Filhos de Mães com Transtorno de Personalidade Borderline: Compreendendo os Desafios Parentais e as Possibilidades de Intervenção
Uma Análise Aprofundada Baseada na Literatura Científica sobre Transmissão Intergeracional do Trauma e Estratégias de Proteção Infantil
Introdução
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição de saúde mental complexa e severa, que afeta aproximadamente 1% a 2% da população geral, chegando a 10% em pacientes psiquiátricos ambulatoriais e 15% a 20% em pacientes internados. Estima-se que existam mais de 6 milhões de mulheres nos Estados Unidos diagnosticadas com TPB, e uma parcela significativa dessas mulheres são mães.
Quando combinamos a prevalência do TPB com os prejuízos funcionais extensos associados a este transtorno — incluindo relacionamentos instáveis, dificuldades de regulação emocional, impulsividade e comportamentos suicidas — emerge uma questão de enorme preocupação para a saúde pública: qual é o impacto da maternidade com TPB sobre o desenvolvimento dos filhos?
Surpreendentemente, os efeitos do TPB materno sobre os desfechos infantis têm recebido pouca atenção empírica e esforços limitados de desenvolvimento de tratamentos específicos. Este artigo, baseado no trabalho seminal de Stepp e colaboradores (2011) publicado no Journal of Personality Disorders, revisa os mecanismos parentais que podem explicar a transmissão da vulnerabilidade psicossocial de mães com TPB para seus filhos, desde a infância até a adolescência, e propõe direcionamentos para intervenções clínicas.
Parte I: O Transtorno de Personalidade Borderline em Contexto Materno
1.1 Características Centrais do TPB
O TPB é caracterizado por um padrão invasivo de:
- Relacionamentos intensos e tempestuosos
- Raiva incontrolável
- Controle de impulsos prejudicado
- Instabilidade afetiva
- Perturbações de identidade e cognitivas
- Comportamento suicida recorrente
Indivíduos com TPB enfrentam múltiplos desfechos negativos, incluindo resposta pobre ao tratamento e prejuízos sociais, ocupacionais e acadêmicos significativos. O cotidiano destas pessoas é marcado por altos níveis de sofrimento, que frequentemente persistem mesmo após a remissão dos sintomas de impulsividade e comportamentos suicidas.
1.2 A Realidade das Mães com TPB
No contexto clínico, aproximadamente 75% dos indivíduos com diagnóstico de TPB são mulheres. Muitas destas mulheres são mães, o que representa um desafio adicional tanto para sua própria saúde mental quanto para o desenvolvimento de seus filhos. As mães com TPB enfrentam dificuldades únicas na parentalidade, frequentemente agravadas pela falta de eficácia que sentem em seu papel materno e pela ausência de intervenções especificamente desenhadas para suas necessidades.
Parte II: A Transmissão Transgeracional do Transtorno
2.1 Evidências de Agregação Familiar
Estudos familiares demonstram que parentes de primeiro grau de indivíduos com TPB apresentam um risco aumentado de 4 a 20 vezes para o desenvolvimento do transtorno em comparação com a população geral. Características centrais do TPB, como instabilidade afetiva e impulsividade, apresentam agregação familiar ainda mais forte do que o transtorno completo, sugerindo que estas características podem ser herdadas independentemente.
2.2 Contribuições Genéticas
Estudos com gêmeos oferecem evidências robustas para a transmissão genética do TPB:
- Uma estimativa de herdabilidade de 42% para características de TPB em amostras comunitárias
- Estimativa de 69% para o diagnóstico completo de TPB em amostras clínicas
A discrepância entre estes valores provavelmente reflete diferenças no tamanho das amostras e nos métodos de recrutamento, além da possibilidade de que influências genéticas sejam mais fortes para indivíduos com formas mais extremas do transtorno.
2.3 O Modelo Biossocial e a Interação Gene-Ambiente
Linehan (1993) propôs o modelo biossocial, que postula que o TPB emerge da transação entre uma vulnerabilidade biológica (predisposição genética para reatividade emocional) e um ambiente invalidante. Fruzzetti, Shenk e Hoffman (2005) expandiram este modelo, argumentando que experiências parentais invalidantes interagem com as vulnerabilidades genéticas da criança, colocando-a em risco para desfechos psicossociais pobres, incluindo o próprio TPB.
