Análise das Divisões Internas e Dinâmicas de Campanha da ARENA em Minas Gerais – Eleições de 1974

As eleições para o Senado em Minas Gerais no ano de 1974 não representaram um mero revés eleitoral para a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), mas expuseram uma crise estrutural que fragilizou o partido de sustentação do governo militar em um de seus mais importantes redutos. O propósito deste relatório é realizar uma avaliação objetiva dos fatores endógenos que determinaram o desempenho do partido, concentrando-se em quatro eixos principais: as profundas divisões estruturais da ARENA mineira, o perfil do candidato majoritário, as fragilidades da estratégia de campanha e os casos documentados de omissão e deslealdade por parte de suas principais lideranças. Longe de ser um fenômeno conjuntural, a frágil coesão do partido era uma vulnerabilidade crônica que se manifestou de forma decisiva durante o processo eleitoral.

2.0 Fragilidade Estrutural: As Raízes do Conflito na ARENA-MG

A coesão partidária é um pilar estratégico para o sucesso em qualquer disputa eleitoral. A ausência dessa unidade na ARENA de Minas Gerais não era uma falha pontual, mas uma condição crônica que minava sua capacidade de mobilização e ação coordenada, tornando-a fundamentalmente incapaz de articular uma defesa unificada contra uma oposição coesa. O partido operava mais como uma confederação de interesses conflitantes do que como um bloco político coeso.

2.1 Um Partido de Facções Conflitantes

A ARENA em Minas Gerais nunca se consolidou como uma agremiação política unificada. Na prática, funcionava como um agregado das forças políticas remanescentes dos partidos extintos pelo Ato Institucional nº 2, notadamente o Partido Social Democrático (PSD), a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Republicano (PR). A documentação-fonte descreve a legenda como uma verdadeira “arena de lutas”, onde os grupos internos “se digladiam, mercadejando influências”. Essa fragmentação era visível até mesmo na disposição física dos parlamentares na Assembleia Legislativa, que se organizavam em alas “udenista”, “pessedista” e “perrista”, impedindo a formulação de uma identidade partidária sólida.

2.2 Disputas por Nomeações-Chave e o “Ressentimento” Político

As nomeações para os cargos mais importantes do estado exacerbaram as tensões latentes. A indicação de Aureliano Chaves para o governo e de José Augusto Ferreira Filho para o Senado não foram fruto de consenso, mas de imposições que descontentaram todas as facções principais. Nenhum dos grupos viu seus candidatos preferidos serem escolhidos, o que gerou um profundo “ressentimento na classe política”. A UDN, que pleiteava a candidatura de José Bonifácio, e o PR, que defendia o ex-senador Arthur Bernardes, sentiram-se preteridos com a escolha de Ferreira Filho, um ex-militante do PSD. Esse processo, ao invés de unificar o partido, aprofundou as divisões e criou um ambiente de insatisfação generalizada.

Essas fissuras estruturais, alimentadas por disputas de poder e ressentimentos acumulados, manifestaram-se de forma concreta na escolha de um candidato com vulnerabilidades exploradas pela oposição e na condução de uma campanha marcada pela dispersão.

3.0 Análise da Candidatura e da Estratégia de Campanha

A seleção de um candidato e a forma como sua campanha é conduzida são reflexos diretos da saúde interna de uma organização política. No caso da ARENA-MG em 1974, tanto o perfil do candidato quanto a estratégia adotada revelaram as profundas debilidades do partido, criando um contraste nítido com a mobilização e o foco de seu principal adversário, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

3.1 Perfil e Vulnerabilidades do Candidato José Augusto Ferreira Filho

O candidato da ARENA, José Augusto Ferreira Filho, carregava um conjunto de vulnerabilidades que foram habilmente exploradas pela oposição. Sua candidatura, imposta sem um amplo consenso interno, já se iniciava em terreno instável. Suas principais fragilidades, conforme documentado, incluíam:

  • Uma notória debilidade como orador, que limitava sua capacidade de gerar apelo popular.
  • A ausência de reconhecimento junto ao eleitorado jovem, um segmento demográfico de crescente importância.
  • Um posicionamento político de defesa do AI-5 e do Decreto-Lei 477, que se converteu em vulnerabilidade explorada pela oposição para associá-lo a uma agenda autoritária.

3.2 O Contraste das Campanhas: A Dispersão da ARENA versus a Mobilização do MDB

A diferença de abordagem entre as duas campanhas foi gritante. Enquanto o MDB demonstrava unidade e foco, com o objetivo central de eleger seu candidato ao Senado, Itamar Franco, a ARENA apresentava uma campanha “tímida” e dispersa. Os candidatos arenistas ao legislativo, com raras exceções, concentraram-se em suas promoções pessoais, resultando em um “verdadeiro salve-se quem puder”. Essa desarticulação de campanha não foi um mero erro tático, mas uma consequência direta do faccionalismo estrutural do partido; sem uma identidade unificada, o curso racional para a maioria dos candidatos era a sobrevivência política individual. Em contrapartida, os candidatos do MDB atuavam como propagandistas de Itamar Franco, com a eleição do senador sendo tratada como “ponto de honra do Partido”.

3.3 O Incidente do “Diálogo do Porrete”

Um episódio específico catalisou a percepção negativa em torno da campanha da ARENA. Durante uma gravação de TV, o candidato José Augusto Ferreira Filho, sentindo-se ameaçado em um estúdio, foi fotografado armado com um pedaço de pau. O MDB capitalizou o incidente de forma imediata e eficaz, veiculando a mensagem de que “a ARENA deseja o diálogo do porrete”. Essa imagem, amplamente divulgada, cristalizou uma narrativa de intransigência e agressividade, influenciando a percepção de eleitores indecisos e reforçando a imagem de um partido desconectado do anseio popular por diálogo.

As falhas na condução da campanha e as vulnerabilidades do candidato foram agravadas pela omissão e, em alguns casos, pela traição explícita de figuras-chave do partido, cujas ações minaram ainda mais as chances de vitória.

4.0 Casos Documentados de Omissão e Infidelidade Partidária

A fidelidade partidária é a espinha dorsal de qualquer campanha majoritária, e sua ausência pode neutralizar até a mais bem estruturada das estratégias. Na ARENA mineira, em 1974, a falta de lealdade não foi uma exceção, mas uma prática adotada por lideranças de alto escalão. O “ressentimento na classe política”, gerado pelas nomeações não consensuais, forneceu o terreno fértil sobre o qual floresceram esses atos de omissão e sabotagem explícita.

Governador Rondon Pacheco

O então governador foi alvo de acusações diretas de que “traiu o candidato da ARENA” ou, no mínimo, “se omitido deliberadamente”. Sua insatisfação era notória, decorrente da redução de seu mandato e da não nomeação de seu sucessor preferido. A acusação mais grave, contudo, foi de ordem prática: a alegação de que, às vésperas do pleito, ele determinou que os “comandos de fiscalização da Secretaria da Fazenda” percorressem o estado impondo multas a comerciantes e fazendeiros, uma ação que prejudicou diretamente a base eleitoral do partido e gerou um clima de forte animosidade contra o governo.

Senador Magalhães Pinto

Figura de grande influência política, o Senador Magalhães Pinto foi acusado de integrar o grupo que pretendia sabotar a candidatura de José Augusto. Sua ação mais emblemática ocorreu durante um pronunciamento na televisão, onde conclamou os eleitores indecisos a “escolher um candidato, na ARENA ou no MDB”. Essa declaração foi amplamente interpretada não como um apelo à participação democrática, mas como um pedido velado de votos para a oposição, minando a autoridade da candidatura oficial de seu partido.

Deputados Federais e Estaduais (Comportamento Geral)

O comportamento geral dos candidatos ao legislativo refletiu a desarticulação da campanha. Preocupados primordialmente com suas próprias eleições, a maioria não se empenhou na promoção do candidato ao Senado. A prova numérica dessa dissociação é contundente: dados parciais da apuração apontavam uma diferença de aproximadamente 25% entre os votos de legenda recebidos pelos candidatos a deputado e os votos nominais obtidos por José Augusto, indicando que uma parcela significativa do eleitorado da ARENA não votou no candidato majoritário do partido.

Casos Específicos de Deslealdade

Além da omissão generalizada, o relatório documenta casos explícitos de infidelidade:

  • Altair Chagas e Narcálio Mendes: Em Caratinga, terra natal do candidato José Augusto, estes deputados teriam feito “ostensiva campanha contra” ele, chegando a criar um “manifesto” em favor do candidato do MDB.
  • Ibrahim Abi-Ackel e Nilo Rocha: Um volante eleitoral distribuído em Tocantins e região os apresentava ao lado de Itamar Franco (MDB) como o “trio de ouro”, uma prova material da aliança com a oposição.
  • Fábio Vasconcelos: O deputado estadual admitiu diretamente que não se empenhou na campanha majoritária, justificando sua omissão com a necessidade de “salvar a minha própria pele” em sua própria disputa eleitoral.

Essa cadeia de omissões e traições, somada aos problemas estruturais e de campanha, compôs o cenário que levou ao resultado final das eleições.

5.0 Conclusão: A Convergência de Fatores para o Desempenho Eleitoral

O desempenho eleitoral da ARENA em Minas Gerais nas eleições para o Senado de 1974 não pode ser atribuído a uma causa isolada. O resultado foi, na verdade, produto de uma convergência de problemas crônicos e falhas conjunturais que, somados, criaram um cenário insustentável para o partido. A derrota foi a consequência lógica de uma organização politicamente fragmentada que tentou operar em um ambiente eleitoral competitivo.

A análise evidencia a confluência de quatro fatores determinantes: a fragmentação estrutural herdada dos antigos partidos, que impedia a ação unificada; a escolha de um candidato com vulnerabilidades de imagem e posicionamento que foram eficazmente exploradas pela oposição; a execução de uma campanha desarticulada e tímida, na qual a autopromoção dos candidatos ao legislativo se sobrepôs ao projeto majoritário; e, de forma crucial, a omissão deliberada e a infidelidade ativa de importantes líderes do partido. Em última análise, a derrota da ARENA em Minas Gerais não foi o resultado de uma campanha superior da oposição, mas uma implosão previsível, orquestrada por suas próprias contradições internas e pelas ações deliberadas de seus mais influentes líderes.

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