O Feudo Eterno: A Máquina de Corrupção que Varginha Insiste em Chamar de Cidade

Em Varginha, o tempo não passa. Ele apodrece. Enquanto o Brasil discute o futuro, essa cidade do sul de Minas Gerais permanece afogada em um pântano de corrupção sistêmica, uma máquina perfeita de impunidade que vem sendo lubrificada há mais de meio século. Este não é um artigo investigativo; é um atestado de óbito da moralidade pública. Um retrato de uma captura do Estado tão completa, tão absoluta, que a diferença entre o público e o privado foi abolida por decreto dos coronéis de toga.

Aqui, a única coisa extraterrestre não é o suposto ET da década de 90, mas a noção básica de justiça. Ela parece não pertencer a este planeta.

1. A Gênese do Podridão: Quando a Ditadura Era Sócio Minoritário

Tudo começou com a elegante pilhagem. Na década de 1970, sob a benção silenciosa da Ditadura Militar, um juiz chamado Francisco Vani Bemfica e um deputado chamado Morvan Acayaba decidiram que a Fundação Educacional de Varginha (FEV) não era uma instituição pública, mas seu cofre particular.

Imagine a cena: o mesmo homem que deveria julgar com imparcialidade, o Juiz Bemfica, também dirigia a Faculdade de Direito (FADIVA) e supervisionava a fundação que a mantinha. Era como colocar a raposa para desenhar a planta do galinheiro, contratar os pedreiros e, depois, fazer a perícia do desaparecimento das galinhas.

O esquema era de uma simplicidade obscena: terrenos da fundação eram vendidos a “laranjas”, que imediatamente os repassavam para o patrimônio do próprio juiz ou de seus familiares. O Serviço Nacional de Informações (SNI) documentou tudo. Sabiam. E o que aconteceu? Nada. A ditadura, que torturava e matava por “subversão”, deu de ombros para a corrupção de seus aliados locais. O relatório do SNI chegou a “achar graça” da tentativa patética de pintar um jornalista investigativo como subversivo. A mensagem era clara: você pode desafiar o regime, mas não desafie os donos da cidade.

2. A Metástase: A Corrupção Herda CPF e Aprende a Falar Juridiquês

Com a redemocratização, a esperança era de que a luz limpassa essa caveira. Ilusão. Em Varginha, a democracia não derrubou os oligarcas; apenas os obrigou a trocar de uniforme. O porão do DOPS foi substituído pelo escritório de advocacia.

A estrutura montada por Bemfica e Acayaba não foi desmontada; foi modernizada, incorporada, transformada em holding familiar. A FADIVA deixou de ser apenas um mecanismo de desvio e se tornou uma máquina de lavagem de reputação e formação de quadros. Como um jovem promotor, formado na FADIVA, homenageando o “ícone” Bemfica em suas salas de aula, terá coragem de investigar a fundação presidida pelos herdeiros de seu benfeitor? A resposta ecoa no silêncio ensurdecedor do Ministério Público local ao longo de décadas.

O poder, como um vírus, adaptou-se. Figuras como o emblemático “advogado Márcio” surgem como os novos operadores. Não são mais brutamontes que ameaçam com a Lei de Segurança Nacional; são técnicos em lawfare, especialistas em estrangular financeiramente críticos com ações de danos morais e em costurar acordos nos bastidores. A grilagem de terras deu lugar à grilagem de processos. A violência política foi substituída pela violência processual. O resultado é o mesmo: silêncio.

3. A “Capitania Hereditária”: O Feudo que se Passa por Fundação

Chegamos ao núcleo da doença. A FEV/FADIVA não é uma instituição de ensino. É uma propriedade. Uma capitania hereditária, como bem definiu o relatório original.

A prova é uma afronta à inteligência de qualquer cidadão: em 2015, a presidência e vice-presidência da Fundação Educacional continuavam nas mãos de Morvan Acayaba e Júnia Bemfica Guimarães Cornélio. Meio século se passou. O mundo mudou. Em Varginha, a única sucessão que importa é a de sangue. Eles controlam o patrimônio, controlam a formação dos futuros juízes e promotores da região e, portanto, controlam o próprio conceito de justiça naquele pedaço do mapa.

É um sistema de auto-perpetuação perfeito e cíclico: rouba-se para financiar o feudo educacional; o feudo educacional forma a classe jurídica que protege o roubo; e a classe jurídica protege o feudo. O círculo se fecha sobre a carne podre da ética.

4. A Impunidade Contemporânea: O Passado é Apenas o Roteiro

Acham que isso é história? Apenas olhem para os noticiários dos últimos anos. A corrupção em Varginha não é uma relíquia; é uma indústria em plena operação, só que com um logotipo mais moderno.

Em 2023, o Ministério Público desmontou uma organização criminosa dentro do presídio de Varginha. Um advogado atuando como “pombo-correio” entre o crime organizado e agentes corruptos. Soa familiar? É o mesmo papel do operador jurídico, só que em um nível mais baixo na cadeia alimentar do crime.

Em 2025, um ex-delegado foi condenado por receber propina para paralisar investigações. A obstrução da Justiça como serviço. Ainda acham que a tentativa de Morvan Acayaba de calar o Jornal de Minas com o DOPS era coisa de outro tempo? É a mesma semente, dando o mesmo fruto venenoso.

E então temos a Chacina de Varginha (2021). O caso que escancara a completa podridão do sistema. Trinta e nove policiais indiciados pela Polícia Federal por execuções, tortura e fraude processual. E o que acontece? As investigações do Ministério Público Federal estão paralisadas há mais de um ano. Os acusados continuam na ativa, com porte de arma e poder de polícia. A impunidade não é uma falha do sistema em Varginha; é a sua característica definidora. Quando a vítima é pobre e o algoz tem farda ou beca, a Justiça entra em coma induzido.

Conclusão: A Cidade que Escolheu Ser um Tumór

Varginha não é vítima. Varginha é cúmplice. Ela é o que acontece quando uma comunidade permite que uma oligarquia transforme instituições públicas em fazendas familiares por gerações. O “Caso Bemfica” nunca acabou. Ele apenas se ramificou, infectou novos órgãos e aprendeu a falar a língua de cada nova época.

Enquanto bustos de juízes “inescrupulosos” (nas palavras do próprio SNI) enfeitam salas solenes, e enquanto herdeiros de esquemas antigos continuam a ditar regras, Varginha será um monumento à impunidade. Um aviso grotesco de que algumas ditaduras não terminam com atos institucionais; elas simplesmente trocam de disfarce e compram uma nova gravata.

A única esperança? Talvez quando a última geração formada na FADIVA sob o mito dos “coronéis fundadores” morrer. Até lá, Varginha continuará sua existência triste: não a cidade do ET, mas a cidade do Eternal Feudo. Um tumor que se recusa a ser extirpado, celebrando seus próprios mestres do câncer.

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