A parentalidade funciona como um contexto ambiental crítico neste processo:
- Crianças com menor reatividade emocional podem manter relacionamentos positivos com cuidadores que respondem adequadamente às suas expressões emocionais
- Relacionamentos negativos podem exacerbar sintomas internalizantes e externalizantes em jovens já emocionalmente disrregulados
- Parentalidade calorosa e acolhedora pode proteger a criança de desfechos negativos associados a vulnerabilidades genéticas
- Fatores genéticos e fisiológicos específicos podem, alternativamente, proteger a criança de ambientes caracterizados por abuso, negligência e conflito
Embora não seja possível modificar as vulnerabilidades genéticas da criança, as práticas parentais são modificáveis e representam um contexto ambiental propício para intervenção.
Parte III: Características dos Filhos de Mães com TPB
3.1 Desfechos durante a Infância e Primeira Infância
Diversos estudos investigaram o impacto do TPB materno em bebês e crianças pequenas:
Estudo de Newman e colaboradores (2007): Bebês de 3 a 36 meses de idade, filhos de mães com TPB, mostraram-se menos atentos e menos interessados em interações com suas mães durante brincadeiras livres, em comparação com bebês de mães saudáveis. Os autores sugerem que este padrão pode levar a interações de evitação entre crianças e suas mães.
Paradigma da “Cara Imóvel” (Still-Face Paradigm): Crandell e colaboradores (2003) observaram que bebês de 2 meses de idade, filhos de mães com TPB, demonstravam mais olhares confusos, mais desvio do olhar e menos responsividade geral em relação à mãe durante o procedimento. Estes resultados foram interpretados como indicativos de disrregulação emocional diante de situações interpessoais estressantes.
Após o procedimento, as díades mãe-bebê mostraram menor recuperação em suas interações, com os bebês continuando a apresentar afeto negativo crescente e reengajamento menos satisfatório com suas mães.
Aos 12 meses de idade: Quando o mesmo grupo de bebês completou 1 ano, 80% apresentaram padrões comportamentais consistentes com apego desorganizado em relação às suas mães. Os bebês foram classificados como tendo mais desorganização comportamental e humor negativo em relação a um estranho durante o procedimento da “cara imóvel”, e o tempo de recuperação foi mais longo, sugerindo maior disrregulação afetiva.
3.2 Desfechos na Idade Pré-Escolar e Escolar Inicial
Macfie e Swann (2009) examinaram as representações de apego em crianças de 4 a 7 anos, filhas de mães com TPB, utilizando tarefas de completar histórias. Os resultados revelaram:
- Pior regulação emocional: as crianças eram mais propensas a falar sobre fantasias e material de natureza traumática
- Inversão de papéis: significativamente mais presente nas narrativas (por exemplo, a criança diz aos pais que estão brigando: “Parem com isso! Vão para seus quartos!”)
- Maiores medos de abandono: tentativas de resolver perdas antecipadas em suas histórias
- Expectativas negativas de relacionamento: relações caracterizadas por perigo e/ou imprevisibilidade
- Auto-representações incongruentes e vergonhosas: a criança limpa seu quarto e depois o bagunça, ou diz que é “má”
Estes construtos têm implicações significativas para desfechos psicossociais futuros:
- Medo de abandono e expectativas negativas podem dificultar a formação e manutenção de relacionamentos estáveis
- Auto-representações vergonhosas e incongruentes podem evoluir para perturbações de identidade na adolescência e idade adulta
- Déficits precoces em regulação emocional associam-se a transtornos internalizantes e externalizantes posteriores
3.3 Desfechos na Idade Escolar e Adolescência
Estudo de Feldman e colaboradores (1995): Crianças de 4 a 18 anos com histórico materno de TPB apresentaram mais sintomas de TPB durante a infância, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outros transtornos disruptivos.
