A cidade de Varginha, em Minas Gerais, tem um histórico de entrelaçamento entre famílias influentes e a estrutura local de poder. Desde a década de 1970, registros jornalísticos já apontavam a existência de vínculos estreitos entre lideranças políticas, jurídicas e educacionais, sugerindo que a administração pública e o meio judiciário eram dominados por grupos familiares tradicionais. Em 1973, por exemplo, o Jornal de Minas noticiou a sobreposição entre famílias e instituições da cidade, descrevendo a situação como uma “simbiose deletéria” entre política e poder local.
Décadas mais tarde, essa herança institucional se manifesta no ambiente jurídico e acadêmico da região. Registros oficiais demonstram que o promotor de Justiça Aloísio Rabêlo de Rezende e o advogado Márcio Vani Bemfica exercem suas atividades profissionais na mesma comarca e mantêm vínculos acadêmicos com a Faculdade de Direito de Varginha (FADIVA) e com sua mantenedora, a Fundação Educacional de Varginha (FUNEVA). Essas entidades foram fundadas por membros das famílias Rezende e Bemfica e permanecem sob sua direção, com diversos integrantes ocupando cargos administrativos e docentes.
Essa confluência de papéis — jurídico, acadêmico e institucional — cria um cenário peculiar em que atores do sistema de justiça compartilham o mesmo espaço educacional e hierárquico. Na FADIVA, por exemplo, um dos profissionais atua como docente, enquanto o outro ocupa posição de liderança na mantenedora, a FUNEVA. A sobreposição de funções públicas e privadas dentro de um mesmo círculo de relações familiares e institucionais desperta questionamentos sobre a separação entre esferas de influência e a preservação da autonomia das instituições.
A situação é reforçada por eventos públicos recentes, nos quais ambos os profissionais aparecem representando suas respectivas funções e também a instituição de ensino. Em setembro de 2025, durante a solenidade de posse do novo delegado da Receita Federal em Varginha, os dois participaram oficialmente da cerimônia ao lado de representantes da FADIVA, ex-alunos e autoridades municipais. A presença conjunta em ocasiões dessa natureza evidencia a continuidade de um ambiente de convivência institucional estreita, consolidado ao longo de gerações.
Ainda que não haja qualquer indício de irregularidade funcional, o histórico de vínculos familiares e o compartilhamento de espaços de influência entre atores centrais do sistema jurídico de Varginha suscitam um debate importante sobre a necessidade de transparência e distanciamento institucional. A confiança pública na justiça depende, em grande parte, da percepção de independência e autonomia dos seus agentes, e o caso de Varginha ilustra como a história e as relações sociais podem moldar, de forma duradoura, as dinâmicas de poder e representação em uma comunidade.
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