Análise da Derrota Eleitoral da ARENA em Minas Gerais – Eleições para o Senado de 1974

1.0 Cenário Político e Contexto Geral

As eleições de 1974 em Minas Gerais representaram um momento crítico para a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), culminando em uma derrota significativa na disputa pela cadeira do Senado Federal. Este relatório apresenta uma análise aprofundada dos fatores que levaram ao insucesso do candidato governista, JOSÉ AUGUSTO FERREIRA FILHO. A tese central que emerge dos dados disponíveis é que a derrota foi precipitada, fundamentalmente, por uma profunda e preexistente desunião interna do partido, uma fragilidade estrutural que se provou mais decisiva do que a força isolada da oposição.

A ARENA em Minas Gerais nunca se consolidou como uma agremiação política coesa. Em vez disso, funcionava como um conglomerado de forças políticas remanescentes dos partidos extintos pelo Ato Institucional nº 2, notadamente o Partido Social Democrático (PSD), a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Republicano (PR). Essa fragmentação resultou em uma liderança meramente formal, incapaz de unificar grupos que se digladiavam constantemente por influência, postos e favores.

Em nítido contraste, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) apresentava-se como um partido mais unido em torno de suas lideranças e metas programáticas. A disciplina e coesão do MDB foram demonstradas de forma contundente quando sua pequena bancada de apenas 12 deputados na Assembleia Legislativa conseguiu obstruir os trabalhos legislativos por cinco meses, evidenciando uma capacidade de ação unificada que faltava por completo à ARENA.

Este cenário de um partido governista fragmentado e uma oposição disciplinada preparou o terreno para o colapso eleitoral de 1974. A análise a seguir detalha as divisões estruturais da ARENA, que formam a base para entender a derrota que se seguiu.

2.0 A Desunião Estratural da ARENA-MG: Antecedentes da Derrota

A derrota de 1974 não foi um evento isolado, mas o culminar de uma longa e documentada história de disputas internas na ARENA mineira. O partido, desde sua criação, “tem sido uma arena de lutas, onde foram jogados, sem direção, contendores de diversas ideologias políticas”. Essa desagregação, longe de ser um mero debate de ideias, manifestava-se de forma explícita na dinâmica política cotidiana.

A divisão era visível e física na Assembleia Legislativa. Os deputados estaduais da ARENA não se sentavam como um bloco unificado, mas agrupados conforme suas afiliações partidárias de origem, formando as “alas” udenista, pessedista e perrista. De forma ainda mais simbólica, os antigos partidos extintos ainda mantinham salas de reunião formais dentro do prédio da Assembleia, perpetuando as velhas lealdades em detrimento da nova identidade partidária.

A fragilidade da liderança partidária e a indisciplina crônica foram comprovadas em sucessivas votações secretas, onde dissidências internas quase impuseram reveses ao Poder Executivo. Os seguintes episódios são emblemáticos:

  • Candidatura de SYLVIO MOTTA: Membro da “ala rebelde” da ARENA, Motta lançou sua candidatura à presidência da Assembleia com o objetivo explícito de “hostilizar o Governador”. Na votação, obteve 15 votos, com 9 votos em branco. Mesmo considerando um hipotético apoio integral do MDB, a matemática indica que pelo menos 12 deputados arenistas não seguiram a indicação oficial do governo.
  • Votação para a Prefeitura de CATAGUASES: Em uma votação secreta para a indicação do prefeito da estância hidromineral, e apesar dos insistentes apelos do líder da ARENA, o resultado foi um empate de 28 votos a favor e 28 contra, com um voto em branco, demonstrando uma divisão exata dentro da base governista.
  • Votação para o Tribunal de Contas: A indicação de um auditor para o Tribunal de Contas enfrentou 17 votos contrários, um número significativamente superior à bancada de oposição, evidenciando mais uma vez a rebeldia interna.