Estudo de Abela e colaboradores (2005): Crianças de 6 a 14 anos, filhas de mães com comorbidade de Depressão Maior e TPB, apresentaram:
- Níveis mais altos de sintomas depressivos
- Probabilidade 6,8 vezes maior de terem tido pelo menos um episódio de Depressão Maior
- Maior vulnerabilidade cognitiva e interpessoal (estilo atribucional negativo, estilo ruminativo, atitudes disfuncionais, autocrítica, apego inseguro e busca excessiva de reasseguramento)
Estudo de Barnow e colaboradores (2006): Adolescentes de 11 a 18 anos, filhos de mães com TPB, exibiram:
- Mais problemas de atenção, delinquência e agressividade
- Mais ansiedade, depressão e baixa autoestima, em comparação com adolescentes de mães com Depressão Maior, outros transtornos de personalidade e controles saudáveis
Estudo de Herr, Hammen e Brennan (2008): Em uma amostra comunitária de mães com filhos de 15 anos, sintomas maternos de TPB relacionaram-se a:
- Percepção social mais baixa nos adolescentes
- Cognições de apego mais temerosas
- Estresse crônico mais intenso na relação mãe-adolescente
- Maior hostilidade materna
Estes achados permaneceram significativos mesmo após controle para sintomas depressivos maternos e dos adolescentes, sugerindo que o TPB materno representa um fator de risco único e independente.
Parte IV: Mecanismos Parentais na Transmissão da Vulnerabilidade
4.1 O Ambiente Invalidante
Apesar de ser um construto central na teoria de Linehan, o papel da invalidação parental na transmissão e desenvolvimento do TPB permanece em grande parte não testado. Em amostras normativas, a crítica parental ou invalidação das emoções das crianças tem sido associada a:
- Dificuldades sociais e emocionais na primeira infância
- Sofrimento psicológico na idade adulta
Hipotetiza-se que mães com TPB invalidem as emoções de seus filhos, especialmente quando percebem inadequadamente estas emoções. Isto pode levar a crianças que negam ou questionam suas próprias experiências emocionais, interrompendo o desenvolvimento adaptativo dos sistemas de processamento emocional.
4.2 Comportamentos Parentais Observados em Mães com TPB
Estudos com o paradigma da “cara imóvel”: Crandell e colaboradores (2003) e Hobson e colaboradores (2005) encontraram que mães com TPB eram mais propensas a ser caracterizadas como intrinsecamente insensíveis, com base em classificações de sua fala e comportamento durante períodos de brincadeira livre e recuperação.
Estudo de Hobson e colaboradores (2009): Mães com TPB exibiram comunicação afetiva disrregulada em direção a seus bebês de 1 ano, incluindo:
- Comportamentos críticos e intrusivos
- Confusão de papéis
- Comportamentos assustadores/amedrontadores
- Mais comportamentos amedrontadores e desorientadores do que mães com depressão ou sem transtorno de personalidade
Inversão de papéis: Macfie e Swan (2009) argumentam que a inversão de papéis durante o período toddl er é particularmente relevante para filhos de mães com TPB. Durante esta fase, as crianças começam a desenvolver autonomia, mas este marco pode ser desencorajado por mães que preferem que a criança permaneça próxima para atender às suas próprias necessidades. Mães com TPB podem temer que seus filhos as abandonem, resultando em inversão de papéis — a criança assumindo funções adultas de amigo, par ou cuidador.
Percepções parentais: Newman e colaboradores (2007) descobriram que mães com TPB:
- Eram menos sensíveis e demonstravam menos estruturação na interação com seus bebês
- Relatavam-se menos satisfeitas, menos competentes e mais angustiadas com suas habilidades parentais
Os autores observaram que os níveis de angústia e dificuldades percebidas com os papéis parentais podem ser fatores que contribuem para negligência e abuso.
