar você é maior do que qualquer orgulho — mas que papai nunca soltou sua mão por dentro.

Com tudo o que ainda resta de mim,rncom toda a dor que virou amor,rne com todo amor que nunca deixou de existir,

Beijos,rnSeu Papai

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