Conforme registrado em informe anterior (nº 209/ABH/73), essa dissidência era sintoma de uma “insatisfação da classe política, julgando-se marginalizada, num governo que optou pelo critério técnico de administrar”. Esse cenário de instabilidade crônica foi o campo fértil onde as sementes da derrota de 1974 foram plantadas, sendo exacerbado pelo conturbado processo de escolha dos candidatos para o governo e o senado naquele ano.

3.0 Fatores Críticos na Campanha de 1974

As fissuras estruturais da ARENA agravaram-se e tornaram-se decisivas durante a campanha eleitoral de 1974. A combinação de um processo de indicação de candidatos que aprofundou as cisões, as fragilidades do candidato escolhido e uma campanha desarticulada contribuíram diretamente para o resultado adverso.

3.1 O Processo de Indicação e o Aprofundamento das Cisões

A escolha do Deputado Federal AURELIANO CHAVES para Governador foi o primeiro catalisador do descontentamento. Por não ser o preferido de nenhum dos grupos dominantes, sua indicação gerou um profundo “ressentimento na classe política”, que se sentiu preterida. A disputa interna pelas indicações pode ser resumida na tabela abaixo:

Facção PartidáriaCandidatos Preteridos
UDN (Ala Magalhães Pinto)JOSÉ MONTEIRO DE CASTRO
UDN (Ala Rondon Pacheco)OSWALDO PIERUCCETTI
PSDCRISPIM JACQUES BIAFORTES
PRELISEU RESENDE ou AÉCIO CUNHA

Consumada a indicação de Aureliano Chaves, a disputa pela vaga no Senado reabriu as mesmas feridas. A UDN defendia o nome de JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA, enquanto o PR apoiava o ex-senador ARTHUR BERNARDES. A indicação final de JOSÉ AUGUSTO FERREIRA FILHO, um ex-militante do PSD, foi a gota d’água para os demais grupos, que se sentiram no direito de “mostrarem insatisfação”. Este cenário confirmou o alerta emitido por esta agência em julho de 1974, que previa o risco de derrota caso o candidato da ARENA não contasse com o apoio integral do partido.

3.2 Análise do Candidato e da Campanha da ARENA

As qualidades pessoais e a estratégia de campanha de JOSÉ AUGUSTO FERREIRA FILHO também se mostraram inadequadas para o cenário polarizado de 1974. As seguintes fragilidades foram determinantes:

  • Oratória: Não era considerado um bom orador, limitando sua capacidade de mobilização.
  • Reconhecimento: Era quase desconhecido do eleitorado jovem, um segmento crescente e importante.
  • Estratégia: Estava excessivamente confiante na “máquina da ARENA” e, por isso, conduziu uma campanha “muito tímida”.
  • Posicionamento Político: Suas declarações favoráveis ao AI-5 e ao Decreto-Lei 477 foram amplamente exploradas pela oposição, alienando eleitores moderados.

Um incidente ocorrido em 09 de novembro de 1974 agravou a imagem do candidato. Durante a propaganda eleitoral na TV, o candidato do MDB, ITAMAR FRANCO, invadiu o estúdio. Na confusão que se seguiu, JOSÉ AUGUSTO foi fotografado armado com um “pedaço de pau”. A imagem foi um trunfo para a oposição, que imediatamente passou a veicular o slogan “a ARENA deseja o diálogo do porrete”, uma mensagem poderosa que certamente influenciou os eleitores indecisos.

A campanha da ARENA, em geral, foi marcada pela desarticulação. Enquanto os candidatos do MDB agiam como “verdadeiros propagandistas de ITAMAR FRANCO”, colocando a eleição majoritária como “ponto de honra do Partido”, os candidatos da ARENA, com raras exceções, focaram em suas promoções pessoais. O comportamento foi descrito por um político da época como “um verdadeiro salve-se quem puder”, no qual a candidatura ao Senado foi abandonada em prol da sobrevivência política individual. Essa campanha fragmentada reflete diretamente a conduta das lideranças do partido, cuja lealdade se mostrou questionável.

4.0 Avaliação da Conduta e Lealdade das Lideranças da ARENA

Para compreender a magnitude do colapso da ARENA, é crucial avaliar a conduta individual de suas principais lideranças. A análise aponta para um padrão de omissão deliberada e, em alguns casos, de infidelidade partidária ativa, que contribuiu decisivamente para a derrota na eleição majoritária.