4.3 Comportamentos Parentais em Mães com Transtornos de Personalidade
O Estudo das Crianças na Comunidade (Children in the Community Study) forneceu evidências longitudinais prospectivas sobre parentalidade, psicopatologia parental e desfechos infantis, demonstrando que:
- Transtorno de personalidade parental está associado a parentalidade problemática
- Parentalidade mal-adaptativa prediz sintomas posteriores de transtorno de personalidade nos filhos
- Transtorno de personalidade parental está associado a sintomas e transtornos nos filhos
Parte V: Desafios Parentais Específicos de Mães com TPB
5.1 Oscilações entre Superenvolvimento e Subenvolvimento
Um dos desafios centais no estudo desta área é distinguir práticas parentais que podem ser únicas de mães com TPB daquelas relacionadas a outras formas de psicopatologia, como depressão. A partir dos estudos revisados, propõe-se que as estratégias parentais caracterizadas por oscilações entre superenvolvimento e subenvolvimento são específicas de mães com este transtorno.
Estas oscilações representam formas extremas de inconsistência:
- Oscilações entre comportamentos intrusivos e superenvolvidos e comportamentos retraídos e de evitação
- Oscilações entre controle hostil e frieza
- Alternância entre respostas punitivas e neglectas às expressões emocionais dos filhos e momentos de recompensa e suporte
5.2 Inconsistência na Socialização Emocional
Mães com TPB podem apresentar mais respostas neglectas e punitivas às expressões emocionais de seus adolescentes, mesmo quando controlados os sintomas depressivos atuais. Paradoxalmente, estas mesmas mães também relatam quantidades quase iguais de recompensa — uma estratégia de socialização emocional de suporte — em comparação com mães deprimidas e saudáveis.
Esta inconsistência nas estratégias de socialização emocional pode, ao longo do tempo, levar seus adolescentes a negar ou questionar suas respostas emocionais, aumentando a vulnerabilidade emocional e a invalidação por outros ou por si mesmos.
5.3 Dificuldade em Ajustar Estratégias ao Desenvolvimento Infantil
Mães com TPB podem encontrar dificuldade em:
- Equilibrar o estabelecimento apropriado de limites com o encorajamento da exploração e crescimento dos filhos
- Ajustar suas estratégias parentais para corresponder às necessidades desenvolvimentais das crianças em diferentes fases
Uma estratégia de disciplina que funcionava bem para um toddler pode não ter o mesmo impacto em um adolescente, e a incapacidade de fazer esta transição pode criar conflitos e prejuízos adicionais.
Parte VI: Intervenções Atuais
6.1 Intervenções Baseadas no Apego
As intervenções baseadas no apego geralmente abordam a prevenção da transmissão do apego inseguro e/ou desorganizado de duas formas principais:
Psicoterapia individual com a mãe: A mãe é encorajada a falar sobre suas próprias experiências de infância e conectar estes eventos ao seu relacionamento atual com seu filho, ganhando insight sobre como perpetua o ciclo de apego inseguro/desorganizado.
Psicoterapia com a díade mãe-bebê: O terapeuta observa as interações entre mãe e filho para facilitar que a mãe conecte suas experiências passadas e seu próprio estilo de apego ao relacionamento atual com seu filho.
Exemplos de intervenções codificadas incluem:
- Watch, Wait and Wonder (WWW)
- Preschooler-Parent Psychotherapy (PPP)
- Circle of Security (COS)
Aplicação em mães com TPB: Newman e Stevenson (2008) descreveram a aplicação do WWW com 20 mães diagnosticadas com TPB. Embora esta aplicação não tenha envolvido uma avaliação formal de efetividade, foi o primeiro trabalho publicado descrevendo uma intervenção para mães com TPB.
Efetividade: Metanálises demonstram que, embora intervenções baseadas no apego aumentem a sensibilidade materna, seu impacto na segurança do apego da mãe ou da criança é limitado. Esforços mais recentes de manualização têm produzido evidências mais favoráveis para populações de alto risco.
6.2 Intervenções Psicopedagógicas
Abordagens psicopedagógicas tipicamente fornecem informação sobre uma variedade de questões relevantes para familiares de indivíduos com TPB, incluindo cônjuges, filhos adultos, amigos e pais de adolescentes.
Programas relevantes:
- Family Connections (FC): Foca exclusivamente em psicopedagogia familiar e alívio do estresse do cuidador
- Systems Training for Emotional Predictability and Problem Solving (STEPPS): Inclui familiares de forma ancilar
- Treinamento de Habilidades em Grupo Multifamiliar como parte da Terapia Comportamental Dialética para adolescentes
A pesquisa suporta o FC para aliviar o estresse do cuidador e o STEPPS e treinamento multifamiliar para melhorar desfechos dos pacientes. No entanto, não há pesquisas que tenham examinado o impacto de abordagens psicopedagógicas tanto no estresse do cuidador quanto nos desfechos dos pacientes simultaneamente.
Parte VII: Implicações para o Desenvolvimento de uma Intervenção Parental Específica
Com base na revisão das práticas parentais de mães com TPB e dos pobres desfechos psicossociais caracterizados por muitos de seus filhos, uma intervenção de tratamento específica para mães com TPB e seus filhos é necessária. Tal intervenção deve abordar os desafios parentais únicos que mães com TPB experimentam e incorporar o que sabemos sobre intervenções baseadas no apego e familiares para TPB.
7.1 Psicoeducação sobre Desenvolvimento Infantil
Mães com TPB podem primeiro necessitar de psicoeducação básica sobre tarefas e expectativas desenvolvimentais apropriadas. Muitas mães desconhecem marcos desenvolvimentais e podem ter dificuldade em lidar com comportamentos normais de bebês, crianças e adolescentes, levando a estresse materno e falha em atender às necessidades da criança.
Objetivos da psicoeducação:
- Aprender o que acontece à medida que um bebê cresce, preparando-se para os desafios futuros
- Desenvolver expectativas realistas dado o estado desenvolvimental atual da criança
- Alterar crenças disfuncionais (ex.: “o choro do meu bebê significa que sou uma mãe ruim”)
- Aprender habilidades parentais básicas e parentalidade positiva (rotinas de sono, alimentação, estratégias de disciplina não física)
- Compreender que experiências parentais prévias com seus próprios cuidadores podem ser uma armadilha, levando a estratégias parentais ineficazes
7.2 Habilidades para Promover Consistência em Rotinas e Monitoramento
Os estudos revisados sugerem que mães com TPB podem ter dificuldade em manter um ambiente estável e nutritivo para seus filhos, incluindo:
- Mudanças frequentes de moradia e escola
- Remoção do lar
- Tentativas de suicídio maternas
- Dificuldades em fornecer horários consistentes de alimentação e sono
Intervenções alvo:
- Aprender a importância de fornecer uma rotina consistente e previsível para a criança, com transições previsíveis
- Compreender os efeitos protetores de rotinas familiares (redução de ansiedade, depressão e problemas de conduta)
- Desenvolver habilidades de monitoramento parental consistente
- Treinar em como efetivamente monitorar, supervisionar e estabelecer limites com a criança
- Aprender a aderir a rotinas mesmo durante circunstâncias difíceis
7.3 Habilidades para Promover Consistência em Calor e Nutrição Afetiva
Práticas parentais relacionadas à emoção desempenham papel central na socialização da regulação emocional em crianças. Pesquisas sugerem que pais possuem uma “filosofia meta-emoção” que guia respostas às expressões emocionais de seus filhos.
Mães com TPB podem:
- Utilizar estratégias de socialização emocional não suportivas
- Invalidar as emoções de seus filhos
- Criticar, ridicularizar ou punir a expressão emocional da criança
- Encorajar a supressão da emoção e o uso de estratégias de regulação emocional evitantes ou agressivas
Intervenções alvo:
- Facilitar respostas positivas e consistentes às expressões emocionais dos filhos
- Aprender a planejar como fornecer calor e nutrição consistentemente, mesmo durante momentos de extremo sofrimento emocional próprio
- Compreender o impacto da invalidação emocional no desenvolvimento infantil
7.4 Habilidades Parentais Baseadas em Mindfulness para Facilitar Consistência Comportamental e Emocional
Dumas (2005) descreve a natureza habitual de muitos conflitos entre pais e filhos e argumenta que estratégias parentais baseadas em mindfulness podem ajudar famílias a “desatolar-se” de padrões negativos.
Evidências: Após 8 semanas de treinamento em mindfulness com pais e adolescentes com transtornos externalizantes, crianças relataram redução significativa em sintomas internalizantes e externalizantes, e pais relataram melhora no alcance de metas com seus filhos.
Objetivos do mindfulness parental:
- Desenvolver autoconsciência para ganhar objetividade em situações parentais difíceis
- Manter a consciência quando a criança está experimentando uma emoção forte ou eliciando uma emoção forte na mãe
- Aprender os próprios limites na parentalidade e quando buscar suporte e conselho
- Melhorar a capacidade de fornecer um ambiente doméstico estável e caloroso
Parte VIII: Limitações e Desafios
Apesar da forte justificativa para uma intervenção parental específica para mães com TPB, vários fatores limitam o desenvolvimento de intervenções:
- Falta de informação: Não existem estimativas precisas sobre a prevalência de mães com TPB
- Resiliência: Muitos filhos de mães com TPB são resilientes a desfechos pobres, possivelmente devido a capacidades parentais excepcionais de algumas mães
- Múltiplos fatores ambientais: Uma variedade de fatores ambientais, não apenas práticas parentais, colocam crianças em risco para o desenvolvimento de TPB
- Complexidade diagnóstica: A comorbidade e a sobreposição de sintomas com outros transtornos dificultam a identificação de desafios parentais específicos do TPB
No entanto, mães com TPB, devido a aspectos específicos de sua doença, enfrentam desafios especiais na parentalidade, e o aumento da pesquisa nesta área é urgentemente necessário.
Parte IX: Conclusões e Recomendações
9.1 Síntese dos Achados
A transmissão transgeracional do TPB envolve uma complexa interação entre vulnerabilidades genéticas e ambientais. O contexto ambiental que confere risco inclui práticas parentais caracterizadas por:
- Oscilações entre formas extremas de controle e passividade
- Inconsistência na socialização emocional
- Dificuldade em fornecer rotinas estáveis e monitoramento consistente
- Falhas na validação emocional dos filhos
- Tendência à inversão de papéis
9.2 Direcionamentos para Intervenção
Uma intervenção parental para mães com TPB deve incluir:
-
Psicoeducação sobre desenvolvimento infantil para desenvolver expectativas realistas e habilidades parentais básicas
-
Treinamento em consistência de rotinas e monitoramento para criar um ambiente estável e previsível
-
Treinamento em consistência de calor e nutrição afetiva para promover regulação emocional saudável nos filhos
-
Estratégias parentais baseadas em mindfulness para facilitar consistência comportamental e emocional mesmo sob estresse
9.3 Considerações Finais
Ao abordar habilidades parentais, espera-se observar melhorias nas interações pais-filhos, levando a reduções no sofrimento da mãe e da criança. O desenvolvimento de uma intervenção para mães com TPB é crítico para:
- Ameliorar problemas parentais
- Promover o ajustamento positivo das crianças
- Interromper o ciclo de transmissão intergeracional do trauma
- Reduzir o impacto do TPB materno sobre o desenvolvimento infantil
Acreditamos que esta revisão gerará novas questões de pesquisa sobre estratégias parentais em mães com TPB e estimulará esforços de desenvolvimento de tratamento para esta população vulnerável. A proteção da saúde mental infantil exige que reconheçamos as necessidades específicas destas famílias e desenvolvamos intervenções baseadas em evidências que possam efetivamente apoiar tanto as mães quanto seus filhos.
Referências Bibliográficas
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- Stepp, S. D., Whalen, D. J., Pilkonis, P. A., Hipwell, A. E., & Levine, M. D. (2011). Children of mothers with borderline personality disorder: Identifying parenting behaviors as potential targets for intervention. Personality Disorders: Theory, Research, and Treatment, 3(1), 76-91.
Nota importante: Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional individualizada. Caso você ou alguém que você conheça esteja enfrentando desafios relacionados ao TPB e à parentalidade, procure orientação de profissional de saúde mental qualificado.
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