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O JUIZ BEMFICA, O MANUAL E O CRIME: Como o autor de um "Curso de Direito Penal" criou um feudo de corrupção em Varginha

O JUIZ, O MANUAL E O CRIME: Como o autor de um “Curso de Direito Penal” criou um feudo de corrupção em Varginha

Exclusivo: Arquivos da Ditadura revelam a ironia suprema de Francisco Vani Bemfica. Enquanto escrevia tratados sobre ética e lei, o magistrado liderava, ao lado do deputado Morvan Acayaba, um esquema de fraudes e perseguição política que chocou o Ministério da Justiça.

Varginha, anos 70. Na estante das livrarias jurídicas, o livro “Curso de Direito Penal”, de autoria do respeitado Juiz de Direito Francisco Vani Bemfica, ensinava estudantes sobre a moralidade pública e o “direito de punir do Estado”. Mas, a poucos metros dali, no Fórum da Comarca, o mesmo autor rasgava as páginas que escrevia.

Um dossiê explosivo, compilado a partir de investigações do SNI (Serviço Nacional de Informações) e da Polícia Federal, expõe a face oculta do magistrado. Ao lado do Deputado Estadual Morvan Aloysio Acayaba de Rezende, Bemfica não apenas interpretava a lei — ele a subvertia para enriquecimento próprio.

Esta é a história de como a teoria jurídica perfeita serviu de fachada para a prática criminosa perfeita.

I. A Teoria do Crime vs. A Prática do Delito

A contradição é gritante. Em sua obra acadêmica, Bemfica defendia que “a sociedade está sem defesa contra a corrupção” e que o funcionário público que abusa do poder deve perder o cargo.

Na vida real, segundo o Parecer nº 38/74 do Ministério da Justiça, ele encarnava exatamente o oposto:

O Teórico: Defendia o princípio da legalidade e a moralidade administrativa.rn O Prático: Foi acusado de enriquecimento ilícito, fraude imobiliária e de transformar a FADIVA/FUNEVA (Fundação Educacional de Varginha) em um “patrimônio de família”.

Relatórios de inteligência descrevem Bemfica como “narcisista e politiqueiro”, alguém que chegou à cidade “pobre” e acumulou uma “invejável situação econômico-financeira” incompatível com seu salário.

II. A “Dupla do Terror”: O Eixo Bemfica-Acayaba

A captura do estado em Varginha tinha nome e sobrenome. A aliança entre o Juiz Bemfica e o Deputado Morvan Acayaba criou o que a imprensa local — notadamente o “Jornal de Minas” — chamou de “Dupla do Terror”.

O esquema era simples:

1. O Balcão de Negócios: O juiz atuava como “agenciador” de causas para o escritório do deputado. Quem contratava Acayaba tinha trânsito livre; quem não contratava, enfrentava a “demora liberada” dos processos.rn2. A Intimidação: Advogados e cidadãos viviam sob um clima de medo. Processos de opositores eram paralisados (mais de 100 casos no Cartório do Crime), enquanto inquéritos sensíveis, como o assassinato de uma manicure, eram arquivados para proteger a elite local.

O Caso da “Festa de Embalo”

Em um episódio que desafia qualquer manual de Direito Penal, Bemfica arquivou um inquérito policial sobre uma festa com menores, álcool e drogas. Enquanto a polícia via corrupção de menores, o juiz decidiu que “não houve ato libidinoso”. A lei foi dobrada para proteger os amigos do poder.

III. O Grande Golpe Imobiliário: Estelionato na Fundação

Se no tribunal a moeda era a influência, na Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA) a moeda era terra.

Documentos da investigação federal detalham um esquema de estelionato clássico. Como presidente da Fundação, Bemfica vendeu um terreno da entidade (que era inalienável) para “laranjas” por um preço baixo. Meses depois, recomprou o mesmo terreno em seu nome pessoal por um valor ainda menor.

A Violação: A transação ignorou o estatuto da fundação, não teve autorização judicial e não ouviu o Ministério Público.rn O Resultado: O juiz usou a instituição de ensino para lavar dinheiro e aumentar seu patrimônio pessoal.

IV. A Batalha de Narrativas: “Honra” vs. “Banditismo”

O caso dividiu Varginha. De um lado, a imprensa independente denunciava a “bandalheira” e o “cancro social”. Do outro, a elite política fechava fileiras em defesa dos acusados.

Manifestos assinados por prefeitos, vereadores da ARENA e até promotores atestavam a “conduta moral inatacável” da dupla. O corporativismo local tentou blindar o juiz, criando uma realidade paralela onde os criminosos eram “cidadãos probos” e os denunciantes eram “subversivos”.

Mas o governo federal não comprou a versão oficial.

V. O Veredito da História: “Indigno do Cargo”

O castelo de cartas ruiu quando o Ministério da Justiça entrou em cena. O Parecer nº 38/74 foi uma sentença moral definitiva.

Ao analisar as provas do DPF e do Exército, a consultoria jurídica do governo foi taxativa: Francisco Vani Bemfica era “indigno do cargo que ocupa”. A recomendação foi a aplicação do instrumento mais severo da ditadura, o AI-5, para aposentar o juiz compulsoriamente e cassar o deputado.

A ironia final? A mesma ditadura que suspendeu direitos civis precisou intervir para parar um juiz que usava o Estado de Direito como arma contra a sociedade.

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