4.1 Governador Rondon Pacheco

Pesam sobre o Governador Rondon Pacheco graves acusações de que ele “traiu o candidato da ARENA” ou, no mínimo, se omitiu de forma deliberada na campanha. O “Jornal de Minas”, em manchete de primeira página, chegou a apontá-lo como parte de um grupo de políticos que pretendia derrotar o candidato arenista. As principais evidências e queixas contra sua conduta são:

  • Motivação: Sua insatisfação com a redução de seu mandato de governador em um ano e com a escolha de AURELIANO CHAVES como sucessor, em detrimento de seu candidato, OSWALDO PIERUCCETTI.
  • Ações de Sabotagem: A grave acusação de que, às vésperas da eleição, determinou que “comandos de fiscalização da Secretaria da Fazenda” percorressem o estado aplicando multas a fazendeiros e comerciantes, uma ação que teria provocado um voto de protesto em massa no MDB.
  • Omissão na Campanha: Sua ausência em comícios foi notória. As raras aparições na televisão foram gravadas (vídeo-tape) e não houve qualquer atuação efetiva em favor de JOSÉ AUGUSTO.
  • Declaração Relevante: Ao ser alertado sobre a iminente derrota do candidato do partido, teria afirmado de forma categórica: “vocês escolheram o homem. Agora aguentem”.

4.2 Senador Magalhães Pinto

O Senador Magalhães Pinto, apontado como o “primeiro líder da área, capaz de influenciar o eleitorado”, também foi alvo de acusações de traição. Sua conduta durante a campanha foi, no mínimo, ambígua e prejudicial à ARENA.

O episódio central de sua participação foi a declaração feita na televisão em 11 de novembro de 1974. Nela, conclamou os eleitores indecisos a “procurar escolher um candidato, na ARENA OU no MDB”, o que foi amplamente interpretado como um pedido de votos velado para a oposição.

Além disso, existem alegações de que ele utilizou seu prestígio junto à imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, por meio de seu ex-secretário JOSÉ APARECIDO DE OLIVEIRA, para promover a campanha contra JOSÉ AUGUSTO. Corrobora essa suspeita a informação de que, na residência do Senador, políticos de sua ala, incluindo OSWALDO PIERUCCETTI e até mesmo o suplente de JOSÉ AUGUSTO, MANOEL TAVEIRA, teriam comemorado a derrota do candidato da ARENA. Um fato significativo é que o Senador, apesar das graves acusações públicas, “em nenhuma oportunidade se preocupou em desmenti-las”.

4.3 Outras Lideranças

A deslealdade não se restringiu aos principais chefes políticos. Outras lideranças importantes também adotaram posturas que prejudicaram a campanha:

  • Senador GUSTAVO CAPANEMA: Fez declarações consideradas “altamente infelizes”, afirmando que “o crescimento político do Partido da Oposição irá beneficiar a plena redemocratização do País”. Essas palavras foram amplamente exploradas pelo MDB para angariar votos.
  • Deputado Federal GERALDO FREIRE DA SILVA: Como Presidente do Diretório Regional da ARENA-MG, sua conduta foi particularmente danosa. Foi acusado de se omitir na campanha do senador para focar em seus próprios interesses eleitorais, chegando a vetar candidaturas de correligionários influentes para não perder votos em seus redutos.

A conduta dessas lideranças estabeleceu um padrão de comportamento que se refletiu em nível municipal e entre os candidatos a deputado, onde a infidelidade se manifestou de forma ainda mais explícita.

5.0 Casos Emblemáticos de Infidelidade Partidária

A análise dos resultados eleitorais em redutos políticos específicos revela padrões claros de infidelidade partidária. Embora os dados finais ainda não estejam consolidados, o resultado parcial fornecido pelo TRE-MG serve como um poderoso indicador preliminar dessa tendência. A comparação entre a votação para as legendas proporcionais e a recebida pelo candidato majoritário expõe a deserção em larga escala. Até o momento, a ARENA conseguiu 982.156 votos para a Câmara Federal, mas JOSÉ AUGUSTO FERREIRA FILHO recebeu apenas 749.437 votos para o Senado. Essa diferença de aproximadamente 25% indica que, mesmo em uma contagem parcial, um em cada quatro eleitores da ARENA para deputado não votou no candidato a senador do partido.

A tabela abaixo detalha alguns dos casos mais documentados de infidelidade, que ilustram como a deslealdade se manifestou no nível local.

Políticos AcusadosRegião de InfluênciaAção/Evidência de InfidelidadeResultado Eleitoral Local
ALTAIR CHAGAS (Dep. Federal) e NARCÉLIO MENDES (Dep. Estadual)CaratingaFizeram campanha ostensiva e divulgaram manifesto contra JOSÉ AUGUSTO, seu inimigo político local, em sua própria terra natal, defendendo a candidatura de ITAMAR FRANCO.JOSÉ AUGUSTO não teve apoio integral das lideranças locais, necessitando de esforço externo para não ser “fragorosamente derrotado”.
IBRAHIM ABI-ACKEL (Cand. Dep. Federal) e NILO ROCHA (Cand. Dep. Estadual)Tocantins e ManhuaçuDistribuíram volantes eleitorais apresentando-se ao lado de ITAMAR FRANCO (MDB) como o “trio de ouro”.JOSÉ AUGUSTO foi derrotado em Manhuaçu, principal reduto eleitoral de Ibrahim Abi-Ackel.
JOÃO NOGUEIRA DE RESENDE (Dep. Federal)Conselheiro LafaieteAcusado de “omitir-se deliberadamente” e de “liberar seu eleitorado para sufragar ITAMAR FRANCO”.João Nogueira obteve 5.738 votos, enquanto JOSÉ AUGUSTO obteve apenas 3.965, contra 13.980 de ITAMAR FRANCO.
MORVAN ACAYABA (Dep. Estadual)VarginhaAcusado de omitir o nome de JOSÉ AUGUSTO em suas propagandas de rádio para focar em sua própria campanha.JOSÉ AUGUSTO foi derrotado em Varginha por “considerável margem de votos”.
FÁBIO VASCONCELOS (Dep. Estadual)Ponte Nova e MarianaAdmitiu ter abandonado a campanha para “salvar a própria pele”. Acusado de distribuir cédulas-modelo com o “x” marcado para o candidato do MDB, ITAMAR FRANCO.O político admitiu sua omissão, justificando-a pela dificuldade de sua própria reeleição.

Esses exemplos específicos não são casos isolados; eles ilustram um padrão sistêmico de deslealdade que permeou toda a estrutura da ARENA em Minas Gerais e que, em última análise, selou o destino da candidatura majoritária do partido.

6.0 Conclusão e Avaliação Estratégica

A derrota da ARENA na eleição para o Senado de 1974 em Minas Gerais não pode ser atribuída a uma causa única, mas a um colapso sistêmico interno, resultado de falhas crônicas de coesão, estratégia e lealdade. O partido governista foi à batalha eleitoral profundamente dividido, minado por ressentimentos e lutas de poder que se sobrepuseram ao objetivo comum da vitória.

A desunião estrutural, herdada dos antigos partidos, o ressentimento gerado pelas indicações de candidatos, a fragilidade de uma campanha tímida e, crucialmente, os atos de omissão e traição deliberada por parte de lideranças proeminentes em todos os níveis, criaram um cenário insustentável. A campanha transformou-se em um esforço individual de autopreservação, um “salve-se quem puder” que abandonou o candidato majoritário à própria sorte.

Diante de uma ARENA em frangalhos, a vitória de um MDB mais coeso, disciplinado e estratégico tornou-se o resultado lógico e inevitável. As eleições de 1974 não apenas marcaram uma derrota eleitoral para o governo, mas também expuseram a profunda crise de identidade e lealdade dentro do partido governista em Minas Gerais, cujas consequências estratégicas certamente se estenderão para os pleitos futuros.

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