Verdades Sobre o Divórcio com Narcisista (Que Ninguém Conta)

Divorciar-se de alguém que parece viver em uma realidade alternativa é uma experiência profundamente confusa e frustrante. Fatos são distorcidos, acusações falsas são feitas com convicção e, de alguma forma, tudo sempre acaba sendo sua culpa. Você se sente como se estivesse perdendo a sanidade, tentando argumentar com uma lógica que simplesmente não se aplica. O que você talvez não perceba é que esse comportamento desconcertante é, muitas vezes, um esforço inconsciente para lidar com as emoções de perda: perda de um vínculo, perda de uma autoimagem inflada e, acima de tudo, perda de controle.

No livro Splitting: Protecting Yourself While Divorcing Someone with Borderline or Narcissistic Personality Disorder, os autores Bill Eddy e Randi Kreger dão um nome a esse padrão de comportamento: o “acusador persuasivo” (persuasive blamer). Este é o indivíduo que, impulsionado por traços de personalidade narcisista, borderline ou antissocial, usa a culpa como arma e pode ser incrivelmente convincente para quem está de fora.

Este artigo irá destilar os cinco insights mais surpreendentes e contraintuitivos do livro. São verdades essenciais que podem mudar a forma como você navega por essa experiência desafiadora, protegendo sua sanidade e seus interesses no processo.

1. O Sistema Judicial Pode se Tornar a Nova Arma Deles

A ideia de que o tribunal pode se tornar uma ferramenta para o seu ex-parceiro continuar o abuso é chocante e profundamente contraintuitiva. A maioria das pessoas entra no processo judicial esperando que a justiça e a verdade prevaleçam, vendo o tribunal como um refúgio. No entanto, o sistema pode, inadvertidamente, se tornar a arma perfeita para o “acusador persuasivo”.

A própria estrutura do tribunal—dividindo o mundo em queixoso vs. réu, culpado vs. inocente, vencedor vs. perdedor—valida perfeitamente a visão de mundo “dividida” (splitting) do acusador. Para eles, tudo é preto no branco. O sistema judicial, por sua natureza, busca atribuir culpa, que é exatamente o que a mente de um “acusador persuasivo” precisa para se sentir segura. Eles prosperam no conflito e usam o processo para continuar o assédio e a intimidação sob o pretexto de buscar “justiça”. Esta é a verdade mais dura: o lugar onde você busca proteção pode se tornar o palco principal para o ataque deles.

“Muitas vezes, quando uma pessoa deixa um relacionamento onde seu parceiro tem sido abusivo, o sistema judicial se torna a próxima ferramenta para continuar o assédio, a intimidação e o abuso psicológico.” —Anna Harper-Guerrero, LMSW

2. Seus Instintos Naturais Vão Sair Pela Culatra

Ao lidar com as táticas de um “acusador persuasivo”, a maioria das pessoas comete um de dois erros instintivos: reagir com agressividade ou ceder passivamente. Infelizmente, ambas as abordagens estão fadadas ao fracasso.

  • Agressiva: Tentar revidar na mesma moeda, “destruí-los” no tribunal com suas próprias acusações, é um erro grave. Isso faz com que você pareça o agressor aos olhos do juiz e dos avaliadores. Você acaba fornecendo a eles a munição perfeita para pintá-lo como a parte irracional e conflituosa.
  • Passiva: Ceder para evitar conflitos é igualmente perigoso. Isso apenas os encoraja a exigir mais, pois percebem que a intimidação funciona. Além disso, não corrigir formalmente as declarações falsas deles pode permitir que essas mentiras se tornem parte do registro do caso, criando problemas legais e de reputação no futuro.

A solução é uma terceira via: a abordagem assertiva. Isso não é apenas um estado emocional de calma, mas uma estratégia ativa. Requer pensamento estratégico, documentação cuidadosa dos padrões de comportamento e a escolha criteriosa de quais batalhas travar. Significa apresentar sua verdade de forma clara e factual, sem reagir emocionalmente às provocações ou desistir de seus direitos.

3. Seu Momento “Aha!” é um Segredo Que Você Deve Guardar

Este é talvez o conselho mais contraintuitivo e crucial do livro. Quando você finalmente entende o padrão de comportamento e percebe que está lidando com alguém com traços de Transtorno de Personalidade Narcisista (NPD) ou Borderline (BPD), parece uma grande revelação. Sua primeira vontade pode ser confrontá-los com esse “diagnóstico” ou mencioná-lo no tribunal para que todos vejam a “verdade”. Não faça isso. Nunca.

Usar rótulos de diagnóstico, por mais precisos que pareçam, irá desencadear uma raiva e defensividade extremas, tornando a pessoa ainda mais combativa e qualquer acordo impossível. No tribunal, usar um diagnóstico que você não está qualificado para fazer mina sua própria credibilidade, fazendo com que os profissionais do direito o vejam como vingativo e amador. O foco deve estar nos padrões de comportamento observáveis e documentados, não em diagnósticos.

O livro enfatiza a importância deste ponto com a única frase impressa inteiramente em letras maiúsculas:

“CERTIFIQUE-SE DE MANTER SUA OPINIÃO SOBRE UM POSSÍVEL DIAGNÓSTICO PARA SI MESMO; NÃO A DIGA AO SEU PARCEIRO, NÃO IMPORTA O QUÃO TENTADOR POSSA SER.”

4. “Fatos Emocionais” Podem Ser Mais Persuasivos Que a Realidade

Você já se perguntou como seu ex-parceiro pode acreditar tão fervorosamente em coisas que simplesmente não aconteceram? O livro introduz o conceito de “fatos emocionais”. Para pessoas com certos transtornos de personalidade, sentimentos criam fatos.

Se eles sentem que foram traídos, eles acreditam que um ato de traição deve ter ocorrido e o apresentam como verdade no tribunal. A verdade chocante é que a intensidade da emoção do acusador pode, inicialmente, parecer mais crível para terceiros (juízes, avaliadores) do que a sua negação calma e factual. Isso explica por que pessoas razoáveis podem sentir que estão enlouquecendo, pois a realidade delas parece ser ofuscada por uma ficção emocionalmente carregada.

O livro ilustra isso com um exemplo vívido: em uma disputa de custódia, uma mãe mencionou que seu filho sofreu “alguns” arranhões em uma briga com a irmã. O pai disse que foram “poucos” arranhões. No entanto, a conselheira do tribunal, influenciada pela narrativa negativa do pai, relatou em seu parecer que a criança tinha “vinte arranhões no rosto” — um fato que nunca existiu, mas foi gerado pela emoção do conflito e aceito como verdade.

5. Por Que um Advogado “Tubarão” Pode Afundar o Seu Caso

A cultura popular, especialmente em filmes, nos ensina que, em um divórcio difícil, você precisa do advogado mais agressivo e implacável que puder encontrar — um verdadeiro “tubarão”. Em casos de família envolvendo personalidades de alto conflito, essa abordagem pode ser desastrosa.

Juízes de família lidam com conflitos o dia todo e muitas vezes veem o advogado agressivo (e, por extensão, você) como a fonte do problema, não a solução. A pesquisa judicial citada no livro mostra que advogados que usam uma abordagem assertiva — focada em fatos, bem preparada e respeitosa — são igualmente eficazes em termos de resultado, mas são muito mais respeitados pelos juízes.

O que você precisa não é de um “advogado negativo” (negative advocate), que amplifica o conflito, mas de um “solucionador de problemas” (problem-solver). O seu ex-parceiro, muito provavelmente, buscará um advogado negativo que valide suas distorções. Sua melhor defesa é um estrategista cético e focado em fatos, que saiba como apresentar a verdade de forma calma e convincente.

Conclusão

Divorciar-se de um acusador persuasivo não é uma batalha justa. O sucesso não vem de lutar com fogo contra fogo ou de tentar “vencer” no jogo deles. Ele vem de uma mudança fundamental de estratégia: da reação emocional para a preparação estratégica, da argumentação para a documentação cuidadosa. Proteger-se requer a compreensão de que você não pode mudar a realidade deles, mas pode e deve se ancorar firmemente na sua, com fatos, registros e limites inabaláveis.

Em meio a um caos que você não pode controlar, como você pode começar a focar estrategicamente naquilo que pode